Solnado era uma criança sensata, como Falstaff, o herói cómico de Shakespeare, mas sem os seus pavorosos defeitos o que, humoristicamente, era uma desvantagem para Solnado. É muito mais difícil ter graça quando os defeitos não estão à vista e as qualidades são tão evidentes
9:33 Quinta, 13 de Agosto de 2009
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A morte é certa, mas a morte de um grande humorista é a mais certa de todas. Um grande humorista percebe a morte melhor do que os outros e é por isso, aliás, que dedica a vida inteira a escarnecê-la. O riso é o grande fracasso da repressão, disse alguém que hoje mereceria mais do que o anonimato e é a grande vitória (a única possível) da vida.
Raul Solnado dizia muitas vezes que fazer rir, ou é fácil ou é impossível. A frase é, parece-me, de Woody Allen, e é fulgurantemente verdadeira. Haverá poucas coisas menos engraçadas do que alguém que se esforça para ter graça.
A atitude humorística de Raul Solnado assentava exactamente nessa ausência de esforço. Antes de abrir a boca, Solnado já tinha graça: é divertido que alguém que ama tão profundamente o riso decida simular a maior displicência perante ele. O intérprete Solnado não só está completamente desinteressado da tarefa de fazer rir os outros como parece nem perceber de que é que eles se riem. Não é só um palhaço que não quer fazer palhaçadas, é um palhaço que está relutante em admitir que é um palhaço. De facto, o que surpreende em Raul Solnado não é que um humorista vindo do teatro de revista pudesse ter êxito a fazer um tipo sofisticado de humor absurdo o que é notável é que um humorista cujo estilo era contido e preciso tenha alguma vez tido sucesso no teatro de revista. O cómico cujo estilo estava mais distante do gosto popular foi aquele que obteve um sucesso mais abrangente, o que é espantoso.
A revista teve muitos outros grandes actores, mas nenhum terá sido capaz da mesma versatilidade. Ivone Silva, por exemplo, era uma actriz de revista brilhante. Mas ninguém consegue imaginar Ivone Silva a interpretar o texto da guerra. É, aliás, significativo que Solnado tivesse adoptado como divisa uma ideia de Woody Allen. Allen e Solnado são, na verdade, humoristas aparentados de mais do que uma maneira. A gaguez e a aparência física constituem, em ambos, instrumentos da sedução (da sedução humorística e da outra), e os monólogos de Solnado são o equivalente português das histórias que compõem os números de stand-up comedy de Woody Allen.
Solnado era uma criança sensata, como Falstaff, o herói cómico de Shakespeare, mas sem os seus pavorosos defeitos o que, humoristicamente, era uma desvantagem para Solnado. É muito mais difícil ter graça quando os defeitos não estão à vista e as qualidades são tão evidentes. A ternura não tem piada. A generosidade também não.
E, no entanto, Solnado era terno e generoso. Há várias comédias famosas sobre avarentos, misantropos e hipocondríacos, mas não muitas sobre o tipo de pessoa que se percebia que Solnado era. Conseguir ser humorista apesar daquelas virtudes é mais do que problemático: é quase uma falta de ética.
Philip Larkin escreveu que a coragem não isenta ninguém da sepultura: a morte não é diferente para os que a temem ou para os que a enfrentam. Certo. Mas a vida é. A vida é mais vida para quem se ri da morte do que para quem a teme. Raul Solnado viveu bem. E, por causa dele, todos vivemos melhor.
......quando "perdia" horas a ouvir os discos de vinil do Solnado ( que infelizmente desapareceram no meio de empréstimos, empenos e maus tratos) . O que me aguça a curiosidade é que o tipo de humor não enjoava, não perdia vigor, cada vez que via o Fritz no Zip Zip, o ouvia na Ida ao Médico, ou que as "Portas da Guerra estavam fechadas", já tinha um sorriso escancarado à espera dos "tanques de lavar a roupa" ou da "bala atada a uma guita". Sempre achei que o humor é muito mais difícil do que o drama, especialmente aquele que foge à piada fácil, que é uma coreografia de palavras e gestos simples. Gosto de rir, preciso de rir e quero rir....acho que precisamos todos nós. Seria bom uma colectânea em CD/DVD do Solnado, fazia-nos bem a todos, Solnado, nós e a Casa do Artista. Oh RAP, achas que consegues meter uma cunha?
Sr.Ricardo Pereira, a análise está excelente e num portugues primoroso, escorreito.
Continue sempre, por favor, e seja igual a si próprio.
Respeitosos cumprimentos.
Santos Silva - Hamburg/Deutschland
Epá muita bem, oh Ricardo.
Eu nunca duvidei do seu talento pra escrita, mas esta, digo-lhe com muita veemência que é das melhores cronicas que ja li suas, senão mesmo a melhor.
Tocar no assunto Raul Solnado,já estava mesmo a dizer que ia sair daqui algo tocante, o que é raro em si. É raro ver crónicas suas que toquem porque está sempre a falar das coisas pelo lado cómico e não pelo lado sério da coisa, o que é realmente uma qualidade sua fascinante.
Raul Solnado era um homem que fazia rir sem se aperceber que isso acontecia. Era a pessoa mais natural em cima dum palco,não aparentava nenhum estado de nervos nem medo de que alguma coisa lhe corresse mal.
Perdeu-se,sem duvida alguma, um excelente humorista, daqueles que Portugal sempre muito estimou, e sofreu muitissimo por saber da sua perda.
Permita-me a comparação, mas tambem o Ricardo é um humorista extremamente talentoso, com muito para dar a Portugal.
No dia, em que decidir deixar os ecrãs, vai ser como se Portugal perdesse mais um grande cómico.. e da maneira como as coisas andam neste país, se se deixa de fazer bom humor português, nao sei onde vamos parar.
O Ricardo,o Miguel,o Tiago e o Zé Diogo são, na minha opinião, aqueles que fazem o melhor humor inteligente em Portugal, por isso, façam o favor de nos fazer felizes.
Que o Ricardo Araújo Pereira escreve bem, mesmo muito bem, não é novidade. Mas esta crónica foi sem dúvida o mais bonito obituário que li de Raul Solnado. O Raul Solnado merecia-o, e o Ricardo Araújo Pereira soube estar à altura.
De resto, subscrevo o que o leitor Tumba já aqui disse