Tudo o que se passa com uma empresa cotada é muito mais transparente que com uma pública
9:04 Terça, 15 de Dezembro de 2009
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Acontece frequentemente estar a ler e a ver televisão ao mesmo tempo. O segredo está numa espécie de "zapping" entre o livro, a revista ou o jornal e o canal que estiver a ver.
Vem isto a propósito de um artigo sobre o Eurotunel que estou a ler no momento em que um canal de televisão, creio que a TVI, fazia uma peça sobre o TGV e o facto de não contemplar o transporte de mercadorias (?). Interrompi a leitura para prestar mais atenção ao que me parecia não fazer muito sentido e que, de forma resumida, era o seguinte:
1 - Um ministro espanhol afirmando que estariam interessados no transporte ferroviário de mercadorias com acesso ao porto de Sines quando estavam a falar do TGV.
2 - Um presidente da empresa portuguesa que gere o TGV a dizer que não há pressa quanto à questão da bitola Ibérica porque os espanhóis não vão alterar isso amanhã, e a justificar que não vai haver transporte de mercadorias no TGV porque é muito caro. (TGV de mercadorias?)
3 - Um filme bonito sobre a futura plataforma logística do Poceirão (a maior da Península ou da Europa ou do Mundo ou de Portugal, não sei, mas era a maior de qualquer coisa), local onde vai parar o TGV porque este não vai chegar a Sines.
4 - Um ministro Português que não sabia muito bem, mas tinha uma comissão de trabalho a tratar de tudo.
5 - Um antigo presidente da empresa criada para gerir o TGV a dizer que tudo aquilo era uma tontaria.
Fim da reportagem.
Voltei ao meu artigo. O lançamento do Eurotunel foi em 1981 feito pela senhora Thatcher, primeira-ministra inglesa, e François Miterrand, presidente francês, que acordaram na altura que o projecto não teria um cêntimo de dinheiros públicos e seria financiado pela poupança privada.
Anunciava-se então que o comboio sob o Canal da Mancha iria transportar 30 milhões de passageiros por ano. No primeiro ano foram só 7 milhões os viajantes.
O túnel deveria ter custado o equivalente a 7,5 mil milhões de euros, mas como acontece habitualmente com obras públicas custou 16 mil milhões.
Como era uma empresa totalmente privada com 4,5 mil milhões de capital e com um endividamento de 3 que passou para os 11,5 mil milhões, o resultado foi a quase falência.
As acções emitidas na altura a um preço equivalente a 5,34 euros, rapidamente chegaram aos 19,3 euros com as perspectivas maravilhosas da empresa, algo "praticamente sem risco" pensava-se na altura, mas depois foi descer até aos 14 cêntimos, decretada a recuperação em tribunal e realizada uma operação de troca (OPT) como processo de restruturação.
Existem várias lições nesta história que podemos recuperar.
1 - A primeira é que projectos de grandes dimensões devem ter estimativas conservadoras, porque são essas estimativas que vão suportar a viabilidade do projecto,
2 - A segunda é que a avaliação correcta dos custos é fundamental porque o serviço da dívida pode tornar-se insuportável para o projecto.
3 - A terceira é que projectos públicos acabam sempre por ser avaliados de uma forma não económica mas política o que quer dizer, essencialmente, que ninguém presta contas.
4 - A quarta é que um projecto como o TGV deveria provavelmente recorrer ao mercado de capitais para deixar de ser uma questão política e passar a ser uma questão económica.
5 - A quinta é que, goste-se ou não do mercado de capitais, existam ou não queixas relativamente a ele, a verdade é que tudo o que se passa com uma empresa cotada é muito mais transparente que com uma pública. A primeira tem o escrutínio do público investidor a segunda do público partidário.
Caro Paulo,
Há duas semanas que passo ao lado deste artigo, sem o comentar. Razão: todas as minhas dúvidas em relação ao TGV...
Tal como o Paulo fiz um "zapping" por várias análises sobre o assunto e chego à conclusão de que... uma coisa é o que nos querem vender (fazer acreditar) outra bem diferente é a nossa realidade.
Não que não concorde com o TGV... mas questiono-me se neste momento a construção da nova rede ferroviária deve ser adiada ou não, dadas as actuais limitações financeiras do país.
1. O TGV será algo que necessitamos ou apenas desejamos?
2. Uma rede de alta velocidade que nos ligará à Europa? Sim. Mas um luxo caro para um país como Portugal que está fortemente endividado e que tem que ter o maior cuidado com cada cêntimo de investimento público.
3. Daqui a 3 ou 5 anos ?? em vez de apanhar um avião para Madrid, Paris ... apanho o TGV. Quantas horas de viagem? Custo do bilhete? Quem sabe não continuo a preferir as companhias de "low-cost" que talvez sejam mais baratas... ou qualquer outra?
4. TGV é rentável? Quem paga?.. Aqui plenamente de acordo consigo, recorrendo ao mercado de capitais deixaria de ser uma questão política e passaria a ser uma questão económica. Quem decide?Vai resolver o problema do desemprego?
5. Estudos de viabilidade? Quantos já foram feitos? Quanto custaram? Algum deles é credível?
6. Quando vamos resolver as diferenças que a actual rede ferroviária apresenta em relação à rede europeia? Uma resolução prioritária!
Bom 2010
Sara
Só agora li o seu artigo, com um mês de atraso!
Mas não sei porquê dá-me a sensação que ele se comporta como o vinho do Porto, vai-se servindo, servindo, servindo e está cada vez mais actual!
Estamos neste momento a discutir o Orçamento de Estado na Assembleia da República e conhencem-se os valores do déficit 9,0%!