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Um orçamento fundamental

Há pelo menos um ponto em que PS e PSD devem estar de acordo: neste Orçamento, não existe margem para aumentar os privilégios de quem quer que seja

5:58 Quinta, 14 de Janeiro de 2010
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Estivessem os tempos menos cinzentos, seria legítimo dizer que a transformação está a ser tão grande que dá a ideia de que o PS mudou de chefe. Fecham-se frentes de batalha sectoriais, como parece estar a acontecer com os professores, reformam-se leis estruturantes feitas ainda ontem pelo próprio PS, como está a acontecer com o Código de Processo Penal, fazem-se apelos aos partidos da Oposição, com vista a um diálogo que permita a aprovação do Orçamento de Estado... Mas não, o chefe é indiscutivelmente o mesmo. Humildade democrática? Bom senso? Sobrevivência? Puro realismo? Fraqueza?

É possível governar sem maioria absoluta. Mas é difícil fazê-lo em confronto político simultâneo com todos os partidos da Oposição, com o Presidente da República e com os sindicatos mais fortes do País. Toda a gente percebe isso, mesmo que tenha de ser "obrigada" a entendê-lo.

As últimas previsões do Banco de Portugal são mais optimistas que as anteriores, ao apontarem para um crescimento do PIB de 0,7%, em 2010, em vez do recuo de 0,6 por cento. Uma revisão em "alta", suportada numa previsão de crescimento do consumo interno e das exportações. E se a inflação é o sal da economia, como costumava dizer Miguel Cadilhe, vamos mesmo ter uma economia mais temperada já este ano, com uma previsão de crescimento dos preços de 0,7% - contrastando com uma estimativa de queda, em 2009, de 0,9%, sinal que traduz, de forma inequívoca, a anemia económica em que vivemos.

Mas nem tudo são rosas. O desemprego continuará a aumentar, podendo atingir mais de 600 mil trabalhadores, o investimento continuará retraído e as contas externas continuarão a deteriorar-se, acentuando a trajectória preocupante de endividamento do País.

Por tudo isto, se há algo, neste momento, que deve guiar em permanência a actuação política do Governo, é a de garantir que todos os euros do Orçamento são canalizados para gastos incontornáveis, e não em função de pressões, venham elas de quem vierem. Só assim será legítimo afirmar, com seriedade, que "é imperioso manter um conjunto de apoios à economia que permitiram ultrapassar a fase mais crítica da crise, e é igualmente imperioso começar desde já a reduzir o défice, e intensificar essa redução nos anos seguintes, para também reduzir a dívida pública", como disse, há dias, o ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos. Porque, neste Orçamento, não há, seguramente, margem para aumentar os privilégios de quem quer que seja.

Como vai o Governo conseguir atingir este duplo objectivo, se não abdica de qualquer dos grandes projectos públicos - estradas e auto-estradas, alta velocidade, novo aeroporto, terceira ponte sobre o Tejo, etc. - e mostra sinais de fragilidade negocial em matérias que têm forte impacto nas contas públicas, é algo que poderá ter alguma explicação durante a discussão do Orçamento de Estado. Ou, eventualmente, mesmo antes disso, em resultado das reuniões negociais entre a equipa das Finanças e os diversos grupos parlamentares, que começam nesta quinta-feira, 14.

Olhando já para o Orçamento, Cavaco Silva baixou o tom de crispação e apelou ao diálogo e à responsabilidade dos principais agentes políticos. A ideia, presume-se, não é a de que seja aprovado um qualquer orçamento. É a de que seja aprovado um orçamento que dê resposta às necessidades actuais do País, dinamizando a economia e combatendo o desemprego, mas salvaguardando, também, as contas públicas e a "solvabilidade" da República, não só no curto mas também no longo prazo. Tudo isto pressupõe um PS coerente, mesmo que sem maioria. E também um PSD responsável, apesar da transitoriedade da sua liderança.

Se não for aqui que se encontra uma plataforma de entendimento para um orçamento equilibrado e realista, dificilmente se encontrará com quaisquer outros actores.

