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Uma digressão pelas ditaduras

Não há justificação alguma para o sofrimento humano imposto por qualquer senhor do poder

11:43 Quinta, 18 de Fevereiro de 2010
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A minha experiência de anos faz-me dizer que entrar em conflito com o Conselho de Segurança das Nações Unidas é um erro político de peso. Os dirigentes que optaram por essa via de confrontação acabaram, com o tempo, por ser isolados pela comunidade internacional. O exemplo mais recente é o da Eritreia. Entrara em choque com a ONU, por causa das dificuldades que decidira criar à operação de manutenção de paz, a UNMEE, que tinha como mandato assegurar uma zona tampão de segurança, na fronteira entre a Eritreia e a Etiópia. O governo eritreu resolveu, mesmo, expulsar a missão. Acabou com o mandato, num rompante, sem qualquer tipo de consulta com os membros permanentes. As atitudes de hostilidade criaram as condições políticas para que o Conselho, à primeira oportunidade, adoptasse um regime de sanções contra os dirigentes de Asmara.

É verdade que os ditadores, habituados, nas suas terras, a fazer o que lhes passa pela cabeça, sem necessitarem de prestar um mínimo de atenção às normas jurídicas, à opinião da maioria ou ao bom senso diplomático, não entendem as regras básicas das relações internacionais. A história e os factos presentes estão recheados de exemplos. Assim aconteceu com Salazar e Caetano, no seu tempo, que passaram anos a guerrear com a Comissão de Descolonização. Ou mais recentemente, com Milosevic e com Saddam Hussein. Ou, agora, com os tiranos do Irão ou da Coreia do Norte, para mencionar apenas, e tão somente, os dois exemplos mais conhecidos.

Acontece, por vezes, que certos membros permanentes do Conselho de Segurança não exercem a política de influência que deveriam, junto desses dirigentes desgarrados. Preferem apostar numa relação de status quo, que não traga alterações à situação existente. É o velho princípio de que mais vale trabalhar com o diabo que se conhece do que com o desconhecido. É também um mau entendimento dos seus interesses estratégicos,  com as vantagens do curto prazo a serem sobrestimadas. Foi assim com Mobutu, até a situação se tornar explosiva. O mesmo acontece no relacionamento com certos senhores do poder absoluto, que se tornam honoráveis porque cheiram a petrodólares. Ou porque são uma barreira contra o fundamentalismo religioso. É também o caso da Europa frente a certos homens do poder em África, em relação aos quais se fecham os olhos, se faz de cego, para manter uma suposta zona de influência. Só que esta maneira de fazer política internacional acaba sempre por abrir as portas a crises e conflitos. O oportunismo em política é o pai de grandes desastres.

Quando o Conselho não se mexe, existe a possibilidade da mobilização das ONG internacionais. As grandes ONG, as que fazem campanhas de opinião de um modo sistemático e credível, são actualmente um elemento fundamental na tomada de decisões. As posições que defendem, as causas que assumem, os comunicados que emitem, tudo isto pesa nas chancelarias. São estas organizações que nos lembram, repetidas vezes, que a comunidade das nações tem o dever de proteger os direitos humanos, de salvaguardar as vidas das populações civis expostas a cenários de violência, de dar abrigo aos refugiados e assistir os deslocados, que a insegurança fez fugir das suas terras de origem. Quando essa pressão é forte e bem orquestrada, o Conselho acaba por assumir as suas responsabilidades e a máquina de triturar ditadores, pequenos ou grandes, aprendizes ou useiros, entra em movimento. E quando mais cedo melhor, que não há justificação alguma para o sofrimento humano imposto por qualquer senhor do poder. Porque afinal a razão de ser da política, nacional ou internacional, é a de garantir a protecção dos mais vulneráveis.

