Aquilo que os portugueses têm à cintura já não é um cinto há algum tempo: é um garrote.
É irónico que os problemas económicos possam ser responsáveis pelas maiores desigualdades sociais mas que a economia, enquanto ciência, seja tão igualitária. Alguns dos maiores especialistas em economia previram tanto como eu o aparecimento da crise. A economia tem essa característica fascinante: por muito que alguém se dedique a estudá-la, aparentemente continua a ser um leigo. Um grande administrador tem tanta dificuldade em evitar a calamitosa falência de um banco como um merceeiro versado apenas em contas de somar. Por isso, é com a consciência invulgarmente tranquila que me dedico à análise económica: na pior das hipóteses, os meus comentários farão tão pouco sentido como os de um professor de economia.
Quando o governo propôs o Programa de Estabilidade e Crescimento, a minha primeira impressão foi a de que o PEC tinha um E a mais. Duvido de que a nossa economia precise da ajuda de um programa para estabilizar, uma vez que se encontra estável (no sentido em que um paciente em estado comatoso se mantém estável) há muitos anos. As críticas de alguma oposição parecem-me ainda menos pertinentes. É falso que o Programa de Estabilidade e Crescimento obrigue uma parte significativa dos portugueses a apertar o cinto. E é falso sobretudo na medida em que aquilo que os portugueses têm à cintura já não é um cinto há algum tempo: é um garrote. O que vai ser preciso apertar agora é o garrote.
O grande raciocínio que sustenta a actual estratégia económica é importado da caça: o importante é não afugentar. Não convém taxar os lucros dos bancos e das grandes empresas para não afugentar o investimento. É desaconselhável taxar as transacções da bolsa para não afugentar o capital. Quem sobra? Os trabalhadores - que, além de serem muitos, são gente que não se deixa afugentar, porque precisa mesmo do emprego. Um trabalhador por conta de outrem trabalha, na verdade, por conta de dois, digamos, outrens: por conta do empregador e por conta do Estado. São os trabalhadores, e não as empresas e os bancos, os grandes "criadores de riqueza". Criam a riqueza dos patrões e a do Estado, que depois toma essa parte da riqueza e a devolve às empresas e aos bancos, sob a forma de nacionalização do que der prejuízo e privatização do que der lucro. Nota-se muito que estou a assobiar a Internacional enquanto escrevo isto?
A política fiscal é igualmente clara: as pessoas que ganham menos do que eu pagam menos impostos do que eu; a generalidade das que ganham mais também paga menos impostos do que eu. O governo alega que irá aumentar a taxa de impostos a quem ganha mais de 150 mil euros por ano, o que seria uma excelente medida, mas não é exactamente verdadeiro. O governo vai aumentar a taxa de impostos a quem declara mais de 150 mil euros por ano, o que é ligeiramente diferente. Não há assim tantos contribuintes nessas condições.
Resta a consolação de constatar que o congelamento dos salários dos funcionários públicos não é uma medida assim tão áspera. Os salários, a bem dizer, têm estado no frigorífico. Não vão propriamente sofrer um choque térmico.
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4:51 Quinta-feira, 11 de Mar de 2010
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O objectivo é descobrir se o primeiro-ministro mentiu ao parlamento chamando o primeiro-ministro ao parlamento
Mesmo não sendo espectador habitual de novelas, tenho acompanhado com muito interesse esta última novela da TVI. Sei reconhecer que a novela tem, como é costume, demasiados episódios, que a história se arrasta durante meses sem que a narrativa progrida verdadeiramente, que o vilão está envolvido numa quantidade tão grande de falcatruas que tornam o enredo inverosímil. Mas é, apesar de tudo, uma novela bastante peculiar. Será que o Governo esteve envolvido no negócio da compra da TVI? É esta a questão que tem apaixonado os portugueses à hora do jantar. É natural que, tendo em conta as suas audiências, as novelas passem a ser exibidas cada vez mais cedo, e esta costuma ser transmitida no horário mais nobre de todos: o horário do telejornal.
Sobre os protagonistas, é forçoso dizer-se que o primeiro-ministro faz um papelão. Ainda ninguém percebeu se ele estava a mentir quando disse desconhecer o negócio, o que é bem revelador do seu talento para a representação. O seu irmão gémeo, Pedro Silva Pereira, também tem estado muito bem. Não se trata de um enredo clássico de gémeo bom e gémeo mau: estes gémeos são exactamente iguais no temperamento, ambos irascíveis e maquiavélicos. Às vezes, só é possível distingui-los pela cor das gravatas.
