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O lugar certo

- Não leve a mal o que lhe vou dizer, mas não gostava de estar no seu lugar...

- Sabe que esse tipo de atitude não ajuda nada em negociações desta natureza... Além do mais, nem todas as empresas atribuem 1,3% por cada ano...

- Sim, sei disso tudo. Mas acredite que estou a ser sincero, não o digo com qualquer ironia. Vejo que é sensível e acredito que não está confortável nesse papel.

- É verdade que ninguém gosta de o fazer. A empresa também não, mas a austeridade dos tempos a isso obriga.

- Certo, certo, mas queria apenas que soubesse que não a acho adequada para esse lugar.

- Bom, mas afinal em que ficamos? Aceita a proposta?

- E tenho alternativa?

- Não, na verdade, não tem.

- Então isso não é sequer uma proposta...

- Entenda como quiser.

- Bom, então, aceito.

- Faz muito bem.

- Então adeus e obrigado.

- Felicidades. E olhe...

- Diga...?

- Não leve a mal o que lhe vou dizer, mas eu também não gostava de estar no seu lugar...

Pastor Flores, in Contos que não contam
16:09 Sexta, 2 de Dezembro de 2011

In vino derivas, XXXVII

A exibicionista e o voyeur casaram-se e viveram tarados para sempre.

Pastor Flores
12:01 Segunda, 28 de Novembro de 2011

In vino derivas, XXXVI

Não penses na vida que a vida também não pensa em ti.

Pastor Flores
14:58 Terça, 8 de Novembro de 2011

Contos de uma frase só

Diário de um sapateiro

Enquanto houver pé(s) há esperança.

Pastor Oliveira
16:55 Terça, 25 de Outubro de 2011

Brel

Há noites em que o nosso nome soa a eternidade.

- Vem Jef, vem. Vem Jef, vem - repetia ele incessantemente.

- Vem comer amendoins comigo. Não há ninguém como tu a comer amendoins Jef. Lembraste daquela noite em que comeste um pacote sozinho? Um quilo, nunca hei-de esquecer-me. Elas, ali em tanga, de boca aberta a abanar o mundo para a esquerda e para a direita e a apanhar os amendoins que tu lançavas. Não eram elas quem apanhava, eras tu quem acertava sempre na boca delas. O dinheiro que gastámos ali Jef. Mas isso nunca foi um problema. O dinheiro nessas noites não se gasta... E a outra noite em que saímos do bar e vimos uma cria de javali no meio da rua. Lembraste Jef? Bem no centro da cidade. Quem é que deixa uma cria de javali no meio de Bruxelas às quatro da manhã? Só alguém muito esquecido. Vem Jef, vem. Anda daí.

Eu permanecia em silêncio, estava em baixo, não havia como negá-lo, queria sofrer uma congestão por excesso de dor, mas ele não parava.

-  Vem Jef, vem. Vem comigo. Vamos salvar a noite. Tu salvaste a noite vezes sem conta Jef. Tu sabes disso. Há pessoas a quem qualquer trapo fica bem, um casaco, umas calças, uns óculos, um chapéu, um nariz vermelho ou um coração azul. Tu descascas a noite como quem descasca um amendoim Jef. São os teus óculos de sol coloridos. Vem Jef, vem.

Não desistia, ele. Estava disposto a arrancar-me o sofá do corpo. E pediu ajuda. Chegou um, outro, três, sete no total. Chamou mais sete amigos. Todos os meus amigos, em minha casa, a pedir para eu ir. E eu fui. Calcei os sapatos, que eu nunca gostei de sair à rua descalço, e fui. 

Não me lembro de ter comido tantos amendoins como nessa noite. Paris parecia a Bruxelas da nossa juventude, apenas com mais luz, e as ruas pistas de atletismo. Corremos de bar em bar como se fossemos clones de Zátopek. Tinha visto nessa tarde uma reportagem sobre Zátopek, o único homem a vencer os 5.000, 10.000 metros e a maratona nas mesmas Olimpíadas. Zátopek era o melhor mas não tinha estilo, era desengonçado, a sensação de que poderia morrer a qualquer segundo. Se havia algo que até então me ligava a ele era isso: a possibilidade de morrer a qualquer segundo. Mas não nessa noite. Durante essa noite fui Zátopek de cabeça levantada.

Não houve copo, corpo ou casa que nos tivesse escapado.

O público esperou-o cerca de duas horas - o concerto estava marcado para a uma - , mas ninguém pareceu incomodado com o atraso. Receberam-nos com palmas. Receberam-no com palmas. Estava quente nessa noite, lembro-me perfeitamente que estava quente como tudo nessa noite, e ele transpirava por todos os poros. Não fez caso. A noite era dele, estava escrito. Agarrou no microfone, deu duas ou três indicações aos músicos e cantou de improviso como há muito não o ouvia.

Uma música com o meu nome. Quase cinquenta anos depois e, às vezes, ainda me custa acreditar.

Era assim o Brel. Ninguém sabia salvar amigos como ele.

 

Jef, Paris (2011)

http://www.youtube.com/watch?v=T4Mx8AN0GF4

  

Pastor Oliveira
16:25 Sexta, 14 de Outubro de 2011

In vino derivas, XXXV

O dom é aquilo que te pertence sem que tu o mereças.

