"Vi retratos meus num jornal francês: tão feio. Não me habituo à minha cara, ao meu aspecto. Vontade de usar uma máscara, tapar a cara com as mãos"
6:06 Quarta, 23 de Dezembro de 2009
Partilhe este artigo:
Não importam as horas agora, hoje são sempre onze da noite e chove. Na janela fronteira, num quarto iluminado, vejo uma rapariga a ler na cama. Lençóis encarnados, édredon encarnado. De vez em quando muda de posição com o livro, apercebe-se, pelo meu candeeiro, que estou aqui e inicia atitudes que lhe devem parecer voluptuosas: espreguiça-se, deixa escorregar uma das alças, o joelho direito surge devagar do édredon, demora um instante, some-se. Mal lhe distingo a cara mas distingo-lhe os óculos. Tira-os, lambe uma das hastes, volta a colocá-los. Não tem muita habilidade, coitada. Torno a escrever e desce o estore, furiosa, embora pelos intervalos do estore distinga a sua silhueta a espreitar-me antes de se desinteressar de mim: deve achar-me maricas.
Não importam as horas agora, são onze da noite e é no halo das árvores que me apercebo da chuva. Uma porção de livros à espera de serem lidos, uma porção de páginas para corrigir: quantos meses até acabar isto? E, ao acabar isto, que forma terá? O Júlio Pomar ao telefone: às vezes tem voz de peluche. Combinamos jantar. Gosto de comer na cozinha da Teresa, eu que não gosto de comer. Da conversa lenta. O desenho de Matisse que eles têm, uma cara de rapariga, a lápis, feita com meia dúzia de traços, mine de rien como diz o Júlio. Como se traduz mine de rien? Como quem não quer a coisa, talvez? Que simplicidade aparente, que fácil. Onde aquele sujeito metia a mão saía luz. E, por pintores franceses, veio-me à cabeça uma passagem do diário de Delacroix, artista muito da minha estima: o homem é uma criatura sociável que não gosta dos seus semelhantes. A rapariga que lê na cama sobre o estore e chega-se às vidraças, nua. Que raio de jogo, o dela. O marido
(suponho que marido)
entra no quarto e fica a olhar para mim, ao seu lado. Não me admirava que se despisse também. Não despe: some-se. Na janela de baixo uma senhora de idade em frente da televisão, a comer sopa. Tudo é irreal neste mundo. O Júlio começa sempre os telefonemas da mesma maneira
- Como estás tu?
ou seja a pergunta mais difícil de responder que conheço. Nunca sei como estou. Estou hexagonal. Estou cor de laranja. Estou chato como a potassa para mim mesmo. Faz-me uma pergunta menos complicada, Júlio. Quantos são dois e dois, por exemplo. Não, essa não. Bertrand Russel levou cem páginas a explicar a razão de um mais um serem dois e não ficou lá muito certo disso. Estou cheio de citações, que gaita. Pareço um cigano a mostrar o oiro falso dos anéis. E, por cima disto tudo, uma ambulância aos gritos. Que noite. Tudo treme com o vento e eu a juntar palavrinhas. Vi retratos meus num jornal francês: tão feio. Não me habituo à minha cara, ao meu aspecto. Vontade de usar uma máscara, tapar a cara com as mãos. A minha filha Joana, que ainda agora nasceu, teve um filho, uma coisa pequena com os dedos todos. Daqui a nada está a fazer a barba. Quem me arranja uma ideia feliz para esta crónica? Flores numa jarra acolá. E o relógio da secretária do meu avô em cima de uma estante. Avôzinho. Ontem fez anos que morreu: novembro é um mês do caraças. Saudades do Zé Cardoso Pires, saudades do Ernesto Melo Antunes: passou que tempos e não me habituo. Por que razão não falam comigo, vocês? E um grande silêncio no meio da gente, um vazio que dói. O filho da Joana tem uma unha em cada dedo, veio completo. Devíamos nascer aos poucos, acho eu, ou então com coisas a mais, pernas por exemplo, que se perderiam uma a uma. Outra ambulância a riscar o escuro. Aqui há uns tempos fui atrás da ambulância que levava o meu irmão Pedro ao hospital. Ainda conservo o gosto amargo da aflição. A propósito dos retratos do jornal francês: que diferença me fazia que aquele tipo morresse? A senhora da televisão acabou a sopa, desapareceu com o tabuleiro, voltou com um iogurte e uma colher. Não mete a colher no iogurte, fascinada com um episódio no ecrã. Também usa óculos, como a rapariga das leituras na cama, só que não se despe. Adivinha-se um brochezito a fechar a gola. Cheira a vento, a outono, a frio. A minha vida inteira sobe-me à boca como um vómito. Apetecia-me estar em Nelas em setembro. Esta semana almocei com dois camaradas da guerra e, como sempre, a cabeça a escapar para Angola:
- Lembras-te de?
