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Portugal e Espanha em mostras culturais

Um mapa cultural da Ibéria

Em novembro, Portugal e Espanha estarão mutuamente mais próximas. Pelo menos do ponto de vista cultural, com a realização da mostra da cultura espanhola em várias cidades portuguesas em simultâneo com mais uma edição da Mostra de Portugal em Madrid, que, este ano, se estende a Barcelona, Saragoça, Sevilha e Badajoz

Esqueçamos por um pouco mais de um mês a velha história das nações ibéricas de costas voltadas, ou de espaldas como se diz por lá. Isto porque em simultâneo os dois países tentam mostrar ao vizinho o melhor de si: Portugal em Madrid, Saragoça, Sevilha e Badajoz; Espanha em Lisboa, Porto, Palmela e Coimbra. De 5 de novembro a 10 de dezembro, Portugal levará de si ao público espanhol a música de autores e intérpretes como Pedro Moutinho, Rodrigo Leão, Luísa Sobral, Lula Pena, Ana Moura, Mafalda Arnauth e Raquel Tavares. No âmbito das Artes Visuais, apresentar-se-ão as mostras Cambio de Paradigma (no Museu de Arte Contemporânea de Castela e Leão, cuja coleção será posta em confronto com a do Museu de Serralves) e uma exposição de graffitis em Badajoz sobre Simbologia Portuguesa e Espanhola.
A Literatura também estará representada com a apresentação do livro José Saramago. Un retrato Apasionado, de Baptista-Bastos, e com encontros literários com Mário de Carvalho, Jacinto Lucas Pires, Inês Pedrosa, Cristina Fernández Cubas e Luís Cardoso. Até 6 de novembro, em Barcelona, a Compañia Corcada apresentará a peça Pessoa, o que o Turista deve ver, baseada no texto de Fernando Pessoa, Lisboa, o que o turista deve ver. Em Madrid e Saragoça será apresentado um ciclo de cinema português, com filmes como 48, de Susana Dias; Cisne, de Teresa Villaverde; O Filme do Desassossego, de João Botelho; Linha Vermelha, de José Filipe; Sangue do meu Sangue, de João Canijo; Mistérios de Lisboa, de Raul Ruiz. De 21 a 25 de novembro, Sevilha acolherá o primeiro seminário do cinema português contemporâneo, com a participação de vários estudiosos e críticos que, nas universidades espanholas, analisam sistematicamente a cinematografia portuguesa.

De Espanha, com talento

A Lisboa, Espanha trará várias exposições de caráter disciplinar muito diverso como Rostos de Roma - Retratos Romanos do Museu Arqueológico Nacional. No Mosteiro dos Jerónimos, de 15 de novembro a 15 de dezembro, propõe-se uma viagem pelo retrato romano através da coleção de escultura clássica daquele museu madrileno. No Museu de Arte Antiga, até março, poderá ser visitada a exposição "Corpos de Dor - A Imagem Sagrada na Escultura Espanhola", em que se revisita a tradição espanhola da escultura com intenção devocional.
Mais contemporânea é a proposta apresentada no Museu Nacional de Soares dos Reis, no Porto: DOMUSae - Espaços para a Cultura, em que se apresenta uma amostra representativa de edifícios culturais da História recente de Espanha, a visitar até 29 de janeiro. A fotografia mais recente também poderá ser visitada na Sala Revólver, em Lisboa: Urbscapes - Espaços de Hibridação, no Centro Português de Fotografia, no Porto, com Fotografias que falam por si - O Fotojornalismo de Juantxu Rodríguez e Os novos valores da fotografia espanhola. No mesmo local, até 18 de dezembro, é evocado um dos pioneiros da reportagem gráfica e um dos maiores fotógrafos da História espanhola, Luis Ramón Marín (autor da foto acima reproduzida). No Instituto Cervantes, em Lisboa, mostrar-se-á até 16 de dezembro, A Cena Quotidiana, uma série de fotografias de atores, retratados por Óscar Fernández Orengo.

maria joao martins
12:30 Quinta, 27 de Outubro de 2011
Somos todos hispanos - Um mapa cultural da Ibéria

Na Fundación Mapfre, em Madrid

Teremos sempre Paris

Foi um dos pais fundadores da Fotografia Documental e concedeu uma importância nova à paisagem urbana e seus protagonistas. O francês Eugène Atget e seu legado são recordados em Madrid 

