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Vacilantes rostos do passado

O sorriso do meu avô surdo que poisava em nós sem nos tocar e se ausentava num abismo de mudez

5:51 Quinta feira, 21 de Jan de 2010

Vacilantes rostos do passado: os meus avós, os meus tios, a minha bisavó, já tontinha, um militar com as tripas nas mãos a olhar-me na picada, numa atitude de oferta. Silenciosos verões, a serra da Estrela que continua a fazer-me sonhar, o céu da noite sobre as ramadas dos pinheiros. Cheiros da Beira Alta que só a mim pertencem, da roupa engomada nas gavetas e o do incenso, na igreja, quando era menino do coro e as flechas de São Sebastião, num altar lateral, me atormentavam. Riscos encarnados a imitarem sangue no corpo de pasta. A minha embirração por São Luís Gonzaga, possuidor de todas as virtudes que eu não tinha: obediência aos pais, bom aluno, simpático até ao enjoo e, segundo a pagela, esmoler. Ainda hoje a palavra esmoler me provoca uma reacção no género da que me transtorna quando uma faca raspa o fundo de um prato ou o giz, na escola, guinchava na ardósia. Esmoler não lembra ao diabo mas lembrou ao biógrafo de São Luís Gonzaga, que devia ter sido fuzilado no berço antes de ter tempo de crescer e escrever aquilo. O problema das crianças é que se tornam adultos: os gatos, por exemplo, são sempre gatos, que alívio. E os cavalos de carrossel não mudam nunca. Saudades do carrossel em forma de oito:

- Viaje no oito que viaja melhor

berrava o altifalante, e atrás do microfone um homem gordo, de bexigas, a piscar o olho às pequenas jeitosas enquanto limpava o suor das bochechas com um lenço gigantesco, esse não um vacilante rosto do passado, uma cara pavorosamente nítida, de anel do tamanho de uma algema no dedo. Silenciosos verões durante o dia, os insectos do crepúsculo contra a lanterna do alpendre, asas queimadas crepitando. O sorriso do meu avô surdo que poisava em nós sem nos tocar e se ausentava num abismo de mudez. O bolso do casaco dele cheio de palitos que não sei para que lhe serviam, não os punha na boca. Depois de morrer o casaco, de linho branco, permaneceu que tempos no cabide. Era bonito e triste, de uma melancolia amável. Não me ligava nenhuma, dava ideia de não ligar a ninguém. Sorria apenas. Vacilantes rostos ou sombras? Isto parece a introdução do Fausto de Goethe, vou mudar a agulha. Lembro-me da minha mãe cantar, lembro-me de parecer nossa irmã, lembro-me de eu a querer escrever. Com cinco ou seis anos copiava coisas dos jornais e considerava-as minhas. Fazia versos. Por volta dos treze anos comecei a entender que não tinha talento e seguiram-se séculos e séculos de prosa. Na altura ainda fazia essas diferenças. As prosas eram, evidentemente, horríveis, tinha consciência disso, mas tinha também a certeza inabalável, de cimento, que iria fazer o que nunca, antes de mim, se fizera. É esquisito que ainda hoje não pasme com a minha convicção de garoto. Como Bocage ao acabar de dizer um poema:

- Isto é meu, isto não morre.

Pois, mas morreu ele. Claro que nessa altura não me preocupava o que preocupava Balzac e ainda me preocupa hoje: a forma interna, as possibilidades internas do material, a administração das palavras no interior do texto, mas não vou aborrecer as pessoas com problemas técnicos. Quero que o canalizador me ponha a torneira a funcionar, não me interessa como o faz. E a maior parte dos leitores exigem resultados, o meio de os atingir é-lhes indiferente, enquanto a mim, por dever de ofício, o que me atrai num livro é desmontá-lo, ver o por dentro, os parafusos, as rodas dentadas, os amortecedores

(amortecedores é fundamental)

as bielas, a tralha escondida que põe a funcionar tudo aquilo. Quando John Cheever escreve "numa boa página de prosa ouve-se chover" a questão é como se chegou a isso, que milagres não há. De que maneira treinar a cabeça e a mão, apagar da memória tudo o que não faz parte do livro, aprender, até a tornar instintiva, a fazer a triagem do que nos irá servir e jogar fora resto. Que longo caminho até chegar aqui. E, ao mesmo tempo, a sensação de que estamos sempre a começar. Queridos, vacilantes rostos do passado. Daqui a nada eu, passado igualmente, na memória dos outros:

- Como era o António, que não me recordo bem?

