As perguntas a Sócrates não adiantariam nada e algumas nem são admissíveis pois não se referem a factos antes pedem opiniões, explicações, comentários
9:43 Quinta, 5 de Agosto de 2010
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O assunto já foi bastante tratado, mas é de tal gravidade que não posso deixar de falar dele. Tanto mais ter a ver com áreas a que há muito estou ligado: a Justiça, que é para mim, com a liberdade, o valor supremo; e a comunicação social. Refiro-me ao caso Freeport /José Sócrates. E começo por lembrar que combatendo a impunidade reinante, várias vezes defendi, por exemplo, e resumindo, que a absolvição em processo-crime de um político acusado de corrupção não exclui uma condenação ética e política, que o deve impedir de manter-se em funções.
Porque absolvição pode claramente não significar inocência do acusado, mas apenas que, apesar da prova constante dos autos, em julgamento não foi possível produzi-la; ou que foi anulada por razões formais; ou que subsistindo uma dúvida mínima só não houve condenação por força do princípio in dubio pro reo. Assim considero que tão ou mais importante que a decisão criminal é saber quais os "factos" apurados no processo.
Pois bem, neste caso devem-se antes de mais lembrar, sublinhar, três importantes pontos prévios:
1) José Sócrates, o então ministro do Ambiente e hoje chefe de Governo, começou por ser "acusado" em vésperas de umas eleições, por uma denúncia anónima de um político em conluio com um inspetor da polícia - ambos já judicialmente condenados;
2) A acusação fundamental consta de um vídeo de uma conversa em que os alegados corruptores (que depois negaram o seu teor) tentam "sacar" dinheiro para, diziam, corromper o ministro. Ora, como haviam de o "sacar", para eles, se não dissessem que era para "comprar" outro(s), e quanto mais bem colocado(s) melhor, porque seriam mais caros?... Não obstante, o vídeo passou repetidamente no Jornal de 6.ª da TVI, tendo como resultado (e como objetivo?) lançar sobre Sócrates aquela suspeição: mas a acusação que ele deduziu, não foi aceite pelo Ministério Público;
3) Das investigações, em Portugal e em Inglaterra, nenhum facto se provou contra Sócrates; e nem sequer se apuraram "indícios", a menos que como tal se considerem, o que é absurdo, umas trapalhadas que só podem ganhar esses contornos se lidas à luz das próprias suspeitas. Isto é: invertendo por completo a lógica e o Direito.
E chegou-se ao despacho final que se sabe, dos procuradores responsáveis pelo processo. Com o primeiro-ministro, durante anos submetido a fortes ataques e enorme pressão, alvo de algumas "práticas" violadoras do bom jornalismo e do Código Deontológico, não só não acusado, como nunca arguido nem ouvido no processo. Entendeu ele então - acho que mal, desnecessariamente - vir a público dizer o que lhe ia na alma. Para, no dia seguinte, parecer que tudo voltava ao princípio! Por força de parte daquele despacho que é um tratado do que não deveria ser, do que não pode ser a Justiça. Porque, telegraficamente:
a) É intolerável que ao fim de seis anos de instrução do processo se diga que se pretendia ouvir o primeiro-ministro mas não houve tempo;
b) É intolerável, mesmo considerando só três semanas de prazo, que se o queriam ouvir não o tivessem requerido, através das vias competentes;
c) É intolerável que se o prazo não chegasse, dadas as formalidades exigidas, não tivessem pedido a sua prorrogação;
d) É intolerável, mais intolerável ainda, que já não podendo, dando de barato que não podiam, ouvir Sócrates, tivessem escrito as perguntas que lhe queriam fazer, deixando-as (para as deixar) no processo. Tendo obrigação de saber, ou no mínimo admitir, que elas concorreriam para manter as suspeitas sobre (e a campanha contra) José Sócrates, sem nenhuma possibilidade de ele se defender;
e) É intolerável, mais intolerável ainda, tudo isto, dado parecer óbvio que tais perguntas não adiantariam nada; e que algumas perguntas não fazem sentido ou não são sequer admissíveis, pois as testemunhas devem depor sobre factos e não dar opiniões, encontrar explicações ou fazer comentários, que é o que várias vezes nelas se pede.
Enfim, estamos perante mais um caso do que com muita pena tenho de chamar uma intolerável Justiça.
É pena que JCVasconcelos (que eu vejo muitas vezes em Carcavelos) e outros pesos pesados como D.P. de Carvalho, Judice, ministro da justica (ao contra-ataque todos ontem), passando por F.Asis (que também parece ser um homem sério) estarem ligados a este personagem Socrates.
Se alguns (como o JCV) são pessoas do PS, o melhor que tinham a fazer para salvar o partido era livrarem-se deste tipo. Este é o unico argumento a tirar disto tudo. Este fulano tem (e vai continuar a deixar) um rasto de sujidade por onde passa. É só nisto que devem pensar.
Intolerável é o mínimo com que se pode classificar o comportamento destes dois procuradores que, pela sua idade e curriculum, não podem ser classificados de incompetentes.
Então porque actuaram da forma conhecida, com alguns laivos de infantilidade ?
Não foi certamente por ingenuidade.
Li com muita atenção o artigo de JCV, jornalista que, a par de algumas honrosas excepções (poucas infelizmente), independentemente da sua simpatia política ( quem as não tem?), demonstra isenção nas suas análises, apresentando os factos, extraindo à lupa os elementos que possam ser úteis a uma apreciação cuidada da situação criada.
Não vou criticar as opiniões dos comentadores para não vir a ser acusado de sectarismo na minha análise.
Sou pela justiça, não por esta justiça.
Sou por uma razão provada e não por uma razão forjada.
Sou pela transparência e não por faltas de transparência inventadas.
Sou pela verdade e não por arremessos de intencionais e cirúrgicas ofertas de rebuçados destinados a adoçar a mente do público com aquilo que ele gosta de ler, ver e ouvir.
Neste artigo que pela sua clareza e pela sua profundidade põe a claro alguns pontos obscuros deste emblemático processo para a comunicação social em geral, noto que João Carlos de Vasconcelos procura desviar-se deste cepo colocado no caminho da transparência. Passa ao de leve naquilo que eu considero ser o polo emissor de toda esta polémica, gerada, fermentada e fabricada por uns a apoiada e envenenada pela comunicação social. Dizer apenas: “Com o Primeiro Ministro durante anos submetido a fortes ataques e enorme pressão, alvo de algumas "práticas" violadoras do bom jornalismo e do Código Deontológico, não só não acusado, como nunca arguido nem ouvido no processo”, dizer só isto, é muito pouco para por em relevo as grandes parangonas dos jornais e as “caixas” dos tele jornais, aliados ao defunto e bem morto Jornal de Sexta da TVI. Podia ter escrito mais. Compreendo no entanto a sua parcimónia, embora não a aprove. Não liga muito com o JCV cujos artigos venho acompanhando há longos anos. Para ser honesto não basta sê-lo. É preciso também parecê-lo.