À medida que o tempo avança vai-se ficando despovoado. OS eucaliptos dos anos detroem tudo em tono de nós
4:23 Quinta, 15 de Julho de 2010
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Em acabando este livro apetece-me escrever um romance policial, ou antes um romance negro. Trago esta ideia há anos e chegou a altura de o fazer.
Lembro-me de falar nisso ao meu irmão de alma José Cardoso Pires
- Sabes do que tenho vontade, tu?
esperei que o silêncio retornasse suficientemente côncavo para as minhas palavras caberem lá dentro e esvaziei o púcaro Fazer um romance negro.
Recebi de resposta
- Ando a pensar nisso desde que comecei.
Demorámo-nos às voltas com o plano de fazer o tal romance negro a meias, em capítulos alternados, depois o Zé teve aqueles problemas que acabaram numa morte horrível e, mesmo sem ele, não abandonei a cisma. Se for capaz de o pôr em marcha dedico-lho, claro, nós que não dedicámos livros um ao outro:
- Porque é que a gente nunca dedicou um livro ao outro?
- Achas que é preciso?
e ficámos assim. Mas levas com o teu nome no romance negro que te lixas. E meto lá os teus bairros. E meto-te lá a ti, de personagem principal. Não todo, claro, certas coisas de ti. Fazes-me tanta falta, meu cabrão, há tanto para contarmos um ao outro. O fim de um amigo é um martírio, não páras de te agitar cá dentro, raios te partam. Tu e o Ernesto Melo Antunes: duas feridas abertas que não saram. Mas nunca tive uma intimidade assim com outro homem. Bom, adiante. O romance negro é uma promessa que te fiz e acabou-se. Continuo a não beber, continuo a gostar de comida de avião
- Como posso ser amigo de um sacana que gosta de comida de avião?
papava o meu tabuleiro, papava o teu, falávamos de bailes nos Bombeiros Voluntários Lisbonenses, boxe, bilhar às três tabelas, chocos com tinta
(eu detesto)
não falávamos de literatura nem do que cada um estava a lavrar. Mostrava-se acabado o trabalho, num tonzinho distraído
-Queres ler isto?
e, sem mais palavras, suspendiamo--nos num pingo à espera da opinião do outro, que se resumia sempre a uma frase vaga. Percebia-se o julgamento pelo clima à volta da frase, não pela frase em si. E era tudo.
À medida que o tempo avança vai-se ficando despovoado. Os eucaliptos dos anos destroem tudo em torno de nós. Sobram cinzas, raízes, sombras, restos de pedras calcinadas, vozes ao rés da erva à procura da boca onde nasceram, a pedirem que as escutemos. O que se ganha em troca? Uma cor diferente no silêncio, aquilo a que chamamos sabedoria e não é mais que uma tristeza resignada. Outras pessoas habitarão aqui e a gente primeiro retratos nas cómodas, depois retratos nas gavetas, depois retratos na cave, depois nada.
Cartas numa caligrafia antiga que um vento defunto inclina. E a morte final com o esquecimento do nosso próprio nome. Ficam os livros
(ficarão os livros?)
ficam os livros. Em certo sentido é terrível que a criação dure mais que o
criador: Flaubert enfurecia-se que a Bovary continuasse viva e ele não.
É curioso: agora é ela, a quem Flaubert deu vida, que lhe dá vida a ele. É essa a grandeza da Arte: o Verbo torna-se Carne que por sua vez torna a ser Verbo. Pode desejar-se actividade mais nobre? E agora, não sei porque obscuro nexo, veio-me à ideia o Manuel da Fonseca a dar autógrafos na Feira do Livro, o sorriso dele. Esperava que eu acabasse, jantávamos juntos e deixava-o no cais para a outra banda, de madrugada. Cada autógrafo demorava dez minutos no caso de um homem, quinze ou vinte no caso de uma mulher. Dedicatórias intermináveis. Entre o fim do jantar e o cais uma rebaldaria feliz. Tinha assistido à chegada do General ou Marechal Gomes da Costa a Lisboa, depois do vinte e oito
(ou vinte e seis?)
de maio
(vinte e oito)
e o Manel, com a avó, a assistir ao desfile das tropas na Avenida da Liberdade, em que a avó lhe disse
- Olha, filho, devia haver um decreto que proibisse as revoluções.