Casaco e palitos não tinha, sorriso pouco, quase não falava. Sujeitava-se mal à ordem das coisas. Tentou, a vida inteira, conseguir vários níveis de emoção em cada frase e concentrar num nada o mundo todo. O resto considerava-o inútil. Um dia morreu. Deixou parágrafos. Na esperança que as asas queimadas dos insectos do crepúsculo contra a lanterna do alpendre crepitem não um segundo mas a eternidade inteira. Na esperança, não. Seguro disso, enquanto o céu da noite continuará sobre as ramadas dos pinheiros, no lugar onde foi mais feliz.

 

Palavras-chave   Crónica   António Lobo Antunes
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Rostos do passado
a.dúvida (seguir utilizador), 2 pontos , 10:41 | Quinta feira, 21 de Jan
Há sentimentos, perdas, que a linguagem não expressa... e há memórias que as minhas palavras não sabem traduzir. Prefiro o silêncio.
Sara
Pois é
mrstones89 (seguir utilizador), 1 ponto , 13:44 | Quinta feira, 21 de Jan
Tem realmente uma capacidade detalhista e uma imaginação de miúdo. Muito bem.
Eh lá !!!!
carlos vargas silva (seguir utilizador), 1 ponto , 17:06 | Quinta feira, 21 de Jan
Aca António tás forte hem !!!...

As tuas crónicas ao lê-las, farto-me de ver coisas.
Obgdo

Abraço
Os rostos vacilam...
lygnus (seguir utilizador), 1 ponto , 12:02 | Domingo, 24 de Jan
Como sempre, um dos meus escritores portugueses preferido, fascina-me pela sua transparencia, abre a alma ou o espirito, que prevalece e ainda bem, a meu ver, sobre a matéria.

Os rostos do passado, de uma maneira ou de outra vacilam e trazem-nos à memória coisas boas e coisas más.

O que me preocupa grandemente, sao o vacilar dos rostos presentes, porque vacilam neste País à deriva.
Não pinheiros de Roma mas das Beiras
arturgoncalves0 (seguir utilizador), 1 ponto , 16:47 | Segunda feira, 25 de Jan
"Não se volta a um lugar onde já se foi feliz", dir-lhe-á alguma coisa?
Pois voltar "ao céu da noite...sobre as ramadas dos pinheiros" é sempre tarefa árdua e custosa porque no baú das memórias encontramos as tralhas de que tanto gostavamos como aquelas que nos causavam pesadelos. Em nino, na Bairrada, onde passava as férias estivais, entre outros entretimentos tinha três que me davam particular gozo: andar pelos telhados, olhar as estrelas estendido na espreguçadeira e deitado no chão passar largos períodos a observar as carreiras de formigas, qual caravanas em pleno deserto que me deixavam perplexo, o que me passava pela cabeça e as histórias hilariantes que inventava. Ainda,hoje, dou comigo parado, quando vejo um cão a andar decidido com um destino certo, questionando-me para onde vai, porque vai e o que sente? Impressionante. Gosto de mim assim (grande narcisita!) ter a jovialidade de ter este tipo de pensamentos.
Deus foi generoso comigo, deu-me uma infância feliz o que me permitiu "amortecer" os dissabores próprios da vida. Dos rostos do passado só retenho nas molduras aqueles que me são gratos (o meu tio Armindo, que saudades, quase que choro) outros, alguns ainda vivos, desapareceram! Quero me lembrar deles e não consigo. Por vezes até tenho receio de me cruzar com eles e não os reconhecer, e fui tão feliz com eles até um dia...O António entende ...mas o que nos traz a todos a este local não são os nossos estados de alma mas o António e as suas letras juntinhas
o que será que pensam as ovelhas???
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 7:14 | Sexta feira, 29 de Jan
Dizem que devemos viver apenas o presente, que o passado já passou e que o futuro não existe! Eu não consigo separar-me do passado e duvido que poucos consigam fazê-lo, há sempre coisas que ficam para trás, boas que nos fazem sorrir e as más que nos magoam constantemente; porque vivemos no presente com o passado??? não há nada que mais me aborreça, quando abro o frigorífico e não sei o que vou lá fazer, varre-se-me completamente e depois de meia volta, lá vou eu novamente! mas o passado esse não há vassoura que o faça!!! ah! como eu gostava de limpar certas ideias! ofensas que me entraram pelos ouvidos há quase 5 anos e que ficaram sem resposta... tento apenas esquecê-las, melhor assim!
Um dia também vou DR. e lá, hei-de encontrar um riacho de água pura, onde lave os meus cabelos, aí se apagarão todas as ideias de que não gosto, pena dos que vão sentir a minha falta, mas creio que de lá talvez possa ajudá-los.
Há dias reparei através da minha janela da cozinha, que havia um rebanho na pastagem nuns terrenos aqui perto, eu gosto de observar os animais: todos comiam, menos uma ovelha que estava de nariz no ar muito pensativa! o que será que pensam as ovelhas???
será que também pensam na família? nunca tinha visto uma ovelha a pensar! ou estaria a admirar a paisagem, porque estava um sol lindo, que já há meses não aparecia!!!
Cumprimentos DR. repare também nos animais, são muito mais interessantes que nós!!!
    Re: o que será que pensam as ovelhas???   
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 7:38 | Sexta feira, 29 de Jan
O Óleo do motor na escrita
manuelrod (seguir utilizador), 1 ponto , 12:54 | Sexta feira, 29 de Jan
E no fim restará a memória que os outros terão dele, ALA, e tudo se resumirá, está seguro disso a um estalar como as faíscas que ressaltam da madeira incendiada, ou como o sal que se deita no fogo .(vidé Crepitar no dic. Priberam da líng. port.). Seremos feitos também de recordações ou mesmo só de recordações, de que mais podiamos ser feitos, simplesmente carne, osso e recordações gravadas por dentro de nós e que só nós vemos e sentimos verdadeiramente. E são essas recordações a massa de que somos feitos e que exalamos a cada momento quer queiramos ou não. E que recordação me chega hoje, porquê esta e não outra, e a seguinte que tipo de conjugação tem com a anterior, será sequer que terá ? A temperatura ambiente a paisagem os ruídos o nosso coração, as caras que vemos, as conversas que temos, trajectos feitos de tantas coisas em cada momento, qual prevalece, qual pesa mais no prato da balança...e ainda os medos e as dúvidas. a maior ou menor abertura de espírito a sensibilidade.

