Visão - Homepage
Faça aqui o seu
Subscreva dos feeds RSS da visão.pt
RSS
Assinaturas: Papel | Tablets e Vouchers | Digital
Convite aos Leitores: Deixe aqui a sua Opinião
Página inicial  >  Opinião  >  Victor Ângelo  >  Um noivado de conveniências

Um noivado de conveniências

A Europa precisa da Turquia como um aliado político e militar, mas parece não a querer como parte da União

2:53 Quinta, 11 de Março de 2010
Partilhe este artigo:
A relação entre a Europa e a Turquia é um quadro mal pintado de ambiguidades. A Turquia é um país membro da NATO, do Conselho da Europa, da OSCE e da OCDE. Ou seja, tem um pé bem assente numa série de instituições marcadamente europeias e ocidentais. Mas isso não tem impedido a negociação sobre a sua adesão à UE de estar mal parada. A verdade é que não há uma linha política comum, ao nível dos Estados europeus, sobre esta matéria de grande importância geostratégica. Hoje, a adesão da Turquia é uma questão essencialmente política, que ultrapassa as discussões tecnocráticas e economicistas que a Comissão Europeia possa tentar tratar. Não vai ser Bruxelas quem vai dar a luz verde, mas sim Paris, Berlim, e, por contrapeso, Viena, Atenas e Nicósia.

A Europa precisa da Turquia como um aliado político e militar, mas parece não a querer como parte da União. A sua adesão levantaria, no ver de quem se opõe, sérios desafios de identidade. Em política, nada é mais perigoso do que os choques de inspiração identitária, os conflitos com base na rejeição do outro, que é diferente de nós. É o problema, cada vez mais actual, da relação entre a cultura europeia e o Islão. Uma problemática de grande complexidade, devido à presença de vastas comunidades muçulmanas imigrantes no espaço europeu. Que seria agravado, neste caso, com o facto de a Turquia ser um país muito populoso - mais de 72 milhões agora, 100 milhões dentro de 25 a 30 anos, um peso demográfico e político de impacto incalculável. Sem contar que, só na Alemanha, as pessoas de origem turca chegarão em breve aos 3,5 milhões. Quem ignorar esta perspectiva tem uma visão curta dos desafios que a Europa terá de enfrentar nos tempos que se aproximam.

A Turquia, por sua vez, tem as suas próprias ambiguidades. Quer ser europeia, sempre esteve virada para o Ocidente ao longo da História, quando, de facto, o seu eixo cultural está fundamentalmente enraizado na Ásia Central. É aí que se encontram os povos afins, esse deveria ser o seu espaço geopolítico natural. Não basta dizer que poderá ser uma ponte com esses povos. A Ásia Central será, nas próximas décadas, uma prioridade internacional. Verdade. Mas a Europa não precisa de pontes para lá chegar. Outro quebra-cabeças tem que ver com o Curdistão. Ancara não quer reconhecer os direitos à autonomia e à afirmação nacional dos curdos, cerca de 12 milhões de pessoas. Esta posição contradiz as práticas europeias.

Chegará um momento em que terá de haver de novo um debate sobre o futuro da Europa, sobre o projecto que os cidadãos do espaço comum estão dispostos a construir. A questão do alargamento da União será um tema fundamental, sobre o qual será necessário ouvir a opinião pública. Sobretudo no que respeita à questão turca. Entretanto, a prioridade é continuar o diálogo com Ancara. Manter o noivado vivo e sublinhar as conveniências de parte a parte. Para que não se dê uma outra oportunidade aos que gostam de agitar ao vento das tempestades as bandeiras antiocidentais. Para que a aliança em matérias relacionadas com a segurança, a cooperação militar, o Irão e o diálogo de civilizações possa ser fortalecida. A melhor maneira de prosseguir o diálogo passa por evitar declarações negativas. E, também, por concentrar a discussão nas questões da democracia, dos direitos humanos e das minorias, bem como no prosseguimento da harmonização das políticas macroeconómicas e ambientais.

