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Morreu Rosa Lobato Faria

Um rasto de hortelã

A escritora, letrista  e actriz Rosa Lobato Faria, morreu terça-feira, dia 2, aos 77 anos, depois de uma semana de internamento num hospital privado. Publicamos aqui a 'autobiografia' que escreveu para o JL há dois anos

17:21 Terça feira, 2 de Fev de 2010
Rosa Lobato Faria
Rosa Lobato Faria
João Lemos

A escritora, letrista  e actriz Rosa Lobato Faria, morreu hoje, dia 2, aos 77 anos, depois de uma semana de internamento num hospital privado. Foi colaboradora (dizendo poesias) de David Mourão-Ferreira em programas literários da televisão. Autora, entre outros, dos romances Flor do Sal, A Trança de Inês, Romance de Cordélia, O Prenúncio das Águas, ou mais recentemente A Estrela de Gonçalo Enes (ed. Quasi). Publicamos aqui a 'autobiografia' que escreveu para o JL há dois anos

Autobiografia

Quando eu era pequena havia um mistério chamado Infância. Nunca tínhamos ouvido falar de coisas aberrantes como educação sexual, política e pedofilia. Vivíamos num mundo mágico de princesas imaginárias, príncipes encantados e animais que falavam. A pior pessoa que conhecíamos era a Bruxa da Branca de Neve. Fazíamos hospitais para as formigas onde as camas eram folhinhas de oliveira e não comíamos à mesa com os adultos. Isto poupava-nos a conversas enfadonhas e incompreensíveis, a milhas do nosso mundo tão outro, e deixava-nos livres para projectos essenciais, como ir ver oscilar os agriões nos regatos e fazer colares e brincos de cerejas. Baptizávamos as árvores, passeávamos de burro, fabricávamos grinaldas de flores do campo. Fazíamos quadras ao desafio, inventávamos palavras e entoávamos melodias nunca aprendidas.

Na Infância as escolas ainda não tinham fechado. Ensinavam-nos coisas inúteis como as regras da sintaxe e da ortografia, coisas traumáticas como sujeitos, predicados e complementos directos, coisas imbecis como verbos e tabuadas. Tinham a infeliz ideia de nos ensinar a pensar e a surpreendente mania de acreditar que isso era bom.
Não batíamos na professora, levávamos-lhe flores.

E depois ainda havia infância para perceber o aroma do suco das maçãs trincadas com dentes novos, um rasto de hortelã nos aventais, a angustia de esperar o nascer do sol sem ter a certeza de que viria (não fosse a ousadia dos pássaros só visíveis na luz indecisa da aurora), a beleza das cantigas límpidas das camponesas, o fulgor das papoilas. E havia a praia, o mar, as bolas de Berlim. (As bolas de Berlim são uma espécie de ex-libris da Infância e nunca mais na vida houve fosse o que fosse que nos soubesse tão bem).

Aos quatro anos aprendi a ler; aos seis fazia versos, aos nove ensinaram-me inglês e pude alargar o âmbito das minhas leituras infantis. Aos treze fui, interna, para o Colégio. Ali havia muitas raparigas que cheiravam a pão, escreviam cartas às escondidas, e sonhavam com os filmes que viam nas férias. Tínhamos a certeza de que o Tyrone Power havia de vir buscar-nos, com os seus olhos morenos, depois de nos ter visto fazer uma entrada espampanante no salão de baile onde o Fred Astaire já nos teria escolhido para seu par ideal.

Chamava-se a isto Adolescência, as formas cresciam-nos como as necessidades do espírito, música, leitura, poesia, para mim sobretudo literatura, história universal, história de arte, descobrimentos e o Camões a contar aquilo tudo, e as professoras a dizerem, aplica-te, menina, que vais ser escritora.

Eram aulas gloriosas, em que a espuma do mar entrava pela janela, a música da poesia medieval ressoava nas paredes cheias de sol, ay eu coitada, como vivo em gran cuidado, e ay flores, se sabedes novas, vai-las lavar alva, e o rio corria entre as carteiras e nele molhávamos os pés e as almas.

Além de tudo isto, que sorte, ainda havia tremas e acentos graves.
Mas também tínhamos a célebre aula de Economia Doméstica de onde saíamos com a sensação de que a mulher era uma merdinha frágil, sem vontade própria, sempre a obedecer ao marido, fraca de espírito que não de corpo, pois, tendo passado o dia inteiro a esfregar o chão com palha de aço, a espalhar cera, a puxar-lhe o lustro, mal ouvia a chave na porta havia de apresentar-se ao macho milagrosamente fresca, vestida de Doris Day, a mesa posta, o jantarinho rescendente, e nem uma unha partida, nem um cabelo desalinhado, lá-lá-lá, chegaste, meu amor, que felicidade! (A professora era uma solteirona, mais sonhadora do que nós, que sabia todas as receitas do mundo para tirar todas as nódoas do mundo e os melhores truques para arear os tachos de cobre que ninguém tinha na vida real).