Gosto de imaginar as grandes cidades como portas que abrem para muitos outros lugares, pequenos ou grandes, solares ou o seu oposto. Em Madrid, na Fundação Mapfre, neste preciso momento, está aberta uma janela a partir da qual se pode ver Paris. Melhor ainda: uma Paris de lenda, boémia, algo canalha e incrivelmente romântica que se perdeu no redemoinho do tempo e em sucessivas renovações urbanísticas. Essa janela tem um título "Eugène Atget. El viejo Paris" e é uma exposição patente até 27 de agosto, composta por mais de duas centenas de fotografias, criteriosamente selecionadas a partir de um fundo de 4 mil peças, procedentes das coleções do Museu Carnavalet de Paris ou da George Eastman House, em Nova Iorque). Eugène Atget (1857-1927), por muitos copiado e por outros tantos considerado o precursor da fotografia documental, foi o primeiro homem da sua arte a atribuir dignidade estética à paisagem urbana e aos seus (frequentemente desconcertantes) protagonistas. Andou a espreitar pelos vãos de escada mais obscuros e deslumbrou-se com escadarias monumentais, quedou-se nos lugares de fruta, nas feiras, nos carrosséis, nos armazéns e nos bordéis. Mostrou as glórias monumentais da França, mas encontrando-lhes sempre uma fragilidade trágica ou um lado mais onírico do que real. Modesto o bastante para acreditar que não fazia escola, foi um dos grandes inspiradores dos artistas surrealistas.
maria joao martins
17:37 Quarta, 25 de Maio de 2011
Somos todos hispanos - Teremos sempre Paris

Somos Todos Hispanos

Poetas ao serviço de Espanha

Com tradução de José Bento, a Assírio & Alvim devolve-nos o brilho do século de ouro espanhol com as antologias poéticas de Lope de Vega e Luis de Góngora

Nas minhas frequentes viagens a Madrid, adormeço embalada pelos poetas do século de ouro espanhol. No prédio onde vive o meu anfitrião, Pablo Eulate, morreu Miguel de Cervantes, a 23 de abril de 1616, precisamente no dia em que também a Inglaterra perdia William Shakespeare. Nas ruas próximas desta Calle Cervantes amaram, escreveram, bateram-se em duelo outros homens que glorificaram a Espanha, não através da espada ou dos canhões, mas pela força da poesia: Francisco Quevedo, Lope de Vega, Luís de Góngora, Garcilaso, entre outros. Autores que os nossos escritores, seus contemporâneos, como D. Francisco Manuel de Melo liam e frequentavam como se portugueses fossem.

Há quase dez anos, uma viagem literária à região de Castela-La Mancha, organizada pela Oficina do Turismo Espanhol em Lisboa, despertou-me para a leitura de São João da Cruz e Quevedo. Fiquei-o a dever a José Bento, um dos membros dessa alegre comitiva, hispanista de méritos reconhecidos, que me deu a conhecer as excelências dos versos e as aventurosas vidas destes homens que, como Camões ou o referido autor de Carta de Guia de Casados, não se podiam dar ao luxo de baixar a espada para só viver da pena.

Graças à erudição sem alarde de José Bento, os leitores portugueses poderão agora ficar a conhecer melhor a obra de dois destes grandes nomes da poesia peninsular de seiscentos. Com chancela da Assírio & Alvim, acabam de ser lançados no mercado português duas antologias de primeira importância: a de Lope de Vega e a de Góngora. Em introduções que são autênticas lições, José Bento põe em relações os dois autores, que, na verdade, se opuseram num duelo literário que fez escola: "Góngora teve como contemporâneo Lope de Vega e, vinte anos mais novo, Francisco de Quevedo, que se lhe opuseram ferozmente desde que tiveram forças para tanto. É discutível qual destes poetas é o maior e tal discussão não interessa e é inconclusiva. Contudo, o mais influente no seu tempo foi Góngora, pois não só deu origem a uma escola, nem sempre digna do mestre ao tornar o cultismo em culteranismo (heresia poética, como sugere esta designação, porventura formada a partir de luteranismo?), como até transmitiu algo do seu melhor a estes seus dois inimigos." Sobre Vega (porventura mais conhecido pela sua obra teatral do que pela poética), José Bento escreve: ""Monstro da natureza" chamou Cervantes a Lope pela quantidade da sua obra. Com rigor e compreensão para os seus excessos, uma selecção que seja suficiente para conhecer essa obra ultrapassa as dimensões de uma antologia. Mas, organizada com vontade de compreender o homem e o poeta complexo e por vezes desmesurado,em diversos aspetos, que ele foi, é possível que seja a única forma de começar a aceder e compreender um dos melhores poetas da literatura espanhola, com defeitos que muitos souberam evitar, mas com uma pujança e ousadia que são quase só dele."Basta-me um verso e re-encontro a luz da Madrid que amo e também toda a pujança das literaturas ibéricas, mães, por sua vez, de muitas outras literaturas em África e na América Latina. Re-encontro tudo aquilo que o FMI e o BCE não podem compreender. 
Maria Joao Martins
12:32 Terça, 3 de Maio de 2011
Somos todos hispanos - Poetas ao serviço de Espanha