 

 

Palavras-chave  Victor Ângelo, opinião
Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
 
 
Aumentar texto  Aumentar texto Diminuir texto  Diminuir texto ImprimirImprimir Enviar por emailEnviar por email
Partilhe este artigo:
 
 
7 comentários
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Um noivado de conveniências
a.dúvida (seguir utilizador), 3 pontos (Interessante), 14:00 | Quinta, 11 de Março de 2010
Caro VA,
Parabéns pelo excelente artigo de opinião. Ele está tão bem estruturado e aponta todas as realidades actuais entre o mundo islâmico e a falta de diálogo da Europa, que qualquer palavra que acrescente no meu comentário... terá pouco valor.

A candidatura da Turquia à UE continua por resolver, como a integração dos emigrantes de religião mulçulmana continua por solucionar. A Europa não consegue estabelecer uma relação de tolerância com o mundo islâmico... ou pelo menos isso não é visível. Também não é menos verdade que o mundo islâmico é cada vez mais fechado.

Mas rejeitar os outros... só porque são diferentes, porque a sua cultura é diferente, por medo de choques ideológicos é um enorme perigo político (como aliás refere no seu texto).

Uma decisão política da União Europeia, um diálogo tolerante, uma unidade e coragem de resolver o problema... seria bem vista aos olhos do Mundo e contribuiria também para abrir um diálogo fecundo com o mundo islâmico (e não exclusivamente árabe) moderado.

Uma aproximação ao desenvolvimento, educação, cultura, com diálogo , com solidariedade e não com armas... teria inevitáveis vantagens em termos políticos, mas também em termos sociais.
E neste noivado que já dura há alguns anos.Acredito que sejam como escreve, Paris, Berlim... a dar luz verde e não Bruxelas, como deveria ser.

Claro que a própria Turquia tem muitos problemas a resolver, entre eles o do Curdistão, o seu direito à autonomia. Diálogo...diálogo.

