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Áustria

Viena - Emoções de Outono

A capital austríaca veste-se com outras cores em Novembro: chegam os mercados de Natal e com eles o espírito festivo, o convívio e as compras mais originais

Célia Hatherly (texto)
19:13 Sexta, 20 de Novembro de 2009
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Decoração natalícia no "Christkindlmarkt", o mercado de Natal realizado em frente ao Burgtheater, em Viena.
Decoração natalícia no "Christkindlmarkt", o mercado de Natal realizado em frente ao Burgtheater, em Viena.
Heinz-Peter Bader/Reuters

GGRÜSS GOTT! O cumprimento é imediato e acolhe quem entra numa loja, num museu ou num restaurante. Os vienenses orgulham-se do que têm seja um café ou um quadro e gostam de partilhá-lo com simpatia. A minha chegada a Viena, ocorreu antes do nascer do Sol, graças ao madrugador voo da SkyEurope que nos entrega no aeroporto da cidade por volta das 6 e 30 da manhã. Os 2 graus negativos daquela manhã de Novembro aguçaram--me os sentidos para uma viagem de emoções inesperadas, algumas revelações e muita cafeína! O frio manteve-me bem desperta e os restos de neve só tornavam tudo mais interessante, embora derretessem rapidamente.
Comecei o percurso acidental pelo Ring, uma grande avenida que bordeja o centro da cidade. O edifício imponente da Ópera lembrou-me que estava na terra onde Mozart, Strauss, Schubert e Mahler singraram, fizeram correr tinta e rodopiar na corte. Primeiro edifício do Ring, em 1869, foi parcialmente destruído em 1945 por bombardeamentos aliados, só reabrindo dez anos depois. Mais tarde, entrei na visita guiada, mas a grandeza imensa da Staatsoper ficou por conhecer, pois apenas se vê a sala principal por onde desfilaram os nomes mais importantes do bel canto e alguns corredores. Continuando pelo Ring, encontro o Burggarten, o jardim onde está a icónica estátua de Mozart, e o colossal Hofburg, o palácio dos Habsburgos, a família imperial. Do lado oposto, fica a Maria-.eresien Platz e o Bairro dos Museus (Museums Quartier), um fabuloso investimento da cidade que engloba vários museus e equipamentos, constituindo um dos dez maiores complexos culturais do mundo. A reconversão dos antigos estábulos, em 2001, e a construção dos novos edifícios ficou a cargo da dupla de arquitectos vienense Ortner & Ortner.
Mesmo com pouco tempo, há que ver pelo menos o Leopold Museum e o Mumok (o Museu de Arte Moderna). O primeiro, o mais procurado, alberga o espólio de arte de Rudolf e Elisabeth Leopold. Este distingue-se por ter a maior colecção mundial de obras do expressionista austríaco Egon Schiele. Integra ainda muitas pinturas de Gustav Klimt o notável pintor do movimento da Secessão, cujo Beijo, que está no Belvedere, celebra agora o centenário de que se destaca o impressionante Morte e Vida. Ainda no complexo, não perca os cafés-restaurantes à noite transformam-se em bares trendy e as lojas, com destaque para a livraria e para a lomo shop.
A imagem da cidade-para-pessoas-mais velhas-e-dos-palácios-da--Sissi dissipou-se e hoje Viena é uma cidade fervilhante de arte moderna, lojas, design e gastronomia, com um espírito quase latino na forma de vida: sair de casa, sempre! Mesmo a nevar! E continua, sim, a ser a terra das valsas, das heuriger e das vinhas. E da informalidade, apesar da aparência cerimoniosa dos vienenses, em que tanto me cruzei com a rainha Sílvia da Suécia, como com o maestro Riccardo Mutti.

EM FAMÍLIA NO MERCADO DE NATAL
Mas é também a urbe sofisticada que não deixa cair as tradições. Ainda no Ring, encontramos o classicismo do Parlamento e a praça onde está o Rathaus, o edifício da câmara municipal. Com as suas torres sineiras, mais parece uma igreja gótica, apesar de ter sido construído em 1872-83.
O Rathaus empresta também a sua fotogénica silhueta ao principal mercado de Natal da cidade. Trata-se de uma tradição do Norte da Europa, que os vienenses celebram com vincado entusiasmo.
Com a chegada do Advento, e a partir de 15 de Novembro, os mercados abrem portas, com stands típicos em madeira, cada um decorado de maneira diferente. Bolas e decorações natalícias artesanais, cores fulgurantes, brinquedos de madeira, sabonetes caseiros, pães, doces, bolos, bolachas nas variadas formas, compotas, velas, mel e produtos de abelha, chamam milhares de vienenses que, depois da saída do trabalho, procuram um presente ou apenas beber uma caneca de glühwein (vinho quente com especiarias). Foi o que me valeu na minha primeira noite de mercado, com o frio continental a fazer das suas, enquanto famílias locais passeavam e conversavam, alheios ao vento gelado que fustigava a cidade. (Alguém imagina um mercado de Natal na rua em Portugal? Nada como um bom centro comercial.) E entre o glühwein e as maroni (castanhas assadas, 11 a 2 €) adaptei-me rapidamente ao convívio e ao conceito de compras mais próximo do espírito natalício que já conheci. E o ideal para as crianças que ficam deliciadas com a animação, com o ambiente e, claro, com o vasto leque de guloseimas.
Há outros mercados de Natal em Viena: vale a pena passar pelo da Maria-.eresien-Platz, entre os museus da História Natural e das Belas Artes, e pelo de Spittelberg, mais pequeno, em ruas atravancadas, e mais tradicional.