Copinhos no balcão de cada bar, discotecas manhosas, nem uma palavra sobre literatura, claro. O Manel recrutava umas pequenas e, pelo retrovisor, assistia-lhe às manobras no banco de trás: quem começa o Cerromaior assim
Antigamente o largo era o centro do mundo
merece tudo. E um punhado de poemas de alta qualidade, ai as coisas incríveis que eu te contava assim misturadas com luas e estrelas e a voz vagarosa como o andar da noite. Mesmo posto corrido é do camandro. E a voz do Manel vagarosa como o andar da noite. Nunca tinha pressa, nunca o vi triste. Adorava andar à pancada. O Zé dizia que ele se fingia cobarde para os outros aumentarem e a seguir era um arraial de porrada que dava gosto. Para o Zé se exprimir assim, ele que sob esse aspecto não devia a ninguém, era de certeza. Manel. Só tenho pena que o Zé não se reconciliasse contigo por uma asneira velha, muito feia, que nunca te perdoou. Eu também não perdoei
(não perdoo)
mas esqueço sempre.
- O Zé não vem conosco?
perguntava o Manel, ansioso, e eu por dó Não pode a ver-lhe a aflição na cara. Deixa lá: antigamente o largo era o centro do mundo. E a quem foi capaz de dizer isto aceita-se tudo. Eu, pelo menos, aceito. E o Zé há-de aceitar, vais ver, é uma questão de tempo.
Eu não gosto de comida de avião.
Acho graça ás embalagens e os pacotinhos.
Mas pior de tudo,odeio aquele barulho antes de levantar voo,entro
quase em pânico,e tapo os ouvidos,e o meu coração bate tanto
que penso que vou morrer.
Enfim,só figuras...
Esta sua crónica é tão triste e tão bonita...
Essa sua amizade que nunca o deixou e que leva sempre consigo
o seu amigo,é louvável.
Tem de escrever esse livro «negro»,tenho a certeza que ele ainda
está á espera...
E até pode começar com essa frase:
"O largo era o centro do mundo"!
Os dias são para mim la «même chose qui la nuit...!
Sabe...eu também sou assim,cheia de traumas e de nostalgias...
Acabo sempre por chorar,pelo passado,por tudo que foi,e no fundo
era isso mesmo que nós éramos!!!
Mas existe sempre uma música,uma paisagem,um olhar...
Não tenha pena de nada,só sinta pena daquilo que realmente amou!!!
Hoje estive a ver uma entrevista sua no Brasil,a um Humberto Werneck,e não imagina o que me ri...
Então pensei em escrever-lhe para dizer-lhe que se calhar devía
era de escrever uma história de humor negro.
Sinceramente,achei que é um homem com imensa piada e o curioso
é que não transparece nas suas crónicas e livros.
Até á próxima,vou comprar outro livro seu,pode ser que agora goste mais.
Está saudoso o Lobo
do resto da matilha
de outros lobos, fuinhas,
hienas e doninhas
coelhos, coelhinhas
que a dentuça moía
Está saudoso o Lobo:
todos temos saudades
ó Lobo aleãozado
com ares de gatinho
Dou-te um beijo na fronte
e digo «vem comigo»
o mundo é onde estás
o centro o teu umbigo
Vem, comamos uma sandes
de plástico e um sumo
já rançoso
fora de validade
Ai Lobo Eterno Lobo
não passas de um lobinho
um fôfo cachorrinho
a brincar sem idade.
Olá DR., o melhor presente que podemos oferecer a um amigo é escrever sobre ele, todas as recordações, é quase como dar-lhe vida, recordá-lo, deixar para os outros lerem...
Antigamente o largo era o centro do mundo. Se eles tivessem um largo qual seria? Neste caso um largo de "não muito bons costumes". O Campo das Cebolas, não, não tem nada, tem a Casa dos Bicos mas já estava apalavrada para o Saramago, O Campo Santana também não, embora pudessem ser os mártires da pátria, porque já basta o Miguel Bombarda durante o dia; a Praça José Fontana, já bastou o liceu. Ali de volta: o Cais do Sodré é demasiado óbvio, o Rossio demasiado nu, a praça da Figueira e o Martim Moniz, de passagem, a Praça do Município, muito formal, ainda se lá estivesse o divertido Santana, adoptava-se, passava a ser ele o mascote; o Terreiro do Paço faz muito eco, não é o mais indicado para a intimidade nem intimidades. Resta o largo dum santo, ferrenho, para assistir á “heresia” no seu melhor, coitado. Mas uma heresia muito mais saudável que a mais elaborada genuflexão de qualquer pseudo-cristão. Porque ali estavam 3 amigos, de alma desfraldada, em júbilo de se terem. Nem pela mão do pai e da mãe o petiz se sentiria mais seguro e alegre; com aqueles dois, tão poderosos no Cais do Sodré como na recepção mais pomposa que lhes pudessem dedicar a que nunca assistiriam nem mortos. Último estado em que se pode imaginá-los. Férreos, regurgitantes de Vida, sempre, como numa nuvem ainda às 4 e meia da manhã, Rua dos Bacalhoeiros fora, de regresso ao fado, do Lar, à fada, gnominhos ou nada, enfado! O último abraço. Antes de apanhar o barco para a outra margem, a deles, de Os Marginais