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Saramago

Cavaco não foi [ao funeral] porque vai precisar dos votos dos que não leram O Evangelho segundo Jesus Cristo e consideraram Caim uma obra dos infernos

16:41 Quarta, 23 de Junho de 2010
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Do autocarro aos cafés, da coluna de jornal ao supermercado, o País pergunta: o Presidente da República deveria ou não ter ido ao funeral de José Saramago? Como nesta Terra de Pecado todas as interpretações são livres, também tenho uma: Cavaco não foi porque vai precisar dos votos dos que não leram O Evangelho segundo Jesus Cristo e consideraram Caim uma obra dos infernos. Ou seja, os mesmos votos que o inquilino de Belém terá perdido ao aprovar, contrariado, o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Como se sabe, o facto levou a Igreja portuguesa ao desespero.

Desde esse dia, anda por aí, numa autêntica Viagem do Elefante, em busca de um candidato a Belém mais bafejado pela graça de Deus. E, já agora, pelo espírito das cruzadas, quem sabe.

Esgrimiram-se, entretanto, outras justificações para a ausência de Cavaco: que não queria ser assobiado, que não queria ser hipócrita, que já tinha feito o que deveria como chefe de Estado... Argumentou-se também que não poderia faltar às cerimónias pela dignidade do cargo que ocupa. Ora, Saramago, que nunca foi um Homem Duplicado e dado a ostentações e vénias pelos senhores de turno, dispensaria bem a presença do homem a quem nunca apertou a mão. Ele, que nem n´As Intermitências da Morte quis fazer as pazes com a figura suprema do Governo que o tratou como um Objecto, Quase, agradeceria, por certo, a ausência.

Claro que, para quem apenas guarda Pequenas Memórias do tempo que passa, a censura ao escritor em pleno cavaquismo deveria ser relegada para Os Apontamentos da História na hora da despedida. Discordo. Naquela altura, goste-se ou não, tiraram tudo o que resta a um escritor: o valor da liberdade de criação e a dignidade das suas palavras. E Provavelmente, Alegria, já agora. Cavaco era chefe de um ajudante de ministro que, a dada altura, se questionou: Que farei com este livro? E tão rápido pensou como decidiu: uma obra incómoda para "o património religioso dos cristãos" não seria candidata ao Prémio Literário Europeu. Disse. E fez. Ontem como hoje, sabe-se o quanto Cavaco é cioso desse património cristão, pelos vistos sagrado. Num Governo que chefiou, um escritor foi relegado para A Caverna e nem Os Poemas Possíveis lhe valeram. Ou alguém ouviu a Cavaco arrependimentos a propósito desse momento triste, qual Ensaio sobre a Cegueira num País em que o mal parece incurável?

Nem por isso, Saramago deixou de ser Levantado do Chão.

Até ao Nobel. E depois dele.

Saramago foi Deste Mundo e do Outro e o gosto, nestas coisas, fica à porta. Entendamo-nos: não preciso de concordar ou aplaudir tudo o que escreveu ou disse. Mas a verdade é que foi nele, mais luminoso e redentor, qualquer Ensaio sobre a Lucidez do que Todos os Nomes que lhe chamaram.
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opinando a propósito
Zé Cravinho (seguir utilizador), 2 pontos , 10:56 | Terça, 29 de Junho de 2010
Compare-se o funeral do escritor José Saramago,único português que recebeu o Prémio Nobel de Literatura,com as exéquias e funeral da cantora de Fado,Amália Rodrigues.Amália também era
de família pobre,gente da Plebe.Foi vendedora ambulante,fugindo à
Polícia para não ser multada.Conheceu a dureza da vida.Dada a sua
capacidade e sentimento musical para cantar o Fado e auxiliada
por um senhor da Alta Roda e da Situação,ela conseguiu singrar e
manisfestar-se como uma excelente Fadista.Também Saramago,
conheceu a dureza da vida como filho de gente pobre do campo,Foi operário metalúrgico,estudou e fez-se escritor de tal monta que,
mesmo a contra-gosto dos seus inimigos políticos(êle era filiado no
Partido Comunista),mereceu o Prémio Nobel de Literatura.
Sòmente os indivíduos de mente clerical fascista,é que odeiam o escritor José Saramago.

A José Saramago o meu preito
de homenagem e gratidão,
pois êle expõe a meu jeito,
o Absurdo da Religião.
Saramago
vera bgs. (seguir utilizador), 1 ponto , 20:15 | Quarta, 23 de Junho de 2010
Brilhante o seu texto (políticas à parte).
Excelente o parágrafo: "...foi nele, mais luminoso e redentor qualquer Ensaio sobre a Lucidez do que Todos os nomes que lhe chamaram".