Como acontece em todas as novelas, há alturas em que o interesse do público é maior, outras em que é menor. Mas, na última semana de exibição, as audiências dispararam para os valores mais altos de sempre. O problema desta novela da TVI é que é quase impossível prever quando será a última semana, ou até se virá a haver uma última semana. Normalmente, este tipo de novelas dura indefinidamente, até que o aparecimento de uma nova novela faz com que se deixe de falar nelas.
Concentremo-nos, então, no presente, altura em que, aparentemente, a história vai conhecer novos desenvolvimentos. A oposição prepara-se para propor uma comissão de inquérito parlamentar. O objectivo é descobrir se o primeiro-ministro mentiu ao Parlamento chamando o primeiro-ministro ao Parlamento. Suponho que haverá comissões de inquérito posteriores, para averiguar se o primeiro-ministro mentiu ao Parlamento sobre ter mentido ao Parlamento. E assim sucessivamente. As comissões de inquérito, constituindo embora um recurso narrativo pouco original, costumam redundar em espectáculos divertidos. Funcionam como uma espécie de comic relief da acção principal. Normalmente, toda a gente está lá a rir. Há dias, pelo que foi dito, andava por uma dessas comissões um palhaço. Prevejo uma subida nas audiências.
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12:28 Quinta-feira, 4 de Mar de 2010
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A acumulação de casos políticos trouxe consigo uma previsível acumulação de comentadores políticos. Qual delas é mais perniciosa para o País? É difícil dizer
Em primeiro lugar, dizer que estamos perante uma nova moda linguística. Qual? Antes de mais, manifestar perplexidade pela falta de perspicácia do leitor. Há um novo modelo de expressão, divulgado sobretudo por comentadores televisivos, mas que, como tudo o que é bom, tem vindo a extravasar as fronteiras da televisão e a enraizar-se nos hábitos do cidadão comum. Se há coisa que o cidadão comum aprecia é a apropriação de chavões do discurso de profissionais da televisão, com destaque óbvio para os jornalistas desportivos. O cidadão comum está frequentemente em casa, munido de um bloco de apontamentos e uma caneta, a recolher uma vasta quantidade de "tudo fizemos", de "quando assim é", e de "apenas e só".
Começar frases com o verbo no infinitivo é uma moda recente mas pujante. Em pouco tempo, superiorizou-se a outras modas, também populares, como a que impõe que nenhum relato possa principiar sem a expressão "então é assim". E o sucesso da nova moda é tanto mais surpreendente quanto a sua origem: o mundo, frequentemente aborrecido, da análise política. A acumulação de casos políticos trouxe consigo uma previsível acumulação de comentadores políticos. Qual delas é mais perniciosa para o País? É difícil dizer. Mas é extraordinariamente simbólico que, por causa da crise, várias pessoas tenham sofrido: as pessoas que constituem aquilo a que antigamente se chamava o povo vivem pior, mas as pessoas do singular e as pessoas do plural também passam por dificuldades. Nunca mais se ouviu falar delas. A primeira pessoa do singular nunca mais falou. O comentador político do passado, que falava na primeira pessoa, deu lugar ao comentador moderno, que inicia raciocínios a dizer "dizer". Em primeiro lugar, dizer que a situação é complexa. Depois, dizer que o segredo de justiça tem sido vilipendiado. Para terminar, dizer que o procurador-geral tem estado tíbio. É, no fundo, o comentador-Tarzan. Mim dizer, tu ouvir. Trata-se de uma estratégia linguística que reduz ao mínimo as conjugações verbais. Para fazer comentário político, ninguém precisa de saber conjugar um verbo, o que acaba por ser democrático. Pela minha parte, aprecio qualquer observação política que faça ainda mais sentido se lhe acrescentarmos, no início, a expressão "grande chefe índio". Grande chefe índio dizer que a situação é complexa. Grande chefe índio dizer que o procurador-geral tem estado tíbio. Parece mesmo que vivemos no faroeste. Ora aqui está como a forma de expressão pode produzir conteúdo.
