A intervenção de 3ª feira, 29, do Presidente da República foi a todos os títulos infeliz. Cavaco Silva veio a terreiro defender a sua honra, como pessoa e como Presidente, repudiando todas as insinuações de que tem sido alvo nos últimos tempos, no sentido de ter estado a alimentar o caso da "espionagem" à Presidência da República para favorecer o PSD em tempo de campanha eleitoral. E, sendo Cavaco quem é, e para mais Presidente, "o Presidente de todos os portugueses", é fácil entender que considere insuportável qualquer tipo de acusação de partidarismo ou sectarismo e tenha sentido a necessidade de vir a público. Mas, a partir deste ponto, tudo o resto é incompreensível e profundamente lamentável. Mas engana-se quem pensa que foi gratuito.
Cavaco Silva demarcou-se de qualquer intervenção pessoal no caso das alegadas escutas à Presidência ou aos seus elementos. Como afirmou mais que uma vez, pela Presidência, órgão unipessoal, fala apenas o Presidente ou os chefes da suas casas Civil e Militar. Mais ninguém tem a capacidade de o vincular em qualquer tipo de declaração. Para Cavaco, esta foi a razão de ser da sua intervenção. Garantir que o Presidente continua a merecer a confiança de todos os portugueses.
Mas, para os portugueses, não era isto, apenas, o que estava em causa. Em causa estava também o pano de fundo, a existência, ou não, de escutas no Palácio de Belém ou sobre elementos da equipa do Presidente. E Cavaco Silva, nesta matéria, nada esclareceu, nada enterrou. Muito pelo contrário, deixou tudo ainda mais nebuloso, ainda mais conflituoso.
Cavaco criticou os dirigentes socialistas que vieram a público exigir-lhe explicações sobre a notícia que dava conta da alegada intervenção do seu assessor Fernando Lima neste processo - notícia que é, também ela, uma triste história para o jornalismo -, considerando ter sido colocado perante um ultimato. Acusou, claramente, o partido do Governo de o "colar" à campanha social-democrata. Defendeu a liberdade, de quem quer que seja, poder exprimir os seus receios sobre que assunto for - como se algum dos membros do staff do Presidente fosse uma pessoa qualquer, sem exigências especiais, ou como se um caso de escutas na Presidência da República fosse um caso qualquer. Achou natural que qualquer cidadão se pudesse questionar como sabiam os políticos do PS das movimentações dos seus assessores. E, por fim, neste contexto, referiu ainda que o seu próprio computador, o seu próprio mail, tinha revelado vulnerabilidades numa vistoria realizada no próprio dia por especialistas em segurança. Vulnerabilidades? Que tipo de vulnerabilidades? Teóricas? Ou tinha sido já vítima de intrusão por pessoa indesejada?
Não, o Presidente, de facto, não fez um discurso para enterrar um assunto. E nunca, mas mesmo nunca, negou de forma clara e inequívoca a existência de escutas no círculo da Presidência. Era essa, verdadeiramente, a questão. E continua sê-la, mesmo para quem ache, numa manifestação de fé tão válida como a inversa, que tudo isto é um disparate absoluto. Continuará a ser história porque, na verdade, continua a ser permitida pelo Presidente.
Por tudo isto, é mais conflito o que vamos ter no futuro próximo. As primeiras palavras da resposta do PS ao discurso de Cavaco Silva ainda indiciaram o contrário, ao lembrarem que não era esta a melhor altura para se abrirem frentes de conflito institucional - na verdade, novas frentes, porque já vai muito longe o tempo de cooperação entre São Bento e Belém. Mas cedo se percebeu que o discurso de Silva Pereira virava rapidamente para a discussão taco-a-taco com o Presidente, numa lógica de "reposição da verdade dos factos". E isso é grave. É um retrocesso no regime democrático. Não há memória de um ataque directo de um Presidente da República, nos termos em que este foi feito, em comunicado formal, a um partido político. Como não há memória de um partido político ler um comunicado oficial a desmentir o Presidente da República.
Cavaco foi infeliz e Sócrates, por intermédio de Silva Pereira, também. O líder do PS tem pela frente a difícil tarefa de dirigir o País com uma base eleitoral de maioria relativa, dependendo, à direita, de um CDS que está longe do ponto de vista ideológico e que é capaz de lhe provocar cisões internas (ver entrevista a Manuel Alegre, na VISÃO desta semana), e, à esquerda, de dois partidos igualmente distantes, quer em relação ao PS quer entre eles próprios. Por tudo isto, não precisava de alimentar mais uma dificuldade, voltando a hostilizar deliberadamente o PR.
Cavaco não foi feliz e Sócrates respondeu ao mesmo nível, perdendo aqui uma primeira oportunidade de mostrar que tinha mudado de registo e que tinha merecido melhor votação