1. Marcada pelas eleições que se aproximam, a legislatura chega ao fim num clima de confronto, ou mesmo agressividade, que não aproveita a ninguém, muito menos ao País. Após as europeias, em que foi duramente castigado, vítima também de uma gravíssima crise global que, azar dos azares, o atingiu no pior momento, ao Governo PS/Sócrates tudo tem saído mal ou pouco convincente. De uma necessária, se conseguida - o que não foi o caso -, mudança de tom e postura do primeiro-ministro, às suspensões ou aos recuos, atamancados, nos casos do TGV e do aeroporto de Lisboa.
Assim, chegados ao último debate sobre o Estado da Nação, de um lado estava um PS atordoado como um pugilista após apanhar um forte directo com que não contava, do outro um PSD com reconquistada confiança, adivinhando já o cheiro a poder que lhe é poderoso combustível.
Mas nesse debate, José Sócrates, embora esquecido da tentativa de mudar de estilo, começou a recuperar. Quer por mérito próprio, quer porque Manuela Ferreira Leite (MFL) "descarrilou" por completo. Por exemplo, minimizar, quase até ao absurdo, a crise global, para responsabilizar o Governo por todas as dificuldades que vivemos, ao proclamar que vai "rasgar" todas as políticas do Executivo, menos a da Segurança Social, e ao atribuir a um Governo do PS (Guterres) um negócio que foi celebrado por outro, de que era n.° 2 ou n.° 3. Em consequência, além do mais perdeu a marca distintiva do "falar verdade", de que se reclama, em contraste com as "mentiras" de Sócrates, um dos pontos-chave da sua campanha eleitoral.
2. Não terá, porém, o inopinado e impensável - pelo lugar, pela circunstância, pelo simbolismo - gesto de Manuel Pinho destruído esse efeito? De facto, a partir dele não se falou de outra coisa. E Sócrates fez o que devia, ao forçar a sua demissão. Mas isso não apaga o que o debate reflectiu e o que dele emergiu. Aliás, após a saída de Pinho, apesar das suas ingenuidades ou gafes, foi em geral reconhecido que, de par com aspectos negativos, foi um ministro esforçado, capaz e que esteve na base de apostas (ganhas) do Governo nos sectores da energia e das tecnologias. Devendo dizer-se também que, do ponto de vista substancial, há com frequência, e às vezes de forma sistemática, actos, afirmações, insultos, muito mais graves do que o de Pinho - e que ficam sempre impunes (basta lembrar A. J. Jardim...).
3. Deixando de lado outras "malandragens", cujas investigações estarão a avançar, embora nunca se saiba se chegarão ao fim, com uma decisão com trânsito em julgado antes do crime prescrever, a Comissão Parlamentar de Inquérito ao BPN concluiu os seus trabalhos, que todos reconhecem meritórios. Mas o relatório (ainda não aprovado no momento em que escrevo), suscitou controvérsia, em particular por não "condenar" a supervisão do Banco de Portugal (BdP). Como se esperava, face aos "costumes da comarca" e dado tratar-se de um documento também político, a relatora, do PS, entendeu não haver motivo para uma censura que levaria à demissão de Victor Constâncio, embora sublinhando que a acção do BdP poderia ter sido "mais incisiva e diligente"; a Oposição defende o contrário, e quereria ver Constâncio sancionado, por não actuar devidamente (enquanto, segundo Dias Loureiro, versão António Marta, estaria a ser persecutório; do que também se queixa, noutro caso, o ex-governador do BdP, Tavares Moreira).
Ora, creio indispensável que a polémica, que dominou os media, não desfoque ou até oculte o essencial. A saber, telegraficamente: 1) Quais os crimes ou ilícitos cometidos, por quem, com que antecedentes ou incidências políticas, até que ponto possibilitado ou mesmo facilitado por um sistema, expedientes, off-shores, com que urge acabar; 2) A imprescindibilidade de uma muito maior intervenção do Estado, em particular através de uma supervisão mais apertada e rigorosa, que não se limite a confiar no que lhe é dito ou mostrado, antes "investigue" mesmo.