Palavras-chave  Victor Ângelo, opinião
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opinando a propósito
Zé Cravinho (seguir utilizador), 2 pontos , 14:11 | Quinta, 18 de Fevereiro de 2010
Está bastante correcta a análise aqui feita por Vitor Ângelo,mas há
que destacar o apoio do anglo-saxão Imperialismo às Ditaduras de
cariz fascista com foram as de Salazar,Franco,Pinochet,Videla,
Uribe,Mobutu,Bocassa,a dos Coronéis gregos,Arábia Saudita e Emiratos Árabes e outros mais Sistemas Políticos em que uma minoria
Capitalista oprime a maioria da população.E também se pode citar o Estado do Vaticano em que não existe democracia,mas como se trata do representante de Deus na Terra,que é um Deus Absoluto,o Imperialismo não se atreve a criticar.
    Re: opinando a propósito   
victor ângelo (seguir utilizador), 1 ponto , 17:57 | Quinta, 18 de Fevereiro de 2010
Uma digressão pelas ditaduras( Parte 1)
a.dúvida (seguir utilizador), 2 pontos , 15:11 | Quinta, 18 de Fevereiro de 2010
Caro VA,
Esta manhã procurei o seu artigo. Em vão. Por momentos pensei que nos tinha abandonado (a nós leitores). Vejo que afinal ele chegou lá pela hora de almoço...como o senhor diz perdeu-se por aí... (questões menores). Vamos ao que interessa.

O mundo está cheio de vítimas de ditadores e ditaduras e se algumas caem pela sua própria podridão, logo outras surgem com uma celeridade espantosa. Muitos seres humanos em todo o mundo conhecem as heranças deixadas pela repressão, pelos conflitos e pelos estragos provocados.

Depois nestas disputas há sempre os chamados danos colaterais. Os mortos que o são "por engano", por lamentável mal entendido...porque resolveram estorvar a trajectória dos projécteis das balas!

Aponta vários exemplos no seu artigo e cita o oportunismo político de alguns e os desastres que daí advêm. A protecção aos mais vulneráveis é (ou devia ser) a razão da política nacional e internacional. Falar da Europa em relação a África, da sua política externa, da sua comissária "de sangue azul" a baronesa Ashton...é pura perda de tempo, pois não me recordo de ter lido nada sobre o assunto. Ou eu ando distraída, ou a senhora Ashton anda perdida lá pelos corredores de Bruxelas...

O Conselho de segurança da ONU muitas vezes não exerce o seu papel, pelo menos da forma que devia. E se nada for feito, se as ONG internacionais que estão no terreno nada fizerem... se prevalecer a posição do Chade, que pretende a retirada da ONU (MINURCAT)

(continua)
Uma digressão pelas ditaduras (Parte 2)
a.dúvida (seguir utilizador), 2 pontos , 15:26 | Quinta, 18 de Fevereiro de 2010
(Continuação)

.... se prevalecer a posição do Chade... pois estaremos face ao aparecimento de "mais uma ditadura" e da explosão de vários conflitos naquela zona de África.

Aproximam-se as eleições no Sudão, o referendo sobre a independência do Sul . Conflitos entre etnias, jogos de interesses partidários, de guerilha armada só para espalhar o medo, o terror entre as populações.

Quem protegerá os campos de refugiados? Irão destruir-lhes a única coisa que eles possuem...a esperança? Quem protege as associações humanitárias no terreno? Como vão desempenhar o seu trabalho?

Claro que eu vislumbro aqui um imenso oportunismo político... o Chade mobilizaria todos os homens armados a ocupar o que a ONU construiu durante estes anos com esforço e empenhamento. Claro que os senhores da guerra também têm helicópteros para estacionar nos campos que a ONU construíu... e que lhes devem meter "inveja".

Mas se isso acontecer... ficaremos perante uma catástrofe humanitária sem precedentes nesta região de África. Um retrocesso de todos os processos e negociações de paz conseguidas com tantos esforços e diplomacia.

Claro que esta é uma leitura pessoal.

Um abraço,
Sara
    Re: Uma digressão pelas ditaduras (Parte 2)   
victor ângelo (seguir utilizador), 1 ponto , 18:04 | Quinta, 18 de Fevereiro de 2010
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