E seguindo a sua interpretação, já percebeu que não me vou pronunciar sobre a ida ou não de Cavaco ao funeral de Saramago... eu não sei se Cavaco será candidato, todos supõem que sim ... mas não tenciono votar nele e não li o Evangelho segundo Jesus Cristo!!!

De Saramago li o "Ensaio sobre a Cegueira" e gostei, conheço as razões que o levaram a viver em Espanha, e curiosamente depois da sua morte pesquisei alguns escritos dos seus Cadernos de Lanzarote... e gostei do que li, de novo.

A obra do escritor fica. Que descanse em paz. E quem sabe um dia, saibamos estar acima destas pequenas "querelas" entre seres humanos...
ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ
joadearievilo (seguir utilizador), 1 ponto , 0:25 | Quinta, 24 de Junho de 2010
Interessante crónica, pela graça, imaginação, análise, e pelas inclusões de títulos, mas títulos, são vernizes.

Eu a princípio achei que o Cavaco deveria ter ido. Mas é tão fácil indicar aos outros a linha moral, cívica, presidencial...

Aquilo no cemitério, onde o Saramago foi cremado, era uma autêntica missa da igreja comunista. Qualquer um ateu se sentiria mal por lá, a mais, quanto mais de outra religião. Saramago é um tesouro comunista. Como se sentiria o Cavaco num meio assim? Seria bem recebido? Os comunistas em celebrações não gostam muito de reacionários, fascistas, que são todos os não comunistas.

O Evangelho Segundo Jesus Cristo até não ofende ninguém, e é de todos, quanto a mim, o melhor trabalho dele.
Essas discussões sobre Caim, Evangelhos, etc. São uns verdadeiros disparates, muito bem aproveitados pelo Saramago.
Hoje em dia, com tanta informação científica ao dispor, qualquer um que queira, pode perceber a origem da vida e do Pai Natal, facilmente. E o Saramago aí não trouxe nada de novo. Existem sim maneiras de abordar o tema de modo inteligente, coisa que ele não soube fazer.

O Ensaio Sobre a Lucidez, é sem dúvida um título muito estimulante, ambicioso, mas o livro, do que li dele, achei uma bodega, uma pura perda de tempo. Só a princípio é interessante.
Quando se pertence a um idealismo como o comunismo, nunca se é livre, porque a verdade da liberdade reside na liberdade de pensar, e esta não pode estar presa a nada.

O Saramago teria tido a oportunidade de fazer a obra que fez, sem o apoio do partido comunista?
Em Portugal, aos nascidos nas classes humildes ainda não é permitido tais devaneios intelectuais, para mais sem formação universitária!

O Cavaco não verá o Saramago como obra do comunismo? Assim compreende-se melhor.
Menachem Begin
joaquim leal (seguir utilizador), 1 ponto , 11:26 | Sexta, 25 de Junho de 2010
Gostava de saber se algum "progressista" (que ideologia perigosa...) alguma vez ia ao funeral do nobel da paz de extrema direita Menachem Begin...
Talvez não andassem agora aí a ganir tão alto....
Conversa de chacha
mario gomes (seguir utilizador), 1 ponto , 14:20 | Segunda, 28 de Junho de 2010
Eu li o Evangelho,não gostei.E não gostei de Saramago -- que conheci -- nem como pessoa nem como escritor.Era um safado.Mas quanto à ida de Cavaco, acho um chachada.Ele fez a celebração oficialpor ele ser Nobel.E nada mais lhe cabia,a não ser atítulo pessoal. É provincianismo puro.Alguém viu o rei de Espanha no funeral de Camilo José Cela? Não,porque ele não foi,nem tinha de ir.E então nos EUA -- que tantos nobelizados tem tido -- alguém viu os presidentes americanos nos funerais dos que morreram.Esta gente que acusa Cavaco de pequenez mental é que sofre realmente desse mal.
Sem sentido
NÃO TENTO (seguir utilizador), 1 ponto , 16:00 | Terça, 29 de Junho de 2010
Sr. M. Carvalho, acha que Cavaco vai precisar dos votos daqueles que não leram a obra ou daqueles que leram? Será que você ainda não entendeu que o Cavaco reage segundo as suas convicções? Segundo o casamento gay, embora não concorde com o procedimento do P.R., pois sendo contra as suas convicções não deveria promulgar, alegando que iria eventualmente promover mais uma crise. Sobre a não presença do PR no funeral de Saramago, estou plenamenta de acordo, um português, que para além de ser prémio nobel, se deu ao luxo de enxovalhar o seu país de um modo pouco educado, obviamente que não merece a presença, no seu funeral do PR, nem tão pouco ter as suas cinzas na sua pátria, que abandonou de um modo um pouco intempestivo.
Cumprimentos
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