Neste começo de ano, o terrorismo voltou aos grandes títulos das notícias. Bin Laden continua a ser uma das personagens mais simbólicas, na cena internacional. Muita coisa gira à volta do que este homem representa. Não tanto do que faz ou comanda, mas do logótipo. É uma referência para os extremistas que vêem no terrorismo um meio legítimo de acção política.
A maioria das organizações da lista americana sobre o terrorismo não têm nada que ver com Al-Qaeda. Mas algumas têm. Entre essas, é importante que nos foquemos sobre Al-Shabaat, Movimento da Juventude Combatente, um grupo somali. Esta associação é, agora, a maior incubadora de futuros terroristas. Sem contar com o peso que tem na Somália, onde representa um dos maiores obstáculos à estabilização do país, o movimento tem profundas ramificações no vizinho Iémen.
O Iémen é um Estado frágil, com uma classe política corrompida, um crescimento demográfico avassalador, uma economia insignificante. Necessita da ajuda da comunidade internacional. Os perigos de contágio da crise somali são reais. Para já, a Somália exporta ideias e extremistas para o Iémen e importa o khat, a planta estimulante que se mastiga nestas paragens. A mistura de uma ideologia primária com a exaltação provocada pelo khat abre o caminho à acção violenta. Produz alienados que se deixam convencer de que matar em massa é um acto de herói e mártir.
Al-Shabaat também recebe armamento através da Eritreia, um canto do globo que tem todas as condições para ser um pequeno paraíso, mas que o não é. A ditadura que está no poder em Asmara tem uma obsessão: tornar a vida impossível aos líderes da Etiópia. Por isso, apoia os extremistas somalis, na convicção de que estes desestabilizarão a capacidade bélica da Etiópia. A ONU acaba de adoptar uma série de sanções contra os dirigentes eritreus. É um passo importante, mas não suficiente.
Como também não é suficiente concentrar a atenção internacional apenas sobre o Iémen. A iniciativa que Gordon Brown tomou de convocar, a 28 de Janeiro, em Londres, uma reunião de apoio às instituições de segurança e da governação do Iémen é apreciável. Precisamos, no entanto, de muito mais. Faz falta uma perspectiva regional, que tenha em conta a Eritreia, a Somália e toda a dinâmica política à volta do Corno de África.
É acima de tudo urgente que se chegue a um acordo sobre o futuro da Somália. Que se decida que medidas devem ser tomadas para restabelecer a ordem e o direito. A Somália não pode continuar a ser um alfobre de terroristas e uma ameaça para a navegação, numa das rotas mais críticas para o comércio mundial.
Recentemente, o meu colega Ahmedou Ould-Abdallah, representante especial da ONU para a Somália, dizia--me que o Ocidente avalia mal o perigo que esse país representa para a segurança internacional. E acrescentava que as células dirigentes, que planeiam as acções violentas, têm meios técnicos e humanos sofisticados. Sabem trabalhar em várias frentes, incluindo a mediática. Seria um erro pensar que são apenas uns tresloucados do deserto, sem outras habilidades senão a de matar.