Sara
Uma Turquia vestida com
Tito (seguir utilizador), 3 pontos (Bem Escrito), 14:40 | Sábado, 13 de Março de 2010
Muitos estão de acordo com a entrada da Turquia na União Europeia... Na verdade, “alguns desses muitos” concordam apenas com uma adesão vestida com “burka”!
A importância da Turquia enquanto parceiro europeu é indiscutível, mas o receio que pende como potencial “islamizador” da Europa dificulta uma aceitação unânime e levanta vozes entre os mais contestatários.
Certos episódios sociais e políticos têm marcado os últimos meses e não facilitam uma eventual adesão: manifestações anti-Islão na Inglaterra; necessidade de definição da “identidade nacional” em França; contestação quanto à construção de “minaretes” na Suiça.
O enorme receio de promover uma Turquia enquanto “porto de abrigo” e “geradora” de camadas terroristas na “Eurabia” também tem dificultado as negociações. Mas é tudo uma questão de tempo... até que haja uma aceitação global!
Por parte dos governantes turcos, a vontade de adesão é muita! E não será preciso que abdiquem de alguns dos seus factores culturais, religiosos e políticos mais caracteristicos para conseguirem “convencer” os tais ainda contestatários.
opinando a propósito
Zé Cravinho (seguir utilizador), 2 pontos , 12:46 | Sábado, 13 de Março de 2010
No meu fraco entender,digo que as Religiões é que separam os Povos
e direi com Karl Marx que a Religião é o ópio do Povo.É o argumento
religioso e também étnico que justificou a entrega da Palestina aos
sionistas,pois está escrito que aquela,é a Terra Prometida que Javé o Deus biblico que é também o Padre Eterno dos cristãos,prometeu a Moisés.A União Europeia,reconheceu o roubo à Sérvia,da sua
Província de Kosovo,pelos albaneses que para ali haviam emigrado.
Mas não reconhece o direito dos curdos,á sua independência nem
tampouco à sua Autonomia.Assim como também não reconhece o
direito dos bascos à Autonomia.E no caso da Turquia,também não
toma medidas para que ela retire a sua Tropa de Chipre.Tudo isto,
porque o Tio Sam,como Capitão General da Horda mercenária da NATO,é que determina a Política Global,quer estejam democratas ou republicanos na Casa Branca.E Berlim ou Paris não querem provocar
  a ira do Tio Sam mafioso e flibusteiro que tem Tropas espalhadas pelos cinco Continentes e Esquadras nos Sete Mares.
Em Portugal, turcos somos nós quase todos...(1)
Moreira da Silva (seguir utilizador), 1 ponto , 12:29 | Quarta, 17 de Março de 2010
Tem razão Victor Ângelo quando sintetiza que “A Europa precisa da Turquia como um aliado político e militar, mas parece não a querer como parte da União.”
São os meandros da hipocrisia e dos preconceitos de muita ordem, incluindo religiosos, históricos, etnocêntricos e outros tão presentes e tão nefastos nos jogos político que pinpongueiam entre os sentimentos mais primários do homem da nossa rua e do eleito político da nossa terra.
Qual pescadinha de rabo na boca.
Esta hipocrisia anti-turca, em torno do seu adere-não-adere à UE, remete-me bem mais terra à terra para as poucas vergonhas e os desplantes mais vulgares da nossa vida política, hoje em Portugal.
Um exemplo expressivo:
Num momento de cortes dramáticos propostos pelo Governo no PEC, onde quase todos e sobretudo os mais fracos contribuirão à força e com grande sofrimento pessoal e social, assistimos ao regabofe dos prémios de milhões para os gestores das EP’s e de outras grandes Empresas, seja para os “ditos gestores normais”, seja para os envoltos em graves processos e suspeições de corrupção.
Com o Ministro das Finanças zangado não contra o regabofe, mas sim contra a sua divulgação pública e contestação, http://economico.sapo.pt/...
Isto seria escandaloso, se não fosse em Portugal.
(cont...)
Em Portugal, turcos somos nós quase todos...(2)
Moreira da Silva (seguir utilizador), 1 ponto , 6:58 | Sexta, 19 de Março de 2010
(continuação)
...
Tem razão Victor Ângelo quando sintetiza que “A Europa precisa da Turquia como um aliado político e militar, mas parece não a querer como parte da União.”
São os meandros da hipocrisia e...
...
Num momento de cortes dramáticos propostos pelo Governo no PEC, onde quase todos e sobretudo os mais fracos contribuirão à força e com grande sofrimento pessoal e social, assistimos ao regabofe dos prémios de milhões para os gestores das EP’s e de outras grandes Empresas, seja para os “ditos gestores normais”, seja para os envoltos em graves processos e suspeições de corrupção.
Com o Ministro das Finanças zangado não contra o regabofe, mas sim contra a sua divulgação pública e contestação, http://economico.sapo.pt/...
...
Isto seria escandaloso, se não fosse em Portugal.
Simplesmente, entre nós, a justiça só funciona contra o pilha-galinhas, não contra o governante ou o eleito corrupto.
Os sacrifícios são para os mais sacrificados de sempre, não para a corja no poder.
A própria democracia é a contínua ‘mise en scène’ da mesma peça, com os mesmos actores, numa recorrente reprodução social ditada de cima para baixo e tão bem inventada, que até parece democrática.
Hipocrisia anti-turca lá fora?
Sim.
Cá dentro, também.
Só que os turcos aqui somos nós quase todos.
    Re: Em Portugal, turcos somos nós quase todos...(2   
Zé Cravinho (seguir utilizador), 2 pontos , 14:02 | Quarta, 17 de Março de 2010
Até eu tenho medo desse noivado
Sabetudo (seguir utilizador), 1 ponto , 2:05 | Terça, 11 de Maio de 2010
Victor gostei do artigo, até porque esta luta já está a existir há 4 anos para cá, se não me engano.

Sei que o medo é uma questão de socioeconómico e de religião, e acredito que se a Turquia entrar, vai existir confusão.

Não tenho nada contra a alguns turcos, que até sou amiga de alguns, mas acho que a UNIÃO EUROPEIA, desde que ela aumentou, têm sido um grave problema económico, para muitos países que dantes viviam em cima da média, como o nosso.

Sou a favor de ajudar os países mais pobres, mas sou contra à violência e acho que este país entrar, não existirá paz, mas a terceira guerra mundial.

Recomendo a viagem até lá, mas entrar na União Europeia, até eu teria medo de tomar essa decisão, pela política e religião deles.
Boa semana
7 comentários
Página 1 de 1   
PUB
 
Grupo ImpresaACAP