Mas o que sabíamos nós da vida real? Aos 17 anos entrei para a Faculdade sem fazer a mínima ideia do que isso fosse. Aos 19 casei-me, ainda completamente em branco (e não me refiro só à cor do vestido). Só seis anos, três filhos e centenas de livros mais tarde é que resolvi arrumar os meus valores como quem arruma um guarda-vestidos. Isto não, isto não se usa, isto não gosto, isto sim, isto seguramente, isto talvez. Os preconceitos foram os primeiros a desandar, assim como todos os itens que à pergunta porquê só me tinham respondido porque sim, ou, pior, porque sempre foi assim. E eu, tumba, lixo, se sempre foi assim é altura de deixar de ser e começar a abrir caminho às gerações futuras (ainda não sabia que entre os meus 12 netos se contariam nove mulheres). Ouvi ontem uma jovem a dizer, a revolução que nós fizemos nos últimos anos. Não meu amor: a revolução que NÓS fizemos nos últimos 50 anos. Mas não interessa quem fez o quê. É preciso é que tenha sido feito. E que seja feito. E eu fiz tudo, quando ainda não era suposto. Quando descobri que ser livre era acreditar em mim própria, nos meus poucos, mas bons, valores pessoais.

Depois foram as circunstâncias da vida. A alegria de mais um filho, erros, acertos, disparates, generosidades, ingenuidades, tudo muito bom para aprender alguma coisa. Tudo muito bom. Aprender é a palavra chave e dou por mal empregue o dia em que não aprendo nada. Ainda espero ter tempo de aprender muita coisa, agora que decidi que a Bíblia é uma metáfora da vida humana e posso glosar essa descoberta até, praticamente, ao infinito.

Pois é. Eu achava, pobre de mim, que era poetisa. Ainda não sabia que estava só a tirar apontamentos para o que havia de fazer mais tarde. A ganhar intimidade, cumplicidade com as palavras. Também escrevia crónicas e contos e recados à mulher-a-dias. E de repente, aos 63 anos, renasci. Cresceu-me uma alma de romancista e vá de escrever dez romances em 12 anos, mais um livro de contos (Os Linhos da Avó) e sete ou oito livros infantis. (Esta não é a minha área, mas não sei porquê, pedem-me livros infantis. Ainda não escrevi nenhum que me procurasse como acontece com os romances para adultos, que vêm de noite ou quando vou no comboio e se me insinuam nos interstícios do cérebro, e me atiram para outra dimensão e me fazem sorrir por dentro o tempo todo e me tornam mais disponível, mais alegre, mais nova).

Isto da idade também tem a sua graça. Por fora, realmente, nota-se muito. Mas eu pouco olho para o espelho e esqueço-me dessa história da imagem. Quando estou em processo criativo sinto-me bonita. É como se tivesse luzinhas na cabeça. Há 45 anos, com aquela soberba muito feminina, costumava dizer que o meu espelho eram os olhos dos homens. Agora são os olhos dos meus leitores, sem distinção de sexo, raça, idade ou religião. É um progresso enorme.

Se isto fosse uma autobiografia teria que dizer que, perto dos 30, comecei a dizer poesia na televisão e pelos 40 e tais pus-me a fazer umas maluqueiras em novelas, séries, etc. Também escrevi algumas destas coisas e daqui senti-me tentada a escrever para o palco, que é uma das coisas mais consoladoras que existem (outra pessoa diria gratificantes, mas eu, não sei porquê, embirro com essa palavra). Não há nada mais bonito do que ver as nossas palavras ganharem vida, e sangue, e alma, pela voz e pelo corpo e pela inteligência dos actores. Adoro actores. Mas não me atrevo a fazer teatro porque não aprendi.

Que mais? Ah, as cantigas. Já escrevi mais de mil e 500 e é uma das coisas mais divertidas que me aconteceu. Ouvir a música e perceber o que é que lá vem escrito, porque a melodia, como o vento, tem uma alma e é preciso descobrir o que ela esconde. Depois é uma lotaria. Ou me cantam maravilhosamente bem ou tristemente mal. Mas há que arriscar e, no fundo, é só uma cantiga. Irrelevante.

Se isto fosse uma autobiografia teria muitas outras coisas para contar. Mas não conto. Primeiro, porque não quero. Segundo, porque só me dão este espaço que, para 75 anos de vida, convenhamos, não é excessivo.
Encontramo-nos no meu próximo romance.     

