O Programa de Estabilidade e Crescimento não tem proporcionado estabilidade nem estimulado o crescimento
2:46 Quarta, 9 de Junho de 2010
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Vivemos em tempos estranhos. O Rally Paris-Dakar, primeiro, deixou de começar em Paris, e agora já não acaba em Dakar. Continua a chamar-se Paris-Dakar, mas umas vezes parte de Lisboa e outras disputa-se integralmente na América do Sul. É como aquelas belíssimas mulheres transexuais que, apesar da aparência irrepreensivelmente feminina, continuam a chamar-se José António. O mesmo acontece com o Rally Paris-Dakar, a Roberta Close do desporto automóvel, que actualmente deveria chamar-se Rally Localidade da Argentina-Outra Localidade da Argentina.
Outro caso é o do Estoril Open, que costuma decorrer em Oeiras. Por muito difícil que fosse atrair Roger Federer ao Oeiras Open, talvez o torneio merecesse ter uma designação mais rigorosa. Ninguém nega que o desporto português é fértil em falcatruas, mas continua a ser estranho pensar que muitos vencedores do Estoril Open podem nunca ter posto os pés no Estoril.
O Rock in Rio, por outro lado, de vez em quando não tem rock, e na maior parte das vezes não é no Rio. Concedo que o Miscelânea de Géneros Musicais in Chelas seria um pouco menos comercial do que o Rock in Rio, mas quem não se orgulharia de ter um bilhete para assistir ao concerto dos Megadeth no Miscelânea de Géneros Musicais in Chelas?
Mais recentemente surgiu o PEC, o Programa de Estabilidade e Crescimento, que não tem proporcionado estabilidade nem estimulado o crescimento. De um certo ponto de vista, bem entendido. É verdade que o desemprego se mantém estável no valor mais elevado de sempre e temos assistido ao crescimento da contestação social. Reconheço que se trata de um programa de congelamento dos salários (o que os torna admiravelmente estáveis) e crescimento da carga fiscal. Mas a estabilidade política e o crescimento da economia não têm sido atingidos com o mesmo desembaraço. Recordo que o Programa de Estabilidade e Crescimento corrigia o Programa de Governo, circunstância que aproxima dois mundos distintos: a vida política e a televisão portuguesa. Em ambos há vários programas, mas é raro haver um que se aproveite. E, por isso, sente-se que o país suspira por um Programa de Desordem e Ruína. Um plano que, prosseguindo a tradição de fazer o contrário daquilo a que se propõe, nos livrasse miraculosamente da crise. Creio que é disso que Portugal precisa: ironia política. Parem de nos tentar salvar. Tentem afundar-nos, a ver se não estamos na vanguarda da Europa dentro de seis meses.
Se ninguém vê no PEC a saída para a crise é porque ela não está lá. O PEC nunca foi pensado como solução: trata-se meramente de uma penitência.
Em mentes profundamente religiosas e pré-racionais «a culpa», o «pecado» e a «fúria divina» desempenham um papel importante. A crise que vivêmos deve ser um «castigo de Deus» pelos excessos consumista dos homens. E se a crise é «um castigo divino», então há que apaziguar os deuses com penitência; talvez mesmo atirar uma virgem ao vulcão.
O PEC não prevê que se ofereça nenhuma virgem mas Olli Rehn e Angela Merkel, que já devem estar fartos de andar de comboio por essa europa afora, não se cansam de dizer que o PEC é insuficiente e que mais penitências são necessárias.. e já. Toda a europa deve andar a procura de uma virgem para oferecer ao #5&-'kjull a ver se apaziguamos a fúria dos deuses e os tempos melhoram magicamente.
Se ninguém consegue vislumbrar no PEC medidas suspeitas de provocarem estabilidade (dos preços) e crescimento económico (do PIB) é porque esse tipo de medidas está ausente do PEC. O PEC é exclusivamente uma penitência que irá redimir os nossos pecadose apaziguar a «fúria divina». Assim conquistado o favor dos Deuses, a crise terminará.
O PEC é uma aplicação à economia do princípio médico de que «o que arde cura». Ninguém sabe como o PEC poderá reanimar a economia, nem tem que perceber. Só tem que sofrer e no final será curado.
Temos uma maneira "bizarra" de resolver os problemas. Somos um país onde 20% ??? trabalha com afinco e paga impostos, para que o resto ande a praticar o seu desporto favorito.
Somos um país de diplomados em "saltos" em "passar por "cima dos outros", em esquemas de saque, bons a fazer "pontes"... sempre que há um feriado...
No fundo, somos um país sem qualquer espécie de salvação...
O artigo de opinião do Ricardo desta semana, está (como nos habitua) muito bem feito, as voltas que ele dá para chegar ao que quer dizer está de um verdadeiro Artista. Parabéns. Para a semana podia pegar na mesma técnica - tipo Parte II - a saga de "Um mundo de coisas que não são o que dizem ser" . Pois haverá mais ainda. Adorei ler o conteúdo e a forma.
Gostei do teu artigo, pois fazes trocadilhos e eu adoro isso, que também fiz muitas vezes, mas pessoas críticas e com falta de sentido de humor, criticavam-me.
Mas é deste modo que se pode sempre brincar até com o que acontece em Portugal, pois se não o fizermos, adoecemos e ficamos todos deprimidos.
Votos de uma boa continuação d eum óptima semana e continua sempre assim, que vais num bom caminho para te manteres sempre saudável.
A todos os níveis da nossa sociedade existe uma maioria de gente que incautamente usa um número variado de artimanhas para enganar o próximo ou a próxima, o que leva a que se viva num clima constante de desconfiança e insegurança. O que porponho, baseada nesta crónica que apela ao desfazamento da seriedade das coisas, é que todos os que se sentem enganados se juntem e tornem com acções reais esta sociedade mais confiável e construtiva. Só tem que se começar por qualquer lado e deixar de pensar que a construção de uma sociedade mais justa é uma grande "utopia". Pois estou farta de não conferir os conteúdos com as aparências.Não se pode confundir a boa educação com uma escandalosa hipocresia. O que custa mais são todos estes sentimentos de verdadeira desconstrução que se sentem na sociedade a par de uma demagogia irrelevante e não esclarecedora de coisa nenhuma.
Em primeiro lugar parabéns ao Ricardo por mais uma óptima crónica, quanto aos meus colegas comentaristas queria apenas dizer que já chega desta troca de galhardetes por causa dos erros e/ou da falta de sentido lógico dos malditos comentários, a realidade é que estamos todos a ser roubados todos os dias pelas pessoas que por nós deviam zelar, os nossos governantes!
Bem hajam todos.