HISTÓRIA E COMPRAS
O centro de Viena é majestoso. O passado imperial recebe-nos com a pompa e circunstância de outros tempos, desde os fiaker coches que transportam, essencialmente, turistas e casais de namorados mesmo no Inverno aos cafés luxuosos e de pastelarias finas. O romantismo da cidade é contagiante e é fácil apaixonarmo-nos por um recanto, uma rua, um café, uma livraria. E os vienenses são sempre educados, até na forma como nos subtraem euros: se pagar com Visa alguns sítios cobram comissão, se pedir para guardar o casaco no bengaleiro cobram, se pedir para fazer embrulho de oferta. cobram.
As ruas pedestres parecem centros comerciais a céu aberto, pejadas de lojas irresistíveis, com boas compras de Natal. Passear na Kärntner até à Stephansplatz, onde está a catedral e seguir pela Graben até à Kohlmarkt (a mais cara de Viena) é um excelente exercício. Alamedas largas e elegantes conduzem-nos, por exemplo, a um santuário gastronómico: o Julius Meinl am Graben, um supermercado gourmet com dois andares e um restaurante. Ali encontram-se os alimentos mais sofisticados e exclusivos do mundo das delicatessen, desde o caviar do Cáspio aos lotes de café que fizeram a fama da casa, no início, há 140 anos. Ali perto, fica ainda o Schokoladekönig (o rei do chocolate), uma loja "perigosa", a não perder por todos os apreciadores de chocolate e bombons, que surgiu no lugar de um antiga retrosaria e manteve os balcões originais e as caixas de botões.
É óptima para presentes de Natal. Igualmente interessante e também com alimentos de todo o mundo, mas com um conceito mais popular de gourmet, é o bem recheado mercado do Naschmarkt. Desde os produtos frescos com peixes e frutas que fariam a inveja da Ribeira ou do Bolhão aos secos e conservas a escolha é vasta e a apresentação cuidada. A mais exótica será porventura uma loja de vinagres de todos os tipos, com preços igualmente de outro mundo... o Gegenbauer. Por fim, e ainda nesta praça, os gourmets não podem falhar a entrada na Babette, um espaço singular: livraria especializada em culinária que também serve almoços a preço acessível, dá aulas de cozinha e vende especiarias e outros mimos. Experimentem!

A TERRA DOS CAFÉS
Claro que, nesta altura, os muitos cafés tomados tinham correspondência directa na leveza da minha carteira. Até porque é impossível ficar só pela bebida quente: a pastelaria vienense é das mais interessantes da Europa, bem superior à francesa. Poderia ficar um dia inteiro no Café Demel (Kohlmarkt, nas "barbas" do Hofburg, pois era um dos fornecedores da família imperial), seduzida pelos strudel, pelos bolos de chocolate ou pelas esculturas em massapão. Nesta casa cheia de história, vemos os pasteleiros em acção através de um vidro e a dificuldade está na escolha. Já o café vienense a Wiener mélange, uma meia de leite bem forte é uma das hipóteses de escolha de uma longa lista de nomes em alemão, mas o chocolate quente também não cai mal.
Os cafés vienenses respiram vivacidade, conforto e tradição. E também muito fumo de tabaco que a lei austríaca nesse aspecto é bastante mais permissiva que a portuguesa. Só a partir de 2009 haverá mais restrições.
O primeiro onde entrei, o Landtmann, virado para o Rathaus, existe desde 1873 e era frequentado por Sigmund Freud. Outras celebridades como Marlene Dietrich, Romy Schneider ou até Hillary Clinton já ali bebericaram o seu café. Elegante como o Demel, não me senti nele tão bem como no lendário Café Central (na Herrengasse), com uma atmosfera mais relaxada.
Ponto de encontro cultural do virar do século XIX-XX por ali também passou Freud, bem como Arthur Schnitzler e Leo Trotski. Com pianista a zelar pelo ambiente e uma clientela variada este seria o meu café se vivesse em Viena. Ainda vi o Sacher pelo famoso bolo de chocolate com compota de alperce, o Sacher-torte (e, à semelhança do pastel de Belém, a receita original permanece secreta), o Sperl, tranquilo e sem turistas, o Hawelka e o Prückel, cheios de histórias. Em todos, o acto de tomar café é tudo menos simples: envolve imensos utensílios, tempo (impensável beber um café em pé) e disponibilidade para a cultura do local: conversar, ler o jornal ou um livro e saborear lentamente a chávena. Ah, é verdade, estava frio, mas quem se lembra disso depois de tão boas recordações? Grüss Gott!

 


 

Palavras-chave  mercado, Café, Viena, Natal, Mozart, Áustria
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