Este é um dos pontos de partida possível para a escrita, depois vêm as tais engrenagens, as roldanas labirínticas, as rodas dentadas o auxílio da rasura e da borracha de que ALA fala muitas vezes para me dar uma sensação maravilhosa qualquer que seja ela em cada semana.

Hah!
iconoclasta (seguir utilizador), 1 ponto , 20:50 | Quarta feira, 3 de Fev
O passado, por ficar lá atrás, se não lhe deixarmos espaço suficiente para existir leva-nos na frente até nos fazer cair.
Memórias Dt., Memórias !
margarida douwens (seguir utilizador), 1 ponto , 11:34 | Terça feira, 16 de Mar
Estou a comer babatas fritas Light(tem maenos gordura pois, pois) e a ouvir fados, isto não conbina com o papel e a esferófarafica, penso que nunca ouvi a palavra"esmoler dai pegar no dicionário. Fala sempre na familia,é bom lembrar mas, o militar com as tripas na mão dá que pensar no que ainda hoje deve pensar sobre essa cena pois se assim não fosse não falaria dela. Ainda bem que não sou só eu que me sujeito mal à ordem das coisas. Citou frases bem conhecidas, citou-se a si própio depois de morto, interessante e belo o que escreveu, sobre si morto mas, o nome não morre para a eternidade fica. Inutíl ? Sim tudo o resto é inutíl, utíl é sim pessoas como o Dt que vive e, revive suas recordaçoês. Dt o meu carrocel era redondo, com altos e baixos não me recordo do homem que gritava: mais uma corrida, mais uma viagem, memórias Dt., memórias que nos acompanham dia a dia, que comandam a vida, bom pelo menos comandam a minha pois que seria de mim sem as memórias ? Mas por muito felizes que sejam as lágrimas molham o rosto ao recordar pois esta máquina chamada coração sente profundamente que "Vacilantes rostos do passado" não voltam mais, que se foram e deixaram para sempre um lugar vazio no coração daqueles que tanto os amavam. Memórias Dt., Memórias ! Obrigada e, por favor não morra nunca, pelos menos antes de mim ! Memórias ! As do Dt. e de todos nós ! ( peço desculpa por alguns erros ortográficos ).
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