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Visite a Capital da Bruxaria. Porque, lá que as há, há...

Bruxas, feiticeiros e feitiços (que hão-de arder no fogo da queimada) acorrem a Montalegre sempre que o dia 13 coincide com uma sexta-feira. Tenha medo, tenha muito medo...

Joana Fillol (Texto) Lucília Monteiro (Fotos)
16:31 Quinta-feira, 19 de Nov de 2009

A estrada que nos leva de Chaves a Montalegre está pintada de breu. Os faróis vão iluminando o asfalto metro a metro. No céu, nem uma estrela. Laivos brancos difusos, iluminados pelo além, compõem um cenário fantasmagórico. Ouve-se o assobio do vento, erguem-se remoinhos de folhas secas no ar. O nevoeiro adensa-se à medida que entramos em terras de Barroso.

São quase oito da noite de Sexta-feira 13. A natureza convence-nos que as bruxas decidiram mesmo reunir-se por aqui. Ainda que sem lua no horizonte, a nossa imaginação consegue vê-las em voos fugidios, sentido ascendente. Cruzam-se nos céus sentadas em paus de madeira, vassouras de palha.

O cenário natural pode nem sempre ser tão perfeito (e desta vez, apesar da euforia inicial, a chuva há-de retirar algum encanto à festa), mas há uns cinco anos respira-se misticismo e bruxaria ao redor do Castelo de Montalegre sempre que a sexta-feira calha num dia 13. À custa de tantos dias de azar, a vila já ganhou até o epíteto de "Capital da Bruxaria" e... fortuna, muita fortuna. Montalegre enche-se de almas penadas, bruxas, dráculas, vampiros, feiticeiros, vindos de toda a parte do país e da Galiza vizinha.

Para conseguir lugar ao jantar num dos restaurantes, e cama onde pernoitar, é preciso reservar com meses de antecedência. Fernando Maia tratou de tudo para as amigas que trouxe com ele do Porto: "Lancei-lhes um bruxedo, disse-lhes 'ou vêm ou têm sete anos de azar'", conta. Elas foram e debaixo de uma capa negra (académica, mas virada do avesso ninguém nota...) elogiam a sopa de vermes, os munhenhos de bruxa e as asas de morcego salteadas com urtigas, tojo e embebidas em vinagreta que comeram ao jantar.

Nos restaurantes, até os produtos da terra, como a suculenta carne barrosã, se disfarçam com nomes do diabo. Tudo é feito para convocar superstições e enfeitiçar os visitantes: a entrada faz-se por  baixo de escadas, os talheres cruzam-se em cima dos pratos, cada mesa se não tem treze lugares, tenta-se que perfaça um número terminado em três, há sal grosso ao pé dos pratos - "É o único que desfaz o fogo das bruxas", explicam-nos. Em qualquer sítio onde se entre, há teias de aranha a forrar portas e paredes, guarda-chuvas abertos a pender do tecto. Alguns não descuram sequer a decoração exterior, com cabaças iluminadas, tochas, panos pretos a esvoaçar.

À porta da pensão Zé Maria, Luís Ferreira, um vampiro de dentes afiados e colar de caveiras, queixa-se da sorte: "As vítimas são poucas, estão a jantar, mas depois o sangue é mais docinho". Desta vez, terá a tarefa simplificada, as vítimas não terão escapatória. A chuva obriga a que a encenação que costuma ter lugar em frente ao castelo medieval, ao ar livre, seja transferida para o pavilhão multiusos. Do lado direito do palco, está um enorme caldeirão onde já arde a queimada. Do esquerdo, um boneco gigante com a cara do Padre Fontes, o grande responsável por esta e outras festas barrosãs. Com uma capa de burel sobre os ombros, o homem de carne e osso, parece gostar da cópia: "Tem os beiços maiores", compara, "mas eu quando era jovem também os tinha". Enquanto lhe tiram fotografias, lá nos vai contando, sem perder o sentido de humor, como tudo começou. "Podia ser às terças-feiras, mas as sextas calha sempre no fim-de-semana e nós queremos apostar no turismo prolongado", desmistifica. A Queimada, típica dos serões do Barroso, fê-la em público em 1986 no Congresso de Medicina Popular, a primeira vez: "O rito da queimada nasceu na minha infância, à lareira. Para curar gripes e constipações punha-se um caçoulo com aguardente a arder". A ocasião servia para um teatro familiar, lembra: "Púnhamos o caçoulo em frente da cara e parecíamos bruxas, almas penadas". Ele diz que apenas passou o que viveu em família, para outra mais alargada, "a família barrosã". E a quem o critica por entrar em terrenos pagãos, responde dizendo: "Sinto-me a fazer a acção de promoção de uma cultura popular". Para Padre Fontes, a religião também passa por aqui: "É a alegria, o convívio, o prazer de viver. Deus é festa, é alegria, é convivência". E a conversa interrompe-se porque o espectáculo vai começar e o Padre tem de tomar o seu lugar em palco, junto à sua imagem em pasta de papel.

Perto das onze da noite, num pavilhão a rebentar pelas costuras, eis que surgem dragões a cuspir fogo, pássaros gigantescos, carroças voadoras. Duendes, bruxas, demónios, morcegos, seres estranhos, num total de mais de 250 participantes (do Centro de Criatividade de Póvoa de Lanhoso e do Centro de Estudos do Barroso) contam a história dos cómicos medievais que chegam a Montalegre, convencidos de que aí encontrarão o elixir da alegria. A aventura é muita até chegarem a um castelo (desta vez imaginário...) onde as feiticeiras guardam "um líquido poderoso que queima as goelas e produz delirantes efeitos do riso". E é então que o Padre Fontes diz o "esconjuro" no meio do palco, afastando os tormentos, evocando o bem para que se mantenha. Quando termina, apelando às "forças do ar, terra, mar e lume" é hora de distribuir a queimada em copos de plástico por todos os presentes: 500 litros de aguardente, misturados com açúcar, maça e café e servidos quentes curam os males daqueles que a bebem. Mais de cinco mil, calcula o bruxo João Ribeiro, uma das dez pessoas que passou toda a sexta-feira a fazer a bebida e que, agora, escorre em suor enquanto mexe a queimada barrosã com uma enorme colher no caldeirão de cobre. Feitiços quebrados, a festa prossegue pelos bares e pela discoteca da vila.

Elas, as bruxas, existem, nem que seja por uma noite...

Palavras-chave   Capital da Bruxaria   Bruxas   Montalegre
 
 
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Zé Cravinho (seguir utilizador), 1 ponto , 18:38 | Quinta-feira, 19 de Nov de 2009
Brincando,brincando,é que o macaco foi à mãe.E desta maneira
carnavalesca,brincando vai-se entretendo o Povo com palermices e fantochadas em que também entra o Vigário de Cristo,pois o que interessa é manter o Povo crente no Àlém,no Poder dos espíritos malignos que só o Vigário de Cristo,o Cura d'almas,pode esconjurar.
Agora,como já não há Inquisição,as bruxas pode fazer bruxedo à
vontade que já não vão parar à fogueira,condenadas pelo Tribunal do Santo Ofício presidido pelos frades dominicanos.Agora até os Padres já não usam coleira e divertem-se com a bruxaria,pois os
rituais da Igreja,as rezas,o apêlo aos milagres,são também uma espécie de bruxaria.
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