Pastor Flores
17:17 Sexta, 7 de Outubro de 2011
Apócrifos sem gelo

Só de barriga cheia se escreve um policial

Mike Fingers renega os micro-contos e dedica-se à bíblia para ver se aprende a escrever um policial. Enquanto não chega ao apocalipse, entrega-se à poesia parva, que é uma outra forma de passar fomeca. O que vale é que quinta feira é dia de cozido.

Estou farto de escrever micro-gaitices para azedar pacotes de açucar. O conto curto não dá para o paposeco nem para o Ventil. Para escrever preciso de comer bem.

Ter a barriguinha cheia e beber como uma orquestra de aldeia.

Beber como uma fanfarra, a tropegar atrás do andor do Senhor da Misericórdia e a a dar de frosqes para a tasca ao abrigo do foguetório - ò senhor padre, mais um bagaçol para soprar no oboé.

Encher a pança é fodido. É mais fodido que foder. É a fomeca.

Escrever pintelhices é fomeca na certa.

Para escrever um policial precisava de matar alguém, e isso dá trabalho.

Eu cá dava um escritor policial do camandro. Um Chandler postiço para vir na Caras a mamar champanhe rodeado de mamalhudas de bótox e barmans solícitos que nem agentes fúnebres. 

Mas nunca matei ninguém. E para ser um escritor policial à séria temos de matar alguém, nem que seja o próprio autor.

Gostava mesmo de matar alguém, com uma derringer de jogador de póquer.

Um balázio nos cornos, um corpo a bóiar em Cacilhas, um plano à Hitchcock com um isqueiro com iniciais gravadas perdido na relva, e já está, um primeiro capítulo  de estalo, pronto a entregar à editora mija na escada. - Venha de lá o cheque para ir comer um cozido que amanhã é quinta feira.

Para escrever policiais basta ler a bíblia, vem lá tudo. Fornicação, homicidio, castigo e redenção. Mas para isso é preciso ler a bíblia e isso dá trabalho.

Ainda não passei dos salmos. O Jornal de Letras pergunta-me no Facebook o que é que ando a ler. Ora e se fossem meter-se na vossa vidinha. E tu, Jornal de Letras, o que é que andas a comer? Ou melhor, quem é que andas a comer?

E toda a gente diz que anda a ler. Anda tudo a ler, rempimpadotes, ufanóides, exibicionistas. Mostrem lá o que andam a ler suas serigaitas, seus trolhas.

Eu cá ando a ler a Bíblia, mas só as entrelinhas. Todas as tribos de Israel se geraram umas às outras para vinte um séculos depois se unirem para foder a Palestina. No meio há uma corrida de quadrigas com o Ben Hur.

Para mim a Biblia é o Charlton Heston, e esse também gostava de derringers, winchesters e naturalmente whiskys. E ao que conste, lia pouco e mal.

Antes de escrever um policial preciso de chegar ao apocalipse. Até lá vou escrever um poema, pode ser que dê para o tabaquinho de enrolar e um escabeche bom para molhar o paposeco.

 A poesia não mata a fome, mas pelo menos engana-a.

Poema para me alimentar

Fita adesiva
Em quadra festiva
Um pouco de sal
Nas cuecas do cardeal
Para limpar uma dentadura
Postiça
Que cacareja
Como coruja
Ou velha metediça

Com ossos que rangem

Como uma dobradiça
Com hálito de linguiça

Uma colher de sol
No meu chá
Uma banheira, que não me ralo
No teu presépio pagão
Como cão
Como cão ladrão
De ossos
Roídos
Carcomidos
Moídos
Em pó, ré, mi
Mimi
Sinto-me tão só sem tlim
E sem sentido obrigatório
Aleatório
Mictório
E tudo o que na minha língua acaba num clitório
Ou o escarlate do suspensório
Como deus ex machina
Vesti e despi por tlim e por mim
Mimi, do, re, mi
Pobre de mim
Festim, trim, trim, trim
Quando o telefone não toca
E já me esqueci da frase
A frase que acaba
Em tlim
E acaba em mim

 

Mike Fingers
1:07 Terça, 27 de Setembro de 2011

Bicho da madeira

Era uma vez um bicho muito feio e muito barulhento que vivia isolado numa ilha tão bonita que mais parecia um jardim.

O pior é o que o bicho tinha um apetite voraz por madeira e não parava de se alimentar do solo onde assentava as suas patas.

De tantos buracos fazer, um dia, a ilha afundou.

Pastor Flores, in Contos que não contam
14:09 Terça, 20 de Setembro de 2011

In vino derivas, XXXIV

Alcançamos a maturidade quando percebemos que os nossos pais estão tão perdidos como nós.

Pastor Flores
16:15 Segunda, 29 de Agosto de 2011

Fundo de garrafa

Almoça sozinho numa tasca ao virar da esquina. Menu: prato do dia, garrafa de vinho e copo de whisky. Os jornais a acompanhar. Um hábito mais do que um ritual.

"A conta, por favor". Óculos na mesa, lentes embaciadas, lenço de pano em círculos a apagar o que não se vê. Acena aos empregados e sai aos esses em direcção ao escritório. Como se os seus olhos fossem os seus óculos e os seus óculos estivessem bêbados.

Os colegas, cada vez mais preocupados com o estado em que se apresenta para trabalhar da parte de tarde, avisam-no para que tenha mais cuidado com a bebida. Não faz caso. O problema não está no álcool, garante-lhes. Mas nos seus velhos óculos fundo de garrafa.

 

Pastor Oliveira
12:58 Quinta, 25 de Agosto de 2011
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