Palavras-chave   Rosa Lobato Faria
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mais votados ▼
Uma entrevista...
a.dúvida (seguir utilizador), 3 pontos (Interessante), 19:14 | Quarta feira, 3 de Fev
... descobri que ser livre, era acreditar em mim própria, nos meus poucos, mas bons, valores pessoais.
Bela definição.
Descansa em paz.

Rosa, Uma flor...
lygnus (seguir utilizador), 2 pontos (Bem Escrito), 21:13 | Terça feira, 2 de Fev
mas também Mulher, que soube sentir a sua vida, que soube o que quiz, que quebrou tabus, e aquela frase "ainda completamente em branco (e nao me refiro só à cor do vestido) " é de uma certa profundidade que quanto a mim, com o devido respeito e salvaguarda dos devidos valores intelectuais, se assemelha a Florbela Espanca.
De resto, disse o que tinha a dizer, se isto fosse uma autobiografia...
Que saudades de gente simples no simplesmente ser, mas com uma grandeza de Alma e de profundidade de espirito...
Rosinha
Graceland (seguir utilizador), 2 pontos (Bem Escrito), 17:04 | Quarta feira, 3 de Fev
Saudades das suas palavras de luz, sol e maresia.
É a perda...
mrstones89 (seguir utilizador), 1 ponto , 19:06 | Terça feira, 2 de Fev
Perdemos mais uma grande actriz.. Meus sentidos sentimentos.
Não debrucem na tristeza mas sim inspirem-se para fazer como ela ou até mesmo melhor..

Portugal é um lugar sedento de artistas verdadeiros. Artistas parasitas é o que não faltam.. Mas claro, atendendo que a política tem restringido o apoio à cultura...
Uma Grande Senhora de Portugal
maria teresa (seguir utilizador), 1 ponto , 23:08 | Terça feira, 2 de Fev
Fiquei realmente muito triste. Perdeu-se uma, muitas muitas coisas demasiadas coisas para se conseguir descrever.
Não há palavras para descrecer, para alguns, como eu, sei que está no Céu, mesmo que eu a preferice aqui.
Estou realmente triste.
Exageros de um funeral
Ruben Loup Chama (seguir utilizador), 1 ponto , 11:09 | Quarta feira, 3 de Fev
Devo desde já afirmar que lamento imenso a perda artística e humana que nos assola, pois o que direi a seguir poderá ofender algum fervoroso seguidor.
É comum, quando alguém conhecido perece, muita gente rasgar-se em elogios, uns bem merecidos e outros desmesurados em que nada abonam em verdade. Digo isto porquê? Terá sido Rosa Lobato Faria, essa Grande Actriz que muitos lhe chamam? O que é que se pode entender por grande actriz? Como só me resta o termo de comparação, terá sido Rosa L.F. uma actriz comparável a uma Carmen Dolores, a uma Eunice Muñoz, a uma Maria Matos, uma Mariana Robles Monteiro...( e assim estaria aqui a escrever por uma eternidade de linhas...)? A resposta é simples, não. Creio ter sido uma excelente pessoa, muito alegre, Humana, escritora, letrista, etc. Foi actriz é sabido, mas não se use a emoção da morte para exagerar o que alguém fez. As pessoas devem ser lembradas pelas grandes coisas que fizeram e foram e não por aquilo que não foram. Depois de ter lido muitos comentários de pessoas que privaram /conheceram a senhora, o que me tocou mais, pela sua simplicidade e honestidade, foi o de Alice Vieira, essa (também?) grande escritora.
que grande perda....
pnb (seguir utilizador), 1 ponto , 13:47 | Quarta feira, 3 de Fev
mais uma estrela se apagou neste jardim à beira mar plantado, mais um canteiro que secou.
Inspiradora, sem dúvida.
mceupc (seguir utilizador), 1 ponto , 19:28 | Quarta feira, 3 de Fev
De facto, muito bonita! Não só pela sua fisionomia, discreta, elegante, mas também Senhora com nobreza de alma e, claro, "bonita em processo criativo". Inspiradora, sem dúvida.
Mais pobres
longueira (seguir utilizador), 1 ponto , 21:39 | Quarta feira, 3 de Fev
Portugal e os portugueses vão sentir a falta da sua inspiração nas mais diversas áreas .
O meu obrigado.
é triste perder uma Rosa tão linda!
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 22:24 | Quarta feira, 3 de Fev
"Ainda espero ter tempo de aprender muita coisa, agora que decidi que a Bíblia é uma metáfora da vida humana e posso glosar essa descoberta até, praticamente, ao infinito."

Também nós podiamos ter aprendido mais com as suas palavras, sinto muito! é triste perder uma Rosa tão linda!
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