Em Madrid

O toucador na Biblioteca Nacional

A suposta diferenciação entre artes maiores e menores está a ser esbatida na Biblioteca Nacional de Espanha. Na exposição El Arte de la Belleza, a História Visual da cosmética convive pacificamente com os grandes clássicos da Literatura

O solene edifício da Biblioteca Nacional de Espanha, no coração de Madrid, foi bruscamente "invadido" pelas imagens de risonhas raparigas tomadas pela coquetterie. Sob a autoridade literária de Cervantes ou Tirso de Molina, elas empoeiram o corpo com pós aromáticos ou devolvem aos cabelos a cor primitiva. Chocante, dirão os mais puristas habitués daquela casa, mas a exposição. El arte de la belleza, visitável até 5 de junho, oferece uma preciosa seleção de mais de duzentas peças de materiais gráficos (revistas, gravuras, desenhos e fotografias, etiquetas, embalagens, discos e partituras, cartazes e impresos publicitários relacionados com o fabrico, a imagem e a publicidade da industria e da arte da perfumaria) ao longo dos séculos XIX e XX. Complementarmente, a BNE contextualiza estes materiais provenientes das suas coleções com uma abordagem da História da imagen, do desenho e da publicidade dos produtos de beleza, ao mesmo tempo que mostra o impacto que as campanhas publicitárias começaram a exercer nos hábitos de consumo da sociedade. Para além do valor histórico destes testemunhos, a exposição El Arte de la belleza tem o mérito de mostrar que, quase sempre por razões de sobrevivência, grandes artistas plásticos trabalharam para a indústria da beleza. Num brillante ensaio, incluído no catálogo da exposição, Francesc Fontbona recorda a importância dessa colaboração: "Voltando ao círculo dos produtos de beleza e de toucador, diversos artistas mais ou menos conhecidos trabalharam ocasionalmente para a sua publicidade ou embalagens. Eulogio Varela Sartorio, o desenhadar Art Nouveau mais destacado do círculo madrileno, trabalhou para a Perfumaria Inglesa de Madrid em 1901. Francisco de Cidón desenhou para a Perfumaria Ladivfer de Barcelona em 1903. (...) Artistas preferencialmente dedicados à arte pura, a que se difundia nas galerias de arte, também foram chamados a colaborar na publicidade de perfumaria e cosmética."Comissariada por Rosario Ramos,  a exposição articula-se em torno de cinco grandes seções: o fabrico do produto de beleza a partir de una seleção de matérias-primas necessárias para a sua elaboração; o desenho das etiquetas e embalagens por ilustradores gráficos; os diferentes suportes utilizados para a publicidade dos mesmos con o objetivo de incitar ao consumo; os estabelecimientos como lugares de venda e comercialização; e, por último, o uso do producto de beleza, através de uma imagem de elegância, refletida nas campanhas publicitárias dos aromas e perfumes. Um toque de sedução atravessa os corredores da Biblioteca Nacional como a cauda de um vestido de veludo. E ficamos a saber que deixou de haver fronteiras para o conhecimento. A suposta futilidade deixou de ficar à porta das grandes instituições culturais espanholas..
Maria João Martins
8:00 Segunda, 18 de Abril de 2011
Somos todos hispanos - O toucador na Biblioteca Nacional

