A eleição de Manuel Alegre implicaria, de certa forma, uma refundação da função presidencial
5:49 Quinta, 21 de Janeiro de 2010
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Devo confessar que simpatizo com Manuel Alegre. Bem sei que se trata de um pecado mortal para um liberal mas, como diria Ayn Rand, "as coisas são o que são". Gosto do poeta, do escritor, do homem que mal conheço, daquela voz de fazer inveja. Gosto da coragem, do pensamento livre e gosto até, imagine-se, das inevitáveis contradições e da indisfarçável vaidade.
Feita esta declaração de afectivos interesses, vamos ao que interessa: estou convencido de que Manuel Alegre daria um mau Presidente da República e que a sua candidatura (sem que isso lhe retire qualquer tipo de legitimidade) não é uma boa notícia para o País. Por razões estruturais e por razões de conjuntura.
Comecemos, tautologicamente, pelas primeiras. Admito a subjectividade da interpretação que, obviamente, é apenas política. Mas é a minha e a ela me atenho: de um Presidente da República não se esperam rupturas, não se esperam estados de alma, não se esperam paixões, não se esperam acalorados gritos de revolta, não se esperam actos "que a razão desconhece". De um Presidente da República não se espera que faça, como diz o próprio Manuel Alegre ao Expresso, "coisas loucas ou heróicas". Muito pelo contrário. O Presidente é a referência última e o símbolo máximo da nação, a derradeira válvula de escape da sociedade política, "o garante do regular funcionamento das instituições". O Presidente é o guardião da "bomba atómica" do sistema político e deve, por isso mesmo, ser o "grande moderador do regime". No fundo, no quadro institucional português, o Presidente é (deve ser) o mais político de todos os políticos. Ora, Manuel Alegre tem, por mérito das suas convicções fortes e da sua coragem, um papel inestimável e insubstituível no xadrez político português. Mas o fato de Presidente, na minha modesta e seguramente discutível opinião, não lhe assenta. E como não acredito que se deixasse espartilhar por este, a sua eleição implicaria, de certa forma, uma refundação da função presidencial. Num país que vai perdendo, ano após ano, o respeito por todos os seus demais símbolos e que tem visto desaparecer, todas e cada uma das suas principais referências, não me parece que o risco se justifique.
A estas razões acrescem outras que são puramente circunstanciais. Fosse por sentido de Estado ou por puro cálculo político, o que é certo é que o próprio Cavaco apoiou, enquanto líder do PSD, a candidatura ao segundo mandato de Mário Soares. Não tenho dúvidas de que, com a decisão, a instituição presidencial ganhou em prestígio e que, por essa via, o sistema político português ganhou em solidez. Este cenário é hoje obviamente irrepetível. O nível de crispação política entre Belém e São Bento assim o determina. Mas tal facto não invalida que, por razões que se prendem com a actual instabilidade política e com a gravidade dos problemas que o País enfrenta e que exigem uma especial capacidade de construção de consensos, precisemos de tudo menos de transformar as próximas eleições presidenciais numa disputa marcada por um elevado nível de confrontação pessoal e ideológico. Ora, mais uma vez, receio que a candidatura de Alegre possa representar isso mesmo. Mas pode ser que me engane.
Caro Pedro,
Gostei do seu texto. Também gosto do poeta... mas,
Manuel alegre não pretende uma "vitória moral" . Ambiciona suceder a Cavaco. Parece-me difícil a sua eleição, sobretudo se ele se apresentar como candidato da "verdadeira " esquerda. Claro que Sócrates ainda não se decidiu carimbar-lhe o "visto".
Numa entrevista que vi, alegre afirmou que o P.República não tem que ser bengala do governo nem chefe da oposição. E salientou a necessidade de uma política de responsabilidade, liberdade e verdade.
Alegre acha que o país precisa de uma visão"política, cultural, histórica" e não de uma visão "tecnocrática". Ou seja, o poeta vê em Cavaco um homem apenas preocupado com o equilibrio (ou desiquilibrio) das contas do país.
Mas... se for eleito talvez Alegre não seja um "cordeirinho" no papel de Presidente da República.
Cumprimentos,
Sara
Mais um optimo texto de PN.
Não creio que Sócrates vá apoiar o seu camarada , no entanto parece-me que Manuel Alegre poderia ser um bom PR , pelo menos mais interventivo.
Cavaco Silva na minha opinião tem deixado muito a desejar , a rabula dos mail's que ainda não consegui entender!aquela comunicação ao País por cauza do estatuto dos acçores tambem foi pouco feliz, até porque apesar de ser um assunto importante não foi muito entendivel para o comum dos portugueses!
Sendo como é o" garante do regular funcionamento das instituições"deve quanto mais não seja ter uma maior intervenção politica , foi para zelar pelos interesses dos portugueses que foi eleito , sou da opiniâo que não o tem feito .
Sara, longueira:
Obrigado pelos vossos comentários. Devo dizer que estou, no essencial, de acordo com ambos. Nem acho que Alegre fosse um «cordeiro», nem acho que Cavaco tenha gerido com senso as questões do estatuti dos Açores e das escutas.
Um abraço,
PN
Do Professor Cavaco Silva também se dizia que corríamos o risco, de uma refundação da função presidencial, dada a sua manisfesta propensão para imiscuir-se nas áreas económicas da governação! Penso que esse receio acabou por não se concretizar! Soares e Sampaio não fizeram muito diferente!
Indubitavelmente Cavaco Silva geriu com pouca eficácia o problema das escutas, e esse facto mal digerido por todos, eleitores seus ou não, deixou ficar uma mácula difícil de esquecer!
Estranhamente as motivações de Alegre deixam-me na dúvida?
Ou Alegre sente que o partido nunca reconheceu devidamente a sua militância, a luta antifascista, e a defesa dos valores culturais e morais da esquerda, tantas vezes metidos na gaveta por outros socialistas, e quer tirar desforço, mostrando á actual classe dirigente que ele acaba por ser uma referência na esquerda. Ou Alegre vive ainda na utopia da sociedade sem classes, e o melhor é reformar-se e dedicar-se á escrita, prática mais conduncente com os seus ideais!