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SHIRIN, de ABBAS KIAROSTAMI

SHIRIN: Ensaio sobre outra cegueira

SHIRIN: Ensaio sobre outra cegueira
230 olhos, de 114 actrizes iranianas e uma francesa, colados em nós durante 90 minutos. Não é possível desviar o olhar. Quase nos cega,de hipnótica beleza pura

Ana Margarida de Carvalho
12:12 Quinta, 24 de Junho de 2010
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Nunca se poderia imaginar que um só rosto de mulher, mudo, parado,simplesmente a olhar, pudesse conter em si tanta acção. Nunca se poderia imaginar que uma lágrima a extravasar de um olho e a percorrer uma face fosse todo um ensaio sobre a nostalgia feminina. Nunca se poderia imaginar que Abbas Kiarostami, o genial realizador iraniano, fizesse do seu filme Shirin (estreia-se hoje, quinta) este ensaio de homenagem às mulheres, colocando seus rostos na mais imaculada das visibilidades, num país em que muitas vezes andam vendados de censura e prepotência. E que as colocasse em primeiro plano, quando as conjunturas patriarcais e cruéis da religião as arredam lá para trás. Na humilhação das retaguardas.
É um filme de "fora de campo". Algo que já foi feito por Bergman, quando filmou as caras de quem assistia à ópera mas não a ópera em si. Ou mesmo por João César Monteiro quando colocou o célebre casaco em cima da câmara, em Branca de Neve - mas no caso de Kiarostami sem um pingo de provocação ou de intenção experimentalista. Uma actriz francesa (Julliette Binoche)e 114 actrizes iranianas, com belos olhos oblíquos (Machado de Assis chamar-lhes-ia "olhos de ressaca", com os de Capitu), magnificamente debruados por sobrancelhas que traçam aquele arco perfeito (como só têm as mulheres orientais), assistem na obscuridade da sala de cinema a um filme. Que é uma história de amor, de Shirin, uma princesa arménia enamorada pelo rei da Pérsia- poema persa do século XII, uma história tão famosa e matricial no Médio Oriente como o Romeu e Julieta para a cultura ocidental. Nós ouvimos a acção do filme a decorrer, os diálogos, as batalhas, tilintares, risos, prantos, cascos de cavalo, relinchares, arfares, música, restolhares de água, ondas, pingos ou as espadas a cravarem-se nas carnes. Mas todas as emoções são-nos dadas através das expressões (sobretudo dos olhos) destas mulheres que assistem. É uma espécie de transferência, como se fossemos atacados por um género de cegueira especial e nos estivessem a fazer uma tradução em simultâneo das paixões da alma através de uma linguagem não verbal. Que é esta dos olhos e das suas nuances e metamorfoses, e das suas águas que se esgueiram devagar e escorrem pela face, dos pequenos esgares, dos mínimos movimentos destas sobrancelhas perfeitas, dos sobressaltos, dos sorrisos nunca abertos, nunca desbragados, nunca sonoros e daquele subtil ajeitar do lenço, gesto lesto e tão típico das mulheres islâmicas. As mãos também fazem parte dos rostos, quando repousam no queiXo ou deslizam pela zona da testa. Também há homens nesta plateia, mas Kiarostami retira-os do enquadramento, corta-lhes a cabeça, só para mostrar a irrelevância da sua presença.
Alguns rostos são maravilhosos. A iluminação é extraordinária, às vezes parece que as actrizes têm aqueles véus de gaze que se usava na objectiva para dar um ar mais etéreo às estrelas e esconder as imperfeições e outras injúrias nos close ups, nos tempos do cinema mudo. O é importante é invisível aos olhos, diz uma frase famosa. Mas o que é importante pode ser visível no fundo destes rostos, canais directos para alma e o coração. E o fora de campo torna-se dentro outra vez através destes olhos que em vez de pupila preta têm o lampejo de brilho projectado pela tela. Através da banda sonora formam-se as imagens, criam-se em cada um de nós os protagonistas que dizem frases como "o amor aquece os homens as mulheres queimam-se". E neste efeito espelho, neste voieurismo sobre o voieurismo há um abismo sem margens, só com precipícios.
SHIRIN: Ensaio sobre outra cegueira
Palavras-chave  4 olhos, Shirin, abbas Kiarustami
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