O Renascimento italiano em Madrid

Até 10 de Outubro, o Museu Thyssen, em Madrid, festeja uma das suas "jóias da Coroa": El retrato de Giovanna degli Albizzi Tornabuoni, de Ghirlandaio, com uma exposição evocativa do mundo em que viveu o pintor e a sua retratada

Tudo começou com o fascínio diletante de um milionário: em 1935, o pai do barão Thyssen adquiriu em leilão o retrato de uma bela dama florentina, Giovanna Degli Albizzi Tornabuoni, pintado no século XV por Domenico Ghirlandaio. O filho herdou-o e nunca hesitou em classificar o pequeno quadro como o seu favorito entre tantas preciosidades da sua coleção. Podemos vê-lo habitualmente, em lugar de destaque, no Museu Thyssen, em Madrid.

Esta preferência justifica, até 10 de Outubro, a exposição Ghirlandaio y el Renacimento en Florencia. Reconstitui o ambiente do que foi o palácio da família Tornabuoni, na cidade toscana. O comissário, o historiador holandês Gert Jan van der Sman, afirma que quis mostrar aos visitantes do século XXI como vivia a influente família da jovem retratada por Ghirlandaio. Fá-lo, através de 60 obras de grandes artistas da Renascença italiana como Pollaiuolo, Botticelli, Verrochio, Filippo, Filipino Lippi e, como não podia deixar de ser, do próprio Ghirlandaio. A abundante documentação histórica permite mesmo reconstituir os sumptuosos esponsais de Giovanna com Lorenzo Tornabuoni, quando ela contava apenas 18 anos, e reunir no Museu algumas das obras encomendadas pelo casal para maior glória da dinastia.

O notável nesta exposição é o modo como nos devolve, intacta no esplendor da beleza, juventude e riqueza, o mundo de Giovanna, nascida a 18 de Dezembro de 1468, oitava filha de Masso Albizzi e Caterina Soderini. Morreu de parto antes de completar 20 anos, mas vemo-la aqui, eterna e senhora do seu destino de grande dama e do seu pequeno mundo. Está em muito boa companhia. Nesta exposição do Thyssen vemo-la com outros retratos de mulher assinados por Botticelli, Pollaiuolo e Giovanni del Fora. Para nosso deleite e admiração.

    
Maria João Martins
10:00 Quarta, 23 de Junho de 2010
Somos todos hispanos - O Renascimento italiano em Madrid

Uma rota transfronteiriça da arte

Com a abertura do Centro de Artes Visuales Fundación Helga de Alvear, em Cáceres, foi criado um novo "triângulo" raiano dedicado à arte contemporânea. De Elvas a Cáceres, há uma nova rota cultural a desbravar

Património mundial da humanidade, Cáceres, na Extremadura espanhola, tem, desde 3 de Junho, um novo motivo de sedução. A grande coleção de arte contemporânea da alemã Helga de Alvear pode ser vista no novo Centro de Artes Visuales que leva o seu nome, estando patente até 30 de setembro a exposição Márgenes de Silêncio, que proporciona a quem a visitar um primeiro olhar abrangente sobre o conjunto da coleção. Galerista da maior importância e colecionadora devotada, Helga de Alvear guardou, durante anos, milhares de obras em dois armazéns nos arredores de Madrid, de onde só saíam pontualmente, em caso de empréstimo para exposições temporárias, Até agora. Com a colaboração de várias instituições públicas e privadas locais, o novo Centro de Artes Visuales Fundación Helga de Alvear instalou-se num palacete do princípio do século XX, reabilitado pelos arquitetos Mansilla e Tunón, autores do projeto do Museu de Arte Contemporânea de León. Seguir-se-á, numa segunda fase da obra, a construção de um novo edifício com mais de 100 mil metros quadrados.Para já, o comissário José María Viñuela selecionou 115 obras, com diferentes linguagens artísticas, que de algum modo trataram o conceito de silêncio, desde 1963 até 2009. Entre os artistas representados contam-se John Baldessari, a recentemente falecida Louise Bourgeois, Andreas Gursky , Juan Muñoz , Thomas Schütte ou Santiago Sierra . Também na Extremadura, a cidade fronteiriça de Badajoz já se transformara num destino de eleição para os amantes da arte contemporânea, com a abertura do Museo Extremeno e Iberoamericano, onde podem ser vistas obras de artistas como Miquel Navarro, Juan Muñoz, Adolfo Schlosser, Juan Navarro Baldeweg, José María Sicilia, Juan Uslé, dos portugueses Julião Sarmento, Leonel Moura, Jorge Molder, Alberto Carneiro, Álvaro Lapa, José Pedro Croft e dos ibero-americanos Guillermo Kuitca, Saint Clair Cemin, Mario Cravo Neto, Julio Le Parc, Manuel Ocampo, Fernando Maza, Antonio Seguí, Alfredo Jaar, Juan Dávila, José Gamarra, José Bedia ou Ray Smith. Esta rota transfronteiriça da arte contemporânea começa, aliás, ainda do lado de cá, no MACE de Elvas, onde pode ser vista a coleção de pintura, desenho, escultura, instalação, fotografia e vídeo de António Cachola. No "menu" estão obras de Adriana Molder, Fátima Mendonça, Fernanda Fragateiro, Ilda david, Joana Vasconcelos, João Tabarra, Noé Sendas, Nuno Cera, Xana, entre muitos outros. No coração da Península, bem longe das capitais e das grandes instituições museológicas, desenha-se, assim, uma nova rota da arte contemporânea. A não perder, até porque a beleza da paisagem também ajuda. 
Maria João Martins
19:14 Quarta, 9 de Junho de 2010
Somos todos hispanos - Uma rota transfronteiriça da arte

