Agora habita uma gavetinha de ferro, entre dúzias de gavetinhas de ferro, no muro do cemitério da terra dele, Abrantes
21:49 Quinta, 15 de Abril de 2010
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A minha vida é trabalho-casa, disse ela. Aos fins de semana vai ao supermercado, depois engoma, passa a ferro, limpa. Uma manhã por mês consulta no médico para regular os diabetes. Suspiro:
- Se fossem só os diabetes
e não são só os diabetes, é o colesterol, a tensão, o problema dos ossos.
O trabalho, esse, é na contabilidade de um escritório: duas horas de transportes para cá, duas horas de transportes para lá. Em tempos teve um carro mas o preço da gasolina, mas o preço do seguro, mas o preço da oficina, de modo que o carro está à porta, quer dizer um bocadinho adiante da porta: um sem abrigo dorme no banco de trás, embrulhado em jornais, na companhia de umas garrafitas, a cobrir-lhe os estofos de cascas de laranja. Ultimamente um gato acompanha-o. O sem abrigo chama-se Senhor Peixoto, andou anos a penar na construção até que o joelho deu de si e largou os andaimes. Falta-lhe um dedo e meio na mão esquerda
- Falta-me um dedo e meio na mão esquerda
anuncia a exibir a manga. A mãe do Senhor Peixoto dá ideia que teve instrução
- Até piano havia
mas o senhor Peixoto dava-se mais à moinice
- As mulheres, compreende
ainda foi angariador de seguros mas enfiou as unhas na caixa
- Sem dinheiro não querem saber da gente
de modo que se mudou para os andaimes até o joelho dar de si. À terceira queda o patrão substituiu-o por um preto qualquer
- Um preto qualquer, veja bem
e nem mulheres nem seguros, fominha.
A do trabalho-casa compreende
- É a vida
e aceita-o nos estofos. No inverno entrega-lhe umas serapilheiras para enganar o frio
- Tome lá, Senhor Peixoto
o Senhor Peixoto, que não perdeu a galanteria
- Obrigadinho, madame
a coçar-se
- Não leve a mal, madame
porque o drama dele sempre foi a pele, herdou de um tio das classes altas, sargento, a delicadeza da epiderme
- Os ricos, já se sabe, parecem forrados a seda
e o Senhor Peixoto seda também, que se dá mal com trapos e estofos:
- Nasci para lençóis em condições mas o que se há-de fazer?
A do trabalho-casa está a par, o marido também foi niquento: a questão não era a pele, era a asma, tudo lhe dava asma até que uma primavera com mais pólenes o apagou como um passarinho
- Disse-me adeus com as pestanas
passou do pijama para o fato dos domingos, numa urna quase de mogno, não bem mogno, que o mogno é caro, mas praticamente mogno, nem de perto se notava a diferença, e agora habita uma gavetinha de ferro, entre dúzias de gavetinhas de ferro, no muro do cemitério da terra dele, Abrantes, a fim de os parenteso acompanharem, cada qual a espirrar para seu lado o que sobeja da asma: umas cinzas sobressaltadas, visto que o mundo inteiro sabe que as alergias não descansam. O senhor Peixoto, a quem os cromossomas do tio sargento forneceram cultura e sensibilidade, apoia
- Um tormento
a alastrar nos estofos, pede-me que lhe confirme as noções
- Explique lá você, senhor Antunes, que foi médico
garanto que sim, as asmas são tenazes, pulam a eternidade inteira, a do trabalho-casa ajuda-me
- Quando está tudo calado juro que lhe oiço os soluços
e ficamos os três à espera, em silêncio, mas por embirração o defunto não se manifesta:
- Sempre fez só que o quis
suspira a do trabalho-casa deixando subentendidos séculos de teimosia aborrecida pontuados por
- Não me apetece
insuportáveis. Que idade terão ambos, o vagabundo e ela? Por mim sugeria-lhe que o levasse para o seu rés-do-chão: podia limpá-lo e engomá-lo aos domingos, juntamente com os lençóis e as toalhas, ficar a vê-lo andar à roda no óculo da máquina: talvez que, do meio da espuma, lhe piscasse o olho.
Vontade de perguntar
- Há quantos milénios não lhe piscam o olho, minha senhora?
mas embora sem um tio sargento possuo algum decoro e calei-me. A do trabalho-casa vislumbrou qualquer coisa
- Ia fazer uma pergunta, senhor Antunes?
esperta como um alho o raio da velha, mas apressei-me a girar a caveira horizontalmente
- Nenhuma pergunta, minha senhora, já me chamaram a atenção que volta e meia tenho um ar esquisito
e a do trabalho-casa, subitamente maternal, aconselhou-me
- Devia casar-se, sabia?
E talvez devesse casar-me, realmente, arranjar uma criatura em condições que me tirasse, em simultâneo, as espinhas do peixe e as da alma, me pusesse a pasta na escova e me tratasse por Biju. Quando eu era pequeno a mulher sumptuosa do farmacêutico tinha um cão chamado Biju. Ficava à janela, de Biju ao colo, a fumar cigarros lentos, inacessível, e eu cheio de formigueiros na planta dos pés. A propósito de casamento, e já que estamos nisso, a mulher do farmacêutico será uma criatura livre agora?
