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Contos criogénicos

Whisky com gelo ou o princípio da imortalidade

Com esta vaga de calor o melhor é comprar duas ventoinhas e começar a voar sobre a baía de Cascais. Se tiver vertigens, compre um frigorífico matulão e faça ensaios domésticos de criogenia. Pode sempre descongelar quando tiver passado o calor, a crise e a nova edição dos Ídolos. Para quem não sabe, a criogenia é a imortalidade através do gelo. É por isso que eu bebo whisky com muito gelo, para me tornar imortal.

Pastor Pelejão
2:38 Terça feira, 27 de Jul de 2010
Corpo frio em câmara ardente

Passava os fins-de-semana na loja de electrodomésticos do Colombo a galar os imponentes e impenetráveis frigoríficos.
Admirava-os naquela sua altivez fria de mármore.

Sentava-se numa cadeira de baloiço insuflável que comprara na Nauticampo para as férias em Albufeira, e ali se abandonava longas tardes, a olhá-los, numa devoção cega e reverente, com o catálogo da Ariston deposto nas mãos, como se a partitura de hossanas nas mãos de uma velha beata em desafinanço de Te Deum se tratasse.
Silenciosos, esfinges erectas em rígida coluna militar, os frigoríficos pareciam empertigar-se hirtamente com a atenção que lhes era dedicada. O homem anónimo - como todos os homens o são para os outros - observava-lhes as formas, o design, a estrutura das pegas, a combinação de cromados e dos painéis de alvura cintilante.
Conhecia-os detalhadamente - as suas diferenças indiferentes, os seus caprichos frívolos, os trejeitos de fabrico...

Depois, se ninguém estivesse a ver, gostava de lhes passar a mão pela frigidez albina, e explorar as inúmeras gavetinhas, cubículos, sacros orifícios, como quem serpenteia os dedos cupidescos sobre o corpo de uma mulher nova, de pele aveludada, púbis sedoso e mamilos dardejantes ao céu da boca do desejo.
Perto deles, respirava a solidão e a tranquilidade imensa dos fiordes.
Perto deles, o tempo não era mais do que um momento congelado, estático.
Sentia-se próximo dos frigoríficos, na exacta medida em que se afastava com repulsa dos outros homens.

Tanto tempo passava junto deles que foi despedido por um patrão de sorriso gelado, abandonado por uma mulher de amor frígido. Deixou as amizades congeladas numa covette, até que, um dia se escondeu num recanto da loja de electrodomésticos, camuflado entre os micro-ondas de última geração e a prateleira das varinhas mágicas Moulinex.

Esperou que o segurança da Agência Pinkerton de bigode aos tropeções adormecesse numa sesta vigilante, ligou a ficha de electricidade de um gigantesco Siemens com quase dois metros de altura, que cerimoniosamente lhe escancarou a porta. Despiu-se, retirou a gaveta dos vegetais e entrou.
Uma luz sumiça e hesitante desvaneceu-se na sombra que a porta do frigorifico, com a prateleira de ovos à proa, lhe projectava nas covas felpudas da omoplata.

Passadas algumas semanas, um jovem casal que procurava um frigorífico maiúsculo para guardar os iogurtes magros dela, as cervejas dele, abriu a porta do Siemens, encontrando o homem nu esculpido em bloco de gelo, com um sorriso fresco e jovial estampado nos lábios roxos.

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São Brás, enchidos de cura natural e relicários
madre silva (seguir utilizador), 1 ponto , 16:17 | Terça feira, 27 de Jul
A imagem miraculosa do Pastor a sobrevoar a baia de Cascais, propulsionado não por felpudas asas mas por ventoinhas, poderá revolucionar toda a arte sacra deste século, modificando a representação de Santos, Anjos, Arcanjos, Serafins e Querubins. Um pequeno voou para si, um grande passo para a modernização da igreja, acompanhando desta feita os mundanos avanços tecnológicos.
Caro Pastor Pelejão perante a primorosa descrição dos preceitos de conservação da sua Ordem, deduzimos que os três Pastores encontram-se numa loja de electrodomésticos, sito Colombo, gozando uma ferias merecidas dentro de um frigorifico de ultima geração. Ambicionando a criogenia, conquistando queimadoras valentes nas partes baixas e restantes extremidades. Por medida de precaução aconselhamos o uso da pomada de agrião (pasta de agrião triturado com manteiga). É um remédio caseiro que alivia a dor e evita a anti-estética formação de bolhas. Recomendamos que no processo de ressurreição besuntem generosamente as orelhas, nariz e etc… enquanto oram convictamente pedindo protecção a São Brás, padroeiro dos Alpinistas.
A nossa modesta Irmandade conserva os seus crentes usando métodos muitíssimo mais suaves e amigos do ambiente.
No Inverno optamos pelo fumeiro, efectuado com arte e engenho milenar. Primeiro os discípulos passam por uma cerimónia de esfoliação com sal grosso. Depois de bem limpinhos são besuntados, em ritual de massagens de Trás-os-Montes, com calda de colorau, banha, vinagre e azeite bento. O processo é semelhante ao tradicionalmente efectuado com o presunto de Chaves, só que este tem contornos mais espirituais. Posteriormente os crédulos são alimentados com doses maciças de enchidos de cura natural. A ideia é empanturrar os sentidos de forma a bloquear nefastos raciocínios de fuga. Por outro lado o cheirete que emanam é um claro sinal para as outras Congregações de Servas Religiosas, de que os inocentes já tem paroquia.
No Verão os cuidados são outros. Somos ambientalistas. Seres evoluídos, conscientes do perigo que representa o uso de frigoríficos. A preocupação da Comunidade não recai sobre a emissão de clorofluorcarbonetos, falamos de algo mais pragmático - a conta da luz. Na realidade um corte de energia por não pagamento pode muito bem demorar 24 horas a ser resolvido. O que leva à deterioração de muita paparoca.
Aqui vai a receita de como conservar um acólito no pico do Verão:

Ingredientes:
• 1 homem espiritualmente predisposto
• 1 folha louro
• 1 ramo salsa
• 4 dentes alho
• Vinho verde tinto
• Sal, pimenta, alecrim e carqueja
• Agua benta q.b
• Crucifixos, medalhas, agnus dei etc.

Põe-se num recipiente a folha de louro, salsa, os dentes de alho, o sal e a pimenta, esmagasse tudo muito bem num almofariz.
Numa banheira (poliban não serve), coloca-se o acólito nuzinho da silva. Rega-se o mesmo, cobrindo generosamente com vinho verde tinto (uns salpicos de agua benta dão um requinte muito próprio e trazem buena-dicha – é opcional). Mistura-se à marinada, o alecrim e a carqueja e os restantes ingredientes moídos. Salteia-se tudo com crucifixos, medalhinhas e um ou dois relicários (não convém carregar muito).
O vinho dá a pele um sabor delicioso (lembrando levemente coelho à caçador), por outro lado os vapores retiram a capacidade de discernimento do acólito, o que facilita imenso a evangelização.
Gratas por mais uma encantadora homilia, rezaremos por si, com convicção.
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