Um mau político precisa sempre de criar uma boa confusão para poder sobreviver
12:12 Quinta, 26 de Agosto de 2010
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Nos meus tempos de saltimbanco, quando andava por África, uma das preocupações era a de encontrar casa num sítio que não tivesse uma mesquita ao pé da porta. A motivação não era religiosa, nem tinha qualquer conotação com preconceitos anti-islâmicos. Era uma questão de descanso. Com o chamamento para a primeira oração a ser feito, alto e bom som, por volta das quatro e meia da manhã, e com outras invocações ao longo dia, incluindo à hora da sesta, era fácil explicar a razão. E nunca tive qualquer problema com os líderes religiosos desses países. Nalguns casos, como aconteceu na Serra Leoa e no Chade, as associações de xeques ajudaram-me, sem qualquer hesitação, na resolução de conflitos violentos entre vários grupos armados.
Já não será tão fácil compreender o que se passa hoje nos Estados Unidos, à volta da construção de uma mesquita e de um centro comunitário islâmico, na baixa da cidade de Nova Iorque. Com o argumento que o projeto vai nascer na zona do Ground Zero, e que os atentados de 11 de Setembro foram obra de muçulmanos, a direita, os fanáticos, os vistas curtas e certos dirigentes do Partido Republicano conseguiram transformar o assunto num problema político nacional. Com a aproximação das eleições de Novembro, com 37 lugares no Senado em disputa e a Câmara dos Representantes a votos, a oposição ao projeto é vista como uma maneira expedita de atacar o Presidente Obama e os Democratas. De um lado estariam os verdadeiros patriotas, gente que respeita os bombeiros, os polícias e os que foram vítimas dos atentados. Do outro, uns meias-tintas com ideias vagamente modernistas, de patriotismo duvidoso, mais inclinados a ouvir o mundo exterior do que os bons cidadãos do Alasca ou do Arizona. Com esta simplicidade se pinta um quadro político, com os bons de um lado e os maus, do outro.
O aproveitamento político de um projeto discreto - a mesquita não terá nenhum sinal exterior de caráter religioso, nenhum minarete que a identifique - é paradigmático. Usa-se e abusa-se da ignorância de muitos cidadãos, dos preconceitos contra o Islão, dos sentimentos de exclusão em relação ao que é diferente, para dar espaço e protagonismo aos que ainda não aceitaram a eleição de um afro-americano como presidente. E que têm também muita dificuldade em acolher a reforma do sistema de saúde - não só por motivos ideológicos mas igualmente pelo impacto que o novo sistema vai ter nos lucros das seguradoras e de outras empresas com interesses no setor. Sem contar com os que não conseguem imaginar que os EUA possam ter um presidente que diz a Israel o que Obama tem dito - embora o diga com moderação e equilíbrio, que o peso dos lóbis judeus não pode ser totalmente ignorado por um político que gostaria de ser re-eleito.
Curiosamente, entre o Ground Zero e o edifício em causa existem dois dos mais conhecidos clubes de cavalheiros da baixa da cidade. São estabelecimentos de striptease e de outras práticas, que terão muito pouco de patriótico e, ainda menos, de religioso. Mas para os expoentes mais aguerridos do Partido Republicano, como Sarah Palin e Newt Gingrich, isso não é politicamente relevante. O que pode dar votos é o apelo aos medos primários das pessoas mal informadas. Mesmo num país que foi fundado com base no respeito pela liberdade religiosa de cada indivíduo. A moral da história é, mais uma vez, que um mau político precisa sempre de criar uma boa confusão para poder sobreviver.
Caro Vítor Ângelo,
Nem imagina o prazer que tenho em ler uma crónica escrita por alguém que sabe realmente do que fala, ao contrário de muitos internautas, cujos comentários revelam uma grande pobreza de espírito!
Muito obrigada!
No meu fraco entender de simples operário emigrante e já velhote
(86 anos)direi que embora a típica Democracia americana seja
dominada pela Plutocracia,dado que o Demo na terra do Tio Sam
mafioso e flibusteiro,pouca capacidade tem para determinar a Política a seguir tanto pelo Partido dos Rèpublicanos como pelo
Partido dos Democratas,todavia deve dar-se ao Demo ou seja ao
POVO,especialmente ao habitantes da cidade de Novaiorque a oportunidade de,por exemplo em Referendo,pronunciar-se sôbre
a construção dessa tal Mesquita.Aos Poderosos que governam os
Povos em qualquer parte do Planeta,desde há milénios que se servem
dos Deuses e das Religiões inventados pelo HOMEM para manter os
Povos subjugados,ajoelhados perante os ídolos ou de cabeça no chão e cú p'ró ar.Daí a razão de ter sido consagrado nos chamados
Direitos Humanos a liberdade religiosa ou seja a liberdade dos
chamados teólogos,Vigários dum Deus fabuloso,poderem explorar a crendice,a superstição,vigarizando assim,as GENTES.
Nos últimos dias surgiram em vários orgãos de comunicação , incluindo a Visão um tipo inquérito para saber a religião de Obama... se seria muçulmana ou cristã.
Isto na sequência das declarações de Obama, que com toda a naturalidade e tolerância disse que não via nenhum problema na construção de uma mesquita ou de um centro comunitário islâmico na área do ground zero.
Na verdade, Obama revela ser um político consciente e tolerante, capaz de assumir as suas palavras, ao contrário dos seus adversários que aproveitam as suas declarações para se fazerem notar... criticando como é óbvio a atitude do Presidente.
Num país dito moderno nas suas ideias, pleno de oportunidades e de liberdades, incluindo a liberdade religiosa, existem muitas mentes que continuam fechadas ao mundo, ou precisam aproveitar"as palavras de Obama", por falta de ideias próprias e de nada fazerem a não ser aproveitar as luzes da ribalta para se promoverem a si mesmos.
Nada seria de esperar de si a não ser um Comentário Sério, conforme os que nos tem habituado a ler.
Aquilo que disse - com sabedoria e bem fundamentado - é e foi aquilo que sempre disse e penso sobre os "Políticos" e sobre "Países" (EUA e OUTROS) porque são tomadas posições somente para alcançar o Voto Fácil e nunca a pensar no País e muito menos nas realidades e necessidades prementes. Não é o seu caso e sei que nunca o será.
Denunciei muitas vezes tomadas de posição assumidas em ocasiões que somente tinham a ver com "politiquices" e não com realidades mas fui sempre Contestado e por vezes com uma Agressividade que mostrava desde logo a sua origem ideológica.
A honestidade de pensamento não é para todos mas sim para os Eleitos. Bem Haja.
Esta semana na Sic Notícias passou o episódio do Daily Show referente à polémica e ainda não existente Mesquita. Ele demonstrou que já exista lá uma desde do tempo em que nem a Wall Street se tinha instalado. E é tão discreta que ninguém sabe que lá está. Mostrou-nos também a Sra. Palin a falar sobre o assunto. Pensei eu com os meus botões se não houvesse ninguém a acreditar nela, até chorava a rir. Ela é hilariante. Mas como o Sr Vitor diz e muito bem, confunde tudo para que quem não saiba também não fica a saber.