Toda a sua crónica é motivo de reflexão, experiência...
Por momentos esqueci-me de mim e deixei-me levar pela sua leitura, nessa revoada de beleza e singularidade únicas na sua escrita.
Depois de ler, diria...que voltei mais madura à vida.
A propósito Doutor...
Realmente Biju é giro...
Ás vezes também penso nisso,voltar a casar...
Quando o meu ex faleceu,uns dias depois,sonhei com ele.
E no sonho ele disse-me:
- " volta a casar-te,não fiques sózinha".
O problema,é que não me apetece lá muito casar,e hoje é
difícil encontrar alguém que nos coçe as costas( é o que tenho
mais saudades da vida de casada) enfim,e já me habituei a viver
assim,só comigo.
E gosto de estar comigo,e com o computador,e passear a ver
Lisboa, que ás vezes me parece tão só como eu!
Jaz o lobo no tojo...
Não me lembra o resto, sei que no tal poema, o Lobo, o meu, ao sentir-se velho e só se enraivecia e já sem forças, adormecia, sonhando com o sangue dos anhos novos e algures no fim do poema.... morria, esfacelando entre os beiços os restos da lua nova.
Jaz o lobo no tojo... jaz o lobo no tojo... as lobas também.
É uma bela crónica! Acho-o menos chorão, mais sorridente, sem alicórnios ou unicórnios...
Isso, atire-se à mulher do farmacêutico, de preferência sem ela saber, porque se elas sabem, é o diabo, começam logo a ficar importantes, para mais um escritor famoso! Compre-lhe uns xaropes para a tosse e aproveite para ir escrevendo umas crónicas. Eu conheço alguém que lhes compra chocolates, umas pastilhas, uns copos de vinho, e elas nem imaginam que estão sendo namoradas.
Gostei também dos pólenes, do vício de se ir ao médico, medicina grátis mata tanta gente... Sabia que os dinossáurios se extinguiram também pelos pólenes? Coitados, foram-se abaixo... Mas os pólenes agora são outros, só que ninguém aborda a verdade, nem os cronistas...
Gostei muito da crónica, se continuar assim, tem aqui um leitor, não daqueles que morrem a dizer piropos, mas dos que gostam de agitar os pólenes e provocar espirros...
— Aatchim!!!!
— Santinho!
É a vida: o Sr. Peixoto que se deixou levar pelas fantasias e caíu na desgraça; a viúva que ajuda o Sr. Peixoto por compaixão e vive amargurada; e uma pessoa que se sente só e até nem se importava de se casar só para se sentir ocupado; e eu que dava tudo para me divorciar, para poder viver livremente, para respirar sózinha! resumindo: ninguém sabe muito bem o que quer da vida!
Cuidado DR. essa de querer que lhe chamem Bijou, ou Biju pode não ser boa ideia, porque há béubéus, que são mais bem tratados do que gente...
Cumprimentos DR.
A vida nos surpreende, a cada dia, todos os dias....
O cotidiano por mais distante, traz similaridades,
ternura, lembranças, saudades, presente e passado,
e mais que isso, um olhar dentro de si.
Quando Lôbo Antunes, rememora,
pinça do amago da sua alma tantas histórias,
dança a minha vida, altaneira, corajosa,
refazendo caminhos e histórias,
percebendo a suavidade nas suas palavras.
Viver é apreender quiça a alma,
rastrear palavras,
identificar notas melodiosas,
palavra ante palavra,
vindas do fundo, da alma.
Gostei da Crónica, pois o que mais me chocou quando fui para Lisboa foi essas imagens e estava para fazer compras e depois passei no Rossio à noite e vi pessoas a dormirem perante as lojas mais caras e com um frio gélido que não tive coragem de gastar dinheiro nesse natal.
Este Domingo, cruzei-me em Faro, com uma Senhora forte e que sofreu também no joelho, então ela tem dores horríveis, até porque é muito pesada e depois sofre imenso.
Mas pior é que ela não tem condições para lavar a sua roupa, e vive numa garagem e ainda é assaltada.
Dei-lhe 2 euros, mas fiquei com o coração cortado, porque ela já trabalhou num hotel, ela já viajou e teve uma vida que digamos média, e hoje vive na miséria, porque não consegue quase com o seu corpo e teve um atropelamento que a impede de a andar bem e sem dores, e mais com a sua formosura total.
É Nestas circunstâncias que as pessoas percebem como são ricas e como a vida mesmo sem muita coisa é magnífica.
Ainda vou tentar comprar detergente de máquina para roupa e pedir para lavarem a roupa dela na lavandaria da residência, mas agora só dependerá das empregadas desta residência, e não de mim, porque eu estou bem longe de casa, e nem imagina como fico ao ouvir estas pessoas e a ver estes episódios.
Tal como o Peixoto esta senhora tem uma vida que custa imenso, e muitas outras pessoas, que acho que muitas pessoas deviam pensar nesta crónica antes de pisarem o seu colega para subirem de vida, como olhar ao seu redor com olhos de ver. bj