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Dino Buzzati

Viagem ao centro da alma

Novo livro do escritor italiano Dino Buzzati acaba de chegar às livrarias portuguesas. O Grande Retarto é uma surpreendente incursão pelos terrenos da Ficção Científica, numa tentativa de captar a essência do ser humano

15:03 Sábado, 10 de Abril de 2010
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Obras Completas - Viagem ao centro da alma
Na escrita de Dino Buzzati, o fantástico é um dos elementos mais presentes. Os cenários, em vários romances e contos, recordam esses universos impossíveis que deslumbram a imaginação de autores e leitores. Noutros casos, é a descrição do ambiente e o enredo a sugerirem que os limites da realidade foram claramente extravasados. No entanto, apesar desta tendência, são poucas as incursões nos terrenos mais avançados da ficção científica. Interessante excepção é este O Grande Retrato, que acaba de ser lançado pela Cavalo de Ferro, que tem vindo a publicar a sua obra completa. É nele que o escritor italiano melhor revela a sua visão do impacto das tecnologias no futuro da Humanidade.

O início do romance é sintomático da arte poética de Dino Buzzati e faz lembrar a sua obra-prima, O Deserto dos Tártaros. Chamado de urgência ao Ministério da Defesa, um pacato cientista é convidado a integrar um projecto especial. Que terá de aceitar sem saber dos pormenores, nem das condições. O segredo não só é a alma do negócio, é também a condição a que as personagens do autor de Os Setes Mensageiros muitas vezes se sujeitam. Sem dar por isso, Ermanno Ismani, como Giovanni Drogo junto dos Tártaros, vê o seu futuro decidido por outros.

Será então esse segredo a guiar-nos na primeira parte do livro. Dino Buzzati é exímio a gerir as nossas expectativas, prolongando ao máximo o caminho até ao local onde decorre a experiência científica. O suspense, porém, não retira interesse à narrativa, antes intensifica o momento da sua revelação. Isso mesmo se sente quando se entra no complexo militar e iniciamos uma vertiginosa viagem ao centro da alma. Porque é esse o tema central deste perturbador romance: indagar se uma máquina, um programa de computador, um algoritmo ou uma produção artificial conseguirá alguma vez reproduzir o que nos faz humanos. "À sobre-humana sensibilidade e força racional corresponderá também um sobre-humano espírito. Não há-de ser esse dia o mais glorioso de toda a História?", questiona-se uma das personagens. "Nessa altura irradiará da máquina uma potência espiritual que o mundo nunca conheceu, um fluxo irresistível e benéfico. A máquina lerá os nossos pensamentos, criará obras-primas, revelará os mistérios mais escondidos (p. 100)".

Publicado em 1960, quando a ficção científica vivia um novo fôlego, na sequência das duas guerras mundiais, O Grande Retrato testemunha o interesse crescente pela máquina. Não apenas como auxiliar mecânico, mas também como espelho do próprio homem. Ao mesmo tempo, uma potência e uma ameaça. Uma complexa equação que nem a Literatura é capaz de resolver e que Dino Buzzati define como "a misteriosa essência que faz com que cada um de nós seja único no mundo".
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