Visão - Homepage
Faça aqui o seu
Subscreva dos feeds RSS da visão.pt
RSS
Assinaturas: Papel | Tablets e Vouchers | Digital
Convite aos Leitores: Deixe aqui a sua Opinião
Página inicial  >  Opinião  >  Pedro Camacho  >  Uma noite para esquecer

Uma noite para esquecer

Não há memória de um tal ataque do PR a um partido. Nem de um tal desmentido de um partido às palavras de um Presidente

1:02 Quarta, 30 de Setembro de 2009
Partilhe este artigo:

A intervenção de 3ª feira, 29, do Presidente da República foi a todos os títulos infeliz. Cavaco Silva veio a terreiro defender a sua honra, como pessoa e como Presidente, repudiando todas as insinuações de que tem sido alvo nos últimos tempos, no sentido de ter estado a alimentar o caso da "espionagem" à Presidência da República para favorecer o PSD em tempo de campanha eleitoral. E, sendo Cavaco quem é, e para mais Presidente, "o Presidente de todos os portugueses", é fácil entender que considere insuportável qualquer tipo de acusação de partidarismo ou sectarismo e tenha sentido a necessidade de vir a público. Mas, a partir deste ponto, tudo o resto é incompreensível e profundamente lamentável. Mas engana-se quem pensa que foi gratuito.

Cavaco Silva demarcou-se de qualquer intervenção pessoal no caso das alegadas escutas à Presidência ou aos seus elementos. Como afirmou mais que uma vez, pela Presidência, órgão unipessoal, fala apenas o Presidente ou os chefes da suas casas Civil e Militar. Mais ninguém tem a capacidade de o vincular em qualquer tipo de declaração. Para Cavaco, esta foi a razão de ser da sua intervenção. Garantir que o Presidente continua a merecer a confiança de todos os portugueses.

Mas, para os portugueses, não era isto, apenas, o que estava em causa. Em causa estava também o pano de fundo, a existência, ou não, de escutas no Palácio de Belém ou sobre elementos da equipa do Presidente. E Cavaco Silva, nesta matéria, nada esclareceu, nada enterrou. Muito pelo contrário, deixou tudo ainda mais nebuloso, ainda mais conflituoso.

Cavaco criticou os dirigentes socialistas que vieram a público exigir-lhe explicações sobre a notícia que dava conta da alegada intervenção do seu assessor Fernando Lima neste processo - notícia que é, também ela, uma triste história para o jornalismo -, considerando ter sido colocado perante um ultimato. Acusou, claramente, o partido do Governo de o "colar" à campanha social-democrata. Defendeu a liberdade, de quem quer que seja, poder exprimir os seus receios sobre que assunto for - como se algum dos membros do staff do Presidente fosse uma pessoa qualquer, sem exigências especiais, ou como se um caso de escutas na Presidência da República fosse um caso qualquer. Achou natural que qualquer cidadão se pudesse questionar como sabiam os políticos do PS das movimentações dos seus assessores. E, por fim, neste contexto, referiu ainda que o seu próprio computador, o seu próprio mail, tinha revelado vulnerabilidades numa vistoria realizada no próprio dia por especialistas em segurança. Vulnerabilidades? Que tipo de vulnerabilidades? Teóricas? Ou tinha sido já vítima de intrusão por pessoa indesejada?

Não, o Presidente, de facto, não fez um discurso para enterrar um assunto. E nunca, mas mesmo nunca, negou de forma clara e inequívoca a existência de escutas no círculo da Presidência. Era essa, verdadeiramente, a questão. E continua sê-la, mesmo para quem ache, numa manifestação de fé tão válida como a inversa, que tudo isto é um disparate absoluto. Continuará a ser história porque, na verdade, continua a ser permitida pelo Presidente.

Por tudo isto, é mais conflito o que vamos ter no futuro próximo. As primeiras palavras da resposta do PS ao discurso de Cavaco Silva ainda indiciaram o contrário, ao lembrarem que não era esta a melhor altura para se abrirem frentes de conflito institucional - na verdade, novas frentes, porque já vai muito longe o tempo de cooperação entre São Bento e Belém. Mas cedo se percebeu que o discurso de Silva Pereira virava rapidamente para a discussão taco-a-taco com o Presidente, numa lógica de "reposição da verdade dos factos". E isso é grave. É um retrocesso no regime democrático. Não há memória de um ataque directo de um Presidente da República, nos termos em que este foi feito, em comunicado formal, a um partido político. Como não há memória de um partido político ler um comunicado oficial a desmentir o Presidente da República.

