O País está para o futuro como o peru está para o Natal
6:04 Quarta, 23 de Dezembro de 2009
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Como definir a última década? Como definir a década do estertor final do guterrismo, da deprimente aventura Barroso/Santana Lopes, da perversa hegemonia socrática? Alguns, inspirados pelo espírito do Natal, gostarão de lembrar que, aqui e ali, existiram uns arremedos reformistas (primeiros meses dos executivos Barroso e Sócrates). Mas receio que seja boa vontade a mais. Apesar da santidade da quadra, só não vê quem não quer: a primeira década do século XXI português, se estatisticamente não marca ainda, em todos os indicadores, um verdadeiro retrocesso económico e social, passará provavelmente à história como a década do apodrecimento definitivo do regime herdado do 25 de Abril.
Por muito graves que sejam, não são a dívida pública, o défice orçamental nem o PIB per capita que, de per si, mais me preocupam. Preocupa-me, isso sim, a falência do modelo económico em que vivemos. Preocupa-me pensar que, na última década, baseámos todo o nosso desenvolvimento numa santíssima trindade formada pelo Estado (e a Europa), a Banca (e o crédito fácil) e as Obras Públicas. E preocupa-me ainda mais registar que a promiscuidade entre os poderes político e económico (que é uma consequência óbvia do modelo de desenvolvimento que escolhemos) ultrapassou novos limites, durante os últimos anos de maioria absoluta socialista.
Preocupa-me pensar que a última década é a década da degradação final do nosso sistema de Justiça. Preocupa-me pensar que os casos Casa Pia, Portucale, Moderna, Operação Furacão, Freeport (e poderia citar muitos mais), nos tiraram qualquer ilusão acerca da capacidade de se fazer justiça em Portugal, sempre que estão envolvidos interesses políticos ou económicos poderosos. E preocupa-me tanto mais quanto tenho para mim bem claro que uma sociedade que deixa de acreditar na justiça perde, a prazo, qualquer viabilidade, enquanto projecto político.
Preocupa-me pensar que a última década condenou à mediocridade mais uma geração de alunos portugueses. Por força das cedências contínuas às pressões corporativas, por força do poder tenebroso de um sistema kafkiano que se alimenta a si mesmo e por força da total ausência de uma cultura de exigência e de excelência.
Preocupa-me ter de admitir que o nosso sistema político-partidário possa ter perdido qualquer hipótese de regeneração. Não é uma questão ideológica nem de simpatia partidária. É a constatação de um facto simples: o PS e o PSD que, desde o 25 de Abril, formaram o sustentáculo maior do nosso sistema político, afastaram-se irremediavelmente da sociedade, deixaram degradar os seus quadros a um nível verdadeiramente deprimente, tornaram-se simples câmaras de ressonância de um bloco central de interesses que desacredita todo o nosso edifício democrático, perderam qualquer capacidade e vontade reformistas e deixaram, portanto, de protagonizar alternativas de regeneração sistémica. Mais uma vez, preocupa-me particularmente o facto de intuir que esta degeneração se agravou de sobremaneira nos últimos quatro a cinco anos. E que o caminho está aberto para propostas populistas e justicialistas.
Se não fosse o clima festivo apetecer-me-ia, de facto, dizer que o País está para o futuro como o peru está para o Natal. Assim como assim, fico-me por uma década perdida. Boas festas.
Caro Pedro,
Brilhante o seu artigo...e aquela Santíssima Trindade: Estado, Banca, Obras Públicas....
Olhando para trás...não teremos muito de que nos orgulhar. Mas temos que olhar para o passado e colher dele as lições e não ficar ancorados como um barco no porto.... tenho a certeza que somos capazes de fazer mais e melhor e não permitir que o "caos" se instale. É preciso ter a coragem de olhar em frente, olhar a linha do horizonte e encontrar um rumo seguro com menos "tempestades"...
Bom Natal e um feliz 2010 para si.
Com amizade,
Sara
Exceptuando os que fazem parte da "trindade" e os que dela recebem beneficios, todos os cidadãos, pelo menos os que se preocupam e estão atentos à realidade, concordarão com Pedro Norton.Este é o triste retrato de uma decada perdida, o mais aflitivo é verificar que os governantes, parecem "baratas tontas"sem rumo, sem uma estratégia para o país, um plano mobilizador que nos desperte desta inercia.
Resta-nos a esperança na História da humanidade, depois da Idade Média, surgiu o Renascimento....
Em Portugal existe tudo o que necessitamos para progredir,somos um pequeno pais com potencialidades, só nos falta uma classe politica que governe com honestidade e lucidez, empresários responsãveis socialmente, e trabalhadores mais atentos e esclarecidos.
Verdades lapidares, são ditas neste magnífico artigo.
Tem vindo de mal a PIOR.
E, agora somos governados por um "Iluminado", que além de ser arrogante irascível e intolerante, não passa de um auto convencido.
Ainda há poucas horas , o economista Eduardo Catroga dizia, que estámos a cminho de uma segunda Grécia e pergunta se o mal estará na Oposição ou em José Sócrates ?
E se o mesmo não terá de sair de cena, para Portugal, não entrar de novo no Pântano, de António Guterres?