Capitais de Cultura

Em 2016, haverá uma capital europeia da cultura espanhola e outra polaca. Mas o país vizinho apresenta 16 candidaturas fortes. Caberá ao Conselho da Europa o embaraço da escolha

Engenho, património, pertinência social, eis alguns dos critérios que o Conselho da Europa coloca na escolha das cidades que, em cada ano, assumem o papel de capitais de cultura. Para 2016, sabe-se, haverá uma capital polaca e outra espanhola, mas se, no primeiro caso, o júri terá de escolher entre cinco candidaturas (Varsóvia, Lublin, Lódz, Torun e Poznan), no segundo haverá, nada mais, nada menos, do que 16. São elas: Alcalá de Henares, Burgos, Cáceres, Córdova, Cuenca, Ilhas Baleares, Las Palmas, Málaga, Múrcia, Oviedo, Pamplona, San Sebastian, Santander, Segóvia, Tarragona e Saragoça.

Bons exemplos da diversidade cultural e geográfica de Espanha, cada uma delas apresenta projectos bem diferenciados e tenta seduzir o júri, liderado pelo britânico Robert Scott, mais e melhor do que as suas concorrentes. Alcalá de Henares, cidade natal de Cervantes, quer associar essa mais valia literária (em 2016 assinalar-se-á o quarto centenário da morte do escritor) à ambiental, apresentando um vasto conjunto de actividades em torno do rio Henares. Património e meio ambiente são, aliás, apostas fortes de outras cidades históricas como Burgos, Cuenca ou Segóvia.

Saragoça que, em 2008, acolheu a Expo, apresenta um projecto em torno de Goya e Buñuel, referências fortes, mas também "símbolos do espírito pioneiro, inovador, de ruptura, original e profundamente criativo". Tarragona propõe-se representar a especificidade da cultura catalã, contando, para isso, com os esforços conjuntos de instituições tão diferentes como as Fundações Gala-Dalí e Joan Miro e os clubes de futebol Espanyol e Barcelona.

Málaga, cidade que, na última década, conheceu uma importante transformação urbanística, apresenta uma proposta que consolida a sua nova vocação de centro artístico e museológico de primeira importância. Para reforçar essa candidatura, em breve juntar-se-ão ao Museu Picasso e ao Centro de Arte Contemporânea de Málaga, um Museu de Belas Artes e uma delegação do Thyssen. Não menos surpreendentes, pela sua situação insular, são as candidaturas das Baleares e Las Palmas, ambas apostadas em demonstrar que têm muito mais do que sol e água salgada para oferecer. No Norte do país, Santander e San Sebastian são também elas candidatas de peso. A primeira, no Cantábrico, antiga estância balnear da realeza espanhola, aposta na arte contemporânea (com um vasto programa de exposições, festivais, projectos editoriais, actividades e debates), a segunda, no País Basco, pretende fazer da praia e do mar um palco para as artes e para uma vivência lúdica da cultura. O Conselho da Europa deliberará até 2012, mas não será tarefa fácil.

