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Salt, de Philip Noyce

SALT - Quando os russos eram maus

SALT -  Quando os russos eram maus
Angelina Jolie é Salt, a nova heroina do cinema americano. Hollywood tem saudades da Guerra Fria

Manuel Halpern
12:13 Terça, 24 de Agosto de 2010
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Os soviéticos davam bons vilões, altos e robustos, com aquela tez caucasiana, de olhos tão esquálidos que assustam. Assim se passou em Hollywood durante décadas. Os maus da fita falavam inglês com sotaque arranhado, não tinham estilo e só sabiam rir de maldade. A Guerra fria passou e Hollywood ressentiu-se. Os russos e os americanos afinal eram amigos e o cinema teve que encontrar novos vilões. Também o mundo ocidental. Só que a postura mudou. Antes os russos e os americanos 'odiavam-se' em geral, tanto Reagan e Brejnev, quanto Rocky e Ivan Drago. Havia um telefone vermelho para falar com o inimigo, tal qual a guerra do Solnado. Agora o inimigo é uma potência dispersa, não se declara ódio ao Islão, porque parte dele é aliado da América, e os inimigos não têm rosto. Ou até alguns te(e)rão, como Ahmadinejad, Osama Bin Laden ou Kim Jong il. Simplesmente, não dão antagonistas tão bons no cinema.

Por isso é que é tão tentadora a recuperação dos bons e velhos vilões russos. E é o que o realizador Philip Noyce e o argumentista Kurt Wimmer fazem neste filme. Uma mostra das saudades que Hollywood tem da Guerra Fria. Salt junta duas ideias curiosas. Por um lado, a de uma bomba-relógio de programação retardada. Como se pudesse ter sido acionado um mecanismo no tempo da outra guerra para explodir apenas agora. No caso, não é uma bomba propriamente dita, mas espiões, agentes duplos da extinta KGB infiltrados na CIA, em postos de comando, à espera do dia X, em que recuperam as forças. Claro que nem à Rússia nem ao seu presidente interessa destruir a América, como no tempo em que eles eram mesmo maus, mas há um alto comando, um cérebro, que criou estes espiões de elite, que se sente desiludido com o atual estado da terra mãe e está disposto a tudo para matar saudades dos tempos gloriosos. Por outro lado, alerta para o perigo nuclear, seguindo a ideia de Dr. Estranho Amor (Stanly Kubrick, 1964), sugerindo que basta uma pessoa louca ou mal-intencionada carregar no botão errado para o mundo ir pelos ares.

Não menos importante é Salt, a personagem de Angelina Jolie, uma nova heroína do cinema americano. De tal forma cativante, que estamos sempre com ela, por mais errado que pareça ser o seu lado. Torcemos ora a favor ora contra a América. O filme tem bons momentos de ação, ao estilo Missão Impossível, e um enredo com algum engenho, embora se encontrem pormenores excessivamente rebuscados, mesmo para o género. Mas a personagem fica, pela sua beleza em ação. Conjuga traços por vezes antagónicos, de frieza e paixão, ímpeto e racionalidade, sentimentalismo e distância. Salt é uma mulher tão dura como Silvester Stalone, obstinada pelos seus objetivos, que desfaz a sua carapaça quando encontra o amor. Por isso é que esta também é uma história de amor. Mas o seu treino, inteligência e racionalismo é de tal forma fulgurante, que assiste ao assassínio do marido sem derramar uma lágrima. E só mais tarde, entendemos nós, pelo sangue derramado, que é, sobretudo, uma história de vingança, que se inicia agora e continuada na sequela. Sim, é deixado o espaço para a sequela, porque seria pena que a personagem ficasse por aqui. Fica tudo em aberto para um Salt contra-ataca.

 

Salt, de Philip Noyce, com Angelina Jolie, Liev Schreiber, Chiwetel Ejiofor, 100 min, EUA

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