O Governo iniciou um processo de alterações pontuais do Código de Processo Penal, considerando que a reforma recente do diploma acabou por criar vários estrangulamento no sistema, prejudicando a aplicação da justiça. Várias propostas parecem fazer muito sentido, como será o caso da possibilidade de sentença oral e imediata, no final dos julgamentos de crimes menos graves. Outras alterações, pelo contrário, configuram mais com uma marcha-atrás que apenas a incapacidade de resposta do aparelho judiciário parece justificar, como é o caso do alargamento das possibilidades de prisão preventiva e do segredo de justiça. Melhorar a capacidade de resposta da máquina judiciária, é de aplaudir. Mas não à custa do sacrifício injustificado de direitos, liberdades e garantias.

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Um orçamento decisivo!
a.dúvida (seguir utilizador), 2 pontos , 13:16 | Quinta, 14 de Janeiro de 2010
Caro Pedro Camacho,
Um excelente artigo de opinião. Uma visão coerente e realista.
É previsível que os partidos da opsição deixem que o Orçamento de Estado passe, garantido ao país a estabilidade por mais um ano.
O país caminhava... (caminhará se o Orçamento não for aprovado) para uma ingovernabilidade que resultava do facto do Governo agir como se não tivesse perdido a anterior maioria absoluta e a oposição como se tivesse ganho as eleições.
O encontro de posições, o diálogo , o consenso, acontece porque os partidos à Direita do Governo recuaram nas suas investidas constantes... e o Governo cedeu para soluções possíveis, para os mínimos onde sabia que podia conseguir acordos.
A consistência dos acordos que vierem a ser estabelecidos sobre este Orçamento de Estado, podem, garantir uma estabilidade mais enraízada e duradoura.
A justiça, não pode ficar fora deste consenso.
Mesmo que todos estes acordos sejam possíveis e que o país estabilize em tempos de crise... ainda assim ficarão de fora matérias suficientes para que os partidos possam continuar a vincar as suas diferenças.
Cumprimentos,
Sara
opinando a propósito
Zé Cravinho (seguir utilizador), 2 pontos , 14:18 | Sábado, 23 de Janeiro de 2010
Eu,um simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velho
(85anos)não entendo nada de Orçamentos,a não ser o orçamento
caseiro de fazer contas à vida com a Pensão mínima.Mas se não levam a mal eu direi que a Política,se não estou em êrro,é a ciência
do govêrno ou administração dum País.E um Govêrno de patriotas,
deve,nos momentos de Crise,dividir o Mal pelas Aldeias.Ora para dividir o Mal pelas Aldeias,o Govêrno não devia permitir que houvessem ordenadões escandalosos que superam várias vezes o
vencimento do Presidente da Rèpública e por outro lado,permitir
que haja em Portugal cerca de três milhões de pobres,alguns dêles
se pode dizer,a viverem na miséria.Então onde está o patriotismo dêstes senhoritos que detéem o Poder Económico e como tal,o Poder
Político que decide a repartição justa da possível riqueza produzida?!E qual é o papel da Igreja Católica detentora de tanta riqueza e luxo que nada tem da humildade cristã que ela própria apregoa desde há séculos nesta terra de Santa Maria,apelando à
caridadezinha,à esmola,porque quem dá aos pobres,empresta a Deus e se não houver pobres a quem os ricos possam dar esmola, êles,os ricos não vão p'ró Céu?!
Com populismo e demogogia,
muita mentira,verdade parece,
mas em liberdade e democracia,
o Povo tem o Govêrno que merece.
Tanta conversa
vguerra (seguir utilizador), 1 ponto , 19:17 | Quinta, 14 de Janeiro de 2010
O PSD anunciou, ainda na campanha eleitoral, que iria deixar passar este orçamento.E isto ,antes de se saber que Sócrates condenou o país à "morte lenta"..
“NOVAS OPORTUNIDADES financiadas pelos FORMADORES”
Marta Cardoso (seguir utilizador), 1 ponto , 18:40 | Sábado, 23 de Janeiro de 2010
Orçamento? Há centenas (milhares?) de formadores que diariamente investem tempo e dinheiro (deslocações, materiais pedagógicos), mas que não recebem a remuneração do seu trabalho há mais de meio ano! (Recibos Verdes)
De quem é a culpa?
As entidades formadoras dizem que a culpa é do governo (POPH). Por sua vez o POPH diz que a culpa é exclusivamente das entidades formadoras. Quem tem razão????
Conclusão:
Há formadores que deixaram de dar formação porque não têm dinheiro para as deslocações. Como podem viver?
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