Cavaco foi infeliz e Sócrates, por intermédio de Silva Pereira, também. O líder do PS tem pela frente a difícil tarefa de dirigir o País com uma base eleitoral de maioria relativa, dependendo, à direita, de um CDS que está longe do ponto de vista ideológico e que é capaz de lhe provocar cisões internas (ver entrevista a Manuel Alegre, na VISÃO desta semana), e, à esquerda, de dois partidos igualmente distantes, quer em relação ao PS quer entre eles próprios. Por tudo isto, não precisava de alimentar mais uma dificuldade, voltando a hostilizar deliberadamente o PR.

Cavaco não foi feliz e Sócrates respondeu ao mesmo nível, perdendo aqui uma primeira oportunidade de mostrar que tinha mudado de registo e que tinha merecido melhor votação

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
 
 
Aumentar texto  Aumentar texto Diminuir texto  Diminuir texto ImprimirImprimir Enviar por emailEnviar por email
Partilhe este artigo:
 
 
6 comentários
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Não há memória
vguerra (seguir utilizador), 1 ponto , 10:58 | Quarta, 30 de Setembro de 2009
Não há memória de um partido descer tão baixo e do jornalismo perder a honra...
Análise
ffortes (seguir utilizador), 1 ponto , 13:30 | Quarta, 30 de Setembro de 2009
Análise fria e equilibrada. Ninguém sai bem na fotografia.
Imparcialidade
PedroBarros (seguir utilizador), 1 ponto , 15:20 | Quarta, 30 de Setembro de 2009
É o único comentário de quem trabalha na Visão que demonstra imparcialidade e equilíbrio. É pena que mais ninguém comente a posição do PM (e Governo) nesta história.
rogeiro o sabe tudo
crente (seguir utilizador), 1 ponto , 15:41 | Quarta, 30 de Setembro de 2009
O Rogeiro (o sabe tudo) é o tal que ganhou protagonismo aquando da guerra do Iraque, em que dizia que iria haver uma guerra mundial tal o poderio do Iraque com o nuclear, os scuds, etc. Depois foi ver os iraquianos de espingardas da 1ª guerra e panos brancos.
Ontem na sic notícias notou-se um ódio ao PS e em particular a Sócrates, dizendo sempre que Sócrates poderia não tomar posse como primeiro Ministro, chegando ao ponto (pasme-se!) de dizer que era possível até, os partidos da oposição juntarem-se todos e formar governo. Será algum trauma em relação a Sócrates? Quereria ele ser o mais sexy de Portugal?
A manipulação de que fala Cavaco
artmcosta (seguir utilizador), 1 ponto , 16:55 | Quarta, 30 de Setembro de 2009
Não percebo como podia o PS , que foi referido como o partido do governo pelo PR, pudesse ignorar na sua resposta a acusação de manipulação da campanha eleitoral. Se nada tivesse dito seria recomhecê-la, o que seria muito grave. Quem tomou a iniciativa de declaração de guerra foi Cavaco Silva.
A OPINIÃO DE PEDRO CAMACHO
Aguinaldo Faria (seguir utilizador), 1 ponto , 17:10 | Domingo, 11 de Outubro de 2009
Considero ajustado o que aqui escreve, mas erra na conclusão final. Parece que certos articulistas têm dificuldade em escapar à tendência de arredondar o seu discurso, unindo pontas e caindo na ambiguidade. Pois, não acho que o PS pudesse ter outra atitude senão o esclarecimento público em reacção às duras, inconcebíveis e ainda por cima infundamentadas palavras do PR na triste comunicação do dia 28. Não deve haver memória nas democracias ocidentais de um PR atacar pública e violentamente um governo legítimo, para mais acabado de ser reelleito nas urnas. Assim como memória não deve haver de uma tão lamentável como indigente conduta de um PR, a descer ao nível da comadre das tricas de pátio e janela. O PR desprestigiou-se e enfraqueceu a nossa democracia, revelando-se mais talhado para presidente de uma junta de freguesia. O único responsável é ele e não vale trazer apreciações salomónicas, do género de distribuir o mal pelas aldeias. Haja mais rigor naquilo que se diz.
6 comentários
Página 1 de 1   
PUB
 
Grupo ImpresaACAP