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Toy Story 3: só os brinquedos não crescem

O mundo divide-se entre aqueles que gostam mais do Xerife Woody e os que preferem o astronauta Buzz Lightyear

Manuel Halpern
13:57 Terça, 27 de Julho de 2010
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O mundo divide-se entre aqueles que gostam mais do Xerife Woody e os que preferem o astronauta Buzz Lightyear. É uma perspetiva toystoryesca da vida, exagerada por certo, semelhante ao que em tempos se disse dos Beatles e dos Rolling Stones. Ambos representam o modelo americano e as duas Américas: a nostálgica e conservadora que se mantém fechada nos seus mitos, e a tecnológica e futurista que procura novas conquistas. Ou talvez estejamos a ser injustos com o Woody, que é um cowboy tão simpático, e acaba por se revelar o mais leal dos amigos e o preferido de Andy. Isto apesar de Buzz Lightyear ser, como se sabe, o melhor brinquedo que já alguma vez foi feito.

O próprio Toy Story, desde o primeiro filme, que espera conciliar os modelos. Quando aparece em 1995 é, de início, Buzz Lightyear, o fantástico astronauta que convence tudo e todos e deixa o pobre Woody preterido, invejoso e mesquinho. Trata-se pois de um grito tecnológico: o primeiro filme da Pixar e o primeiro feito totalmente em computador. Pioneiríssimo portanto, marcando os tons em que se fez a animação americana ao longo dos últimos 15 anos. Toy Story 1 tem outros aspetos importantes, como uma adultização dos filmes infantis, alargando o público a outras faixas etárias. Tática que entretanto se vulgarizou, ao ponto de não sabermos se as crianças se emanciparam ou se os adultos se infantilizaram.

Ao contrário do que aconteceu com outras séries, que descobriram no três o número redondo, o Toy Story tinha-se aparentemente fechado com a sequela de 1999. De forma surpreendente, já nos anos 10, a Pixar resolveu recuperar a história, com aparente sucesso. Mas como havia um descontinuado - as crianças de hoje não viram na altura o filme - a Pixar optou por uma fundamental manobra de charme, ao colocar nas principais salas as versões 3D dos Toy Story 1 e 2, fazendo do Toy Story 3 o mais apetecível dos filmes de animação deste ano.

O Toy Story cresceu, tal como o Andy, o menino que agora já tem 17 anos e, como é natural, não quer saber dos seus brinquedos de criança. Vivem assim um novo e inesperado drama, uma espécie de rejeição paternal. O set-up é um piscar de olhos ao mais difícil dos públicos: as crianças que viram os dois primeiros filmes no cinema e agora são adolescente, que não só já não ligam para brinquedos  nem a filmes de animação como o Toy Story.

A situação, contudo, dá pano para mangas, para uma longa aventura, em grande parte passada num centro de dia, que se assemelha em tudo a uma prisão. Há uma brilhante adaptação à conjuntura social americana, quando, de forma delirante, o Buzz avariado desata a falar e a cantar em espanhol (You've got a Friend in me, de Randy Newman, ganha nova cor com a versão flamenco dos Gipsy Kings). Descobre também alguma reflexão sobre o sistema político, trocando por miúdos o que é uma ditadura e o que é uma democracia. E há uma vitória a toda a linha do Woody, o verdadeiro xerife, apesar de Buzz se revelar perfeitamente encantador. Herda-se, como dantes, a história do Soldadinho do Chumbo, em que os bonecos ganham vida própria quando ninguém está a ver. Não sendo um drama como o conto de Anderson, o Toy Story 3 tem um final de levar às lágrimas.

À terceira dimensão, que é o passo mais significativo da animação industrial americana desde Toy Story 1, já o Toy Story 3 chegou atrasado. Mal se dá por ela e é obviamente um meio e não um fim. O ex-libris tecnológico é a perspetiva da câmara que parte do nível dos próprios brinquedos.

Brilhante aplicação do 3D é  Noite & Dia, a curta que precede o filme. Um exemplo de como se pode servir de forma criativa da tecnologia. A própria história da animação passa por aquelas silhuetas, tão simples por fora, mas com um interior a perder de vista.

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