Maria João Martins
10:30 Quarta, 26 de Maio de 2010
Somos todos hispanos - Capitais de Cultura

Segredos de Madrid

Pensa que já conhece suficientemente bem a capital espanhola? E que os seus encantos se esgotam na monumentalidade do triângulo Prado/Reina Sofia e Thyssen? Um passeio mais atento reserva surpresas, como algumas livrarias apostadas em fazer a diferença relativamente aos gigantes do sector livreiro

Pode amar-se uma cidade como se fosse gente. Percorrer-lhe as ruas sem atalhar pelo caminho mais curto, saborear-lhe sons e sabores, descobrir-lhe segredos e mesmo perdoar-lhe as faltas de gosto e civilidade. Haja o que houver, a cidade que, dessa forma, me fala aos sentidos e à inteligência sempre será Madrid. Gigantesca e, no entanto, íntima nas aldeias que a compõem; histriónica e, ao mesmo tempo, recatada na pose para o retrato. De cada vez que lá volto, surpreende-me com nova delícia ou com outra que, não o sendo, me passara despercebida.

A livraria "La Buena Vida", por exemplo. Situada no coração histórico e monumental da cidade (Calle Vergara, 10, muito perto do Teatro Real e da Plaza de Oriente), tem um ambiente acolhedor que convida à entrada e, logo a seguir, à demora. Numa cidade em que não faltam grandes superfícies do sector (desde a FNAC à Casa del Libro), aposta-se aqui no ambiente e no tratamento personalizado. La Buena Vida, ao alcance do cidadão médio, é aqui, neste auto-denominado "café del libro", em que se pode ler e ver enquanto se toma uma copa ou picar un pincho. Enquanto não chega a Madrid, pode deter-se no site www.labuenavida-cafedellibro.es e apreciar as novidades.

Não muito longe (Plaza Matute, 6), está outra livraria com uma oferta alternativa aos gigantes da edição: a Desnível, especializada em mapas e literatura de viagens. Num espaço todo de madeira (como um barco), forrado a mapas de todos os cantos do mundo e a relógios com vários fusos horários, o visitante encontra guias para viajar por ar, terra e mar, revistas especializadas e clássicos do género para miúdos e graúdos, mas também um conselho seguro para quem necessitar de "bússola". Clique www.libreriadesnivel.com e antecipe o sabor de uma visita "ao vivo e a cores". E mais não digo, que ao viajante há que deixar o prazer de desvendar segredos.

 
Maria João Martins
15:56 Quarta, 12 de Maio de 2010
Somos todos hispanos - Segredos de Madrid

Manuel Fernandez Álvarez

Um homem ibérico

A 20 de Abril, morreu, com 88 anos, o historiador Manuel Fernandez Álvarez. Na sua longa vida, produziu uma vasta obra, essencial para a compreensão de Portugal e Espanha