- Daquela vez que?
memórias horríveis que o tempo adoçou. E a gente a cortar o passado com a faca. Agora vou acabar isto e continuar a corrigir as páginas. Que esquisito o mundo. Que esquisitos nós. No móvel dos retratos a minha tia Madalena sorri, a perder cor na película. Não perdeu cor dentro de mim. A rapariga deitou-se e apagou a luz, a senhora da televisão começa o iogurte, rapa a embalagem com a colher, limpa a boca no lencinho. Sorrio-lhe e não me vê. Claro que não me vê: tornei-me transparente. Digo
- Boa noite
o mais baixinho que posso, a fim de que consiga escutar-me.
Que crónica linda.
Ser transparente é isso... é permitir que toda a nossa doçura transborde... é falar do que se sente.
São onze da noite e chove... digo boa noite baixinho, para poder escutar a minha voz...
Boas Festas.
Sara
Primavera! Abril...
Apolo (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 19:15 | Sábado, 2 de Janeiro de 2010
A solidão faz-nos reparar nos outros, porque nos importamos com eles? porque os espreitamos através das gretas do estore? e o Inverno é tão chato, que Deus me perdoe... às vezes dava vontade de hibernar como os reptéis e só acordar na Primavera, porque é tudo mais claro, abrimos a janela e pronto vimos tudo com clareza, o que queremos e até aquilo que não nos apetece ver, mas ao menos vimos o sol e não nos dói os ossos de tanto frio e tanta chuva! e o vento barulhento também nos deixa em paz, ao menos podemos dormir sossegados! devia ser sempre Primavera, Abril, adoro Abril...
Com muito respeito.
Quando leio uma coisa destas é um dia ganho, é um dia marcado por um pedaço de felicidade que teima em acompanhar-me até me estragar novamente perdido em estupidez. Que maravilha, que beleza, que leveza, verdades, sentidos alerta. ALA inventa verdades, lê mentes e depois de as pensar e sentir que bem que as troca por palavras escritas. Obrigado por existir, sinto-me um cão cheio de sede à frente de uma tigela de água cada vez que me apanho frente a um texto destes. E depois penso que a maioria das pessoas lutam por serem práticas, evoluem por aí nada mais mal feito. Enfim...
luís
E este António a presentear-nos com uma crónica de última hora,
que delícia, amigo! (À volta só compras e o António surge qual âncora). Como sempre dá para notar que menoriza estas prosas que sãoo autênticas pérolas, como já escrevi em tempos. As opiniões que me chegam de quem as lê são muito boas. Não se diminua neste género literário: " Agora vou acabar isto e continuar..." , não faça parecer isto um campeonato de futebol em que só nos lembramos das taças e esquecemos o quanto nos custou ganhar e perder cada jogo, "migalhas".
Ao falar de Júlio Pomar (o meu eleito na pintura) logo pensei, este homem tem bom gosto e sabe/soube escolher os amigos, alguns também constam no meu catálogo de recordações pessoais (pelas obras): José Cardoso Pires (o meu marialva-mor), mais o Melo Antunes (o meu militar de Abril preferido a quem quem a nossa democarica muito deve - mais o Salgueiro Maia para não ser injusto - nobre, grande intelectual e homem de carácter ), a que acrescento a Engª Maria de Lurdes Pintassilgo (grande Mulher) e o Padre Américo (um homem do mundo que se tornou padre " ``à força da pancada"), pessoas boas. Vem-me uma tristeza porque começo a sentir que pessoas assim começam a escassear ou andarei distraído?
Sabe António também gosto de comer em casa da Teresa que não é a sua mas a minha.Ficam os vivos que nos amam de corpo e alma, com todas as imperfeições que fazem de nós seres perfeitos.
Quem assim escreve só pode ser meu AMIGO.
Artur Gonçalves-Porto
Por acaso nunca tinha reparado se ALA era feio ou bonito. Gostava apenas da escrita e ponto. Um dia abri a imprensa cor de rosa e achei-o feio. Horrível mesmo. Agora imagine-se lá porquê...
"E a gente a cortar o passado com a faca".
Destaco esta frase crua e simples, mas de cosntrução elaborada, entre as muitas que pululam o artigo de L.A., porque julgo que o génio deste homem fantástico, reside mesmo aí, na capacidade absolutamente brutal e quase divina, com que ele presenteia quem tem o privilégio de gastar algum do seu tempo a ler os seus escritos.
Obrigado por ser português.