A poucos cidadãos de Portugal ou Espanha se poderá chamar com propriedade um homem (ou mulher) ibérico. Manuel Fernández Álvarez, falecido a 20 de Abril com 88 anos, era-o porque tinha um sentido global e abrangente desta Península nossa, só comparável a Miguel de Unamuno ou Torga. Historiador, especializado no reinado de Filipe II (I de Portugal), nunca aderiu ao panegírico das glórias do Império Espanhol (que atingia por essa época o seu zénite), antes foi um analista crítico e muito inteligente de todas as contradições que cabiam nessa aparente grandeza.Portugal conhece menos as suas várias obras sobre uma época em que também a nossa política se decidia em Madrid do que a monumental obra do francês Fernand Braudel, O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico no Tempo de Filipe II, mas há que rever estas prioridades. Para além de imprescindíveis do ponto de vista historiográfico, obras de Fernández Álvarez como Isabel la Católica; Felipe II y su tiempo; Juana la Loca, la cautiva de Tordesillas; El fraile y la Inquisición; Casadas, monjas, rameras y brujas; La Princesa de Éboli;El Duque de Hierro (este sobre o terceiro Duque de Alba) ou Carlos V, el César y el Hombre nunca perdem de vista a relação da Espanha com o seu império na América do Sul, mas também com Portugal e com as suas possessões atlânticas. Por razões dinásticas, os dois Estados ibéricos eram, mesmo anteriormente a 1580, dirigidos por uma só família e comungavam frequentemente os mesmos interesses estratégicos. Que D.João I e os Reis Católicos tivessem, no Tratado de Tordesilhas, dividido entre si o mundo descoberto e a descobrir não foi uma casualidade megalómana, mas um facto que marcou profundamente todo o século seguinte.Manuel Férnandez Álvarez compreendeu perfeitamente esta ligação ditada pela Geografia, tanto como percebeu que as solidariedades de classe e os laços de sangue entre a realeza e os altos funcionários de ambas as Coroas falou frequentemente mais alto do que quaisquer sentimentos patrióticos. Na análise da personalidade de Filipe II, por exemplo, o historiador nunca escamoteia a importância dos anos de formação assegurados pela sua mãe portuguesa, a Imperatriz Isabel (filha de D. Manuel I), e suas damas, todas elas recrutadas entre a fina flor das famílias lusas. Do mesmo modo, nunca esquece o papel preponderante que vários nobres portugueses, integrados no séquito das princesas que iam casar a Espanha, desempenharam no funcionamento do intrincado aparelho de Estado de Carlos V e Filipe II.Com muitos anos de estudo nos arquivos de ambos os países, Fernández Álvarez, membro da Real Academia de la História, professor emérito da Universidade de Salamanca e Prémio Nacional de História em 1985 pela obra, La Sociedad Española en en Siglo de Oro, deixa uma vasta obra, o último título dos quais acaba de ser lançado pela Espasa, España, Biografia de una Nación. A não perder.
Maria João Martins
15:57 Quarta, 28 de Abril de 2010
Somos todos hispanos - Um homem ibérico

Somos Todos Hispanos

Estranho é viver

Morta em 2000, Carmen Martín Gaite foi um dos nomes maiores da literatura espanhola no último quartel do século XX. Uma obra infanto-juvenil recorda agora o seu perfil de mulher sem amarras

Associava o fôlego narrativo ao conhecimento profundo da natureza humana, como o demonstra em algumas das mais belas novelas espanholas publicadas nas últimas décadas. Falamos de Carmen Martín Gaite (1925-2000), que recebeu, entre outras distinções literárias, o Prémio Nacional de Literatura (1978) e o Príncipe das Astúrias das Letras Espanholas (1988). Como é sabido, nem sempre o espírito de justiça ilumina os júris destes e outros acontecimentos, mas basta ter lido obras como Nebulosidade Variável ou Lo Raro es Vivir para entender a importância da autora natural de Salamanca. Isto para não falar no seu trabalho como ensaísta (escreveu, por exemplo, dois belíssimos estudos sobre os usos amorosos na Espanha do século XVIII e do pós-guerra civil) ou na literatura infanto-juvenil (inesquecível a novela, publicada em Portugal, O Capuchinho Vermelho em Manhattan).

É nessa qualidade, aliás, que, dez anos depois da morte, Carmen Martín Gaite volta a ser notícia em Espanha, desta feita com uma biografia sua, romanceada por Luísa Antolín, e ilustrada por Juan Manuel Santomé: A la Aventura subida en una Pluma (editorial Hotel Papel). Destinada a crianças em idade escolar e adolescentes, a obra transforma a escritora numa heroína que decerto seria muito da sua predilecção, Carmiña, menina conduzida na vida por uma extrema curiosidade. O que a leva a contrariar o figurino que o ideário franquista idealizava para a função social da mulher, privilegiando a busca do conhecimento à demanda do príncipe encantado que obcecava as suas contemporâneas.

Montada sobre uma pluma à maneira de uma gentil bruxinha, Carmiña transforma-se numa paladina da afirmação cultural da mulher espanhola, cercada por preconceitos de toda a espécie, e "voa" através das páginas deste livro, desde a infância em Castela-Leão, até às mornas tardes de escrita, no seu apartamento de Madrid, frente ao Parque do Retiro. Sempre insaciada de experiências e sensações, gentilmente irreverente na boina sobre a ampla cabeleira, a exclamar que, num mundo tão agreste, o estranho (e maravilhoso) é vivermos.
Maria João Martins
15:59 Quarta, 14 de Abril de 2010
Somos todos hispanos - Estranho é viver
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