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3:54 Quinta-feira, 25 de Fev de 2010
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Portugal tem um governo que não se demite mas acha que a oposição devia demiti-lo, e uma oposição que não o demite mas acha que ele devia demitir-se
Quando, na semana passada, o PS desafiou a oposição a apresentar uma moção de censura ao Governo, a política portuguesa ficou subitamente mais difícil de compreender. Os nossos políticos, que são pessoas bastante lineares, curiosamente produzem uma política muito complexa. Resumindo, o que se passa é isto: neste momento, Portugal tem um Governo que não se demite mas acha que a oposição devia demiti-lo, e uma oposição que não o demite mas acha que ele devia demitir-se. O primeiro-ministro deseja controlar os jornais, mas não consegue evitar que os jornais o descontrolem. E acusa os jornalistas de fazerem jornalismo de buraco de fechadura quando a porta está, na verdade, escancarada.
Façamos uma história breve do que tem sido o Governo de Portugal nos últimos anos. Primeiro, Durão Barroso saiu, porque foi chamado pela Comissão Europeia. Sócrates não sai mesmo que lhe chamem tudo. Pelo meio, Santana também saiu, mas contra a sua vontade. Um sai porque quer, o outro sai sem querer e o último não sai nem que toda a gente queira. Antes de Durão, já Guterres saíra, porque tinha coisas combinadas e o Governo do País atrapalhava-lhe a agenda. Dos últimos quatro primeiros-ministros, só 50% quis manter-se no lugar, facto que imediatamente os torna suspeitos.
O actual Governo está mergulhado em escândalos de vários tipos. Quem pode fazê-lo cair é o grupo parlamentar do PSD onde se encontra, por exemplo, António Preto, mergulhado em escândalos de vários tipos. Ou o Presidente da República, Cavaco Silva, cujos amigos e membros dos seus anteriores governos se encontram envolvidos em escândalos de vários tipos. O eleitor está em casa um pouco confuso, e com razão: é difícil optar entre tantos escândalos. Qual dos envolvidos em escândalos é o mais indicado para livrar o País destes escândalos? Eis uma questão difícil.
Bom, sou capaz de me ter deixado levar pelo ambiente de suspeição que temos vivido. Vistas friamente, as acusações ao primeiro-ministro acabam por ser frágeis. É difícil sustentar que Sócrates quer acabar com a comunicação social quando verificamos que foi ele quem mais fez, nos últimos tempos, pela leitura de jornais. Para sermos justos, teremos de reconhecer que Sócrates acabou com os jornais, sim, mas nas bancas. Acabou com eles porque, por sua causa, a edição esgotou-se e teve de se fazer outra.
Quem, no meio de tudo isto, poderá conduzir o País? Quem nunca esteve envolvido num caso obscuro, nunca teve cargos de responsabilidade em governos desastrosos, nunca recebeu dinheiro de Manuel Godinho? É possível que exista alguém que corresponda a este perfil, mas terá certamente menos de 10 anos. E colocar um menor de 10 anos no Governo do País poderá ter consequências trágicas: o País ficaria de certeza sem rumo, com o desemprego elevadíssimo, e manietado por uma crise profunda. Nem quero imaginar o que poderia acontecer.
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3:24 Quinta-feira, 18 de Fev de 2010
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Quando o primeiro-ministro Cavaco Silva disse que dedicava apenas cinco minutos por dia aos jornais, houve indignação. Agora, há saudade
É uma questão que tem sido colocada várias vezes: a internet vai acabar com os jornais? Finalmente, temos a resposta: só se José Sócrates não acabar com eles primeiro. O primeiro-ministro tentou controlar o défice e não conseguiu, tentou controlar o desemprego e não conseguiu, tentou controlar a comunicação social e esteve perto de conseguir. Acaba por ser justo que o plano tenha falhado. Era o que faltava que Sócrates fosse eficaz no que lhe interessa e ineficaz no que interessa ao País. Este caso tem essa dimensão muito reconfortante: ora até que enfim que o primeiro-ministro sofre com a inabilidade política do primeiro-ministro. Apesar disso, todos gostaríamos que José Sócrates colocasse nos assuntos do Estado o mesmo empenho que coloca nos seus assuntos. Que, em vez de Mário Crespo, o desemprego fosse um problema que teria de ser solucionado. Que, em lugar de uma operação financeira para adquirir a TVI, se empenhasse numa operação financeira para reduzir o défice. Talvez falhasse na mesma, mas ficaríamos com a sensação de que teria feito um esforço maior.
Quando o primeiro-ministro Cavaco Silva disse que dedicava apenas cinco minutos por dia aos jornais, houve indignação. Agora, há saudade. Quem nos dera que o actual primeiro-ministro gastasse apenas cinco minutos do seu dia a pensar nos jornais. Pelo contrário, parece estar interessado em fazer com que bastem cinco minutos para os ler todos: ou porque os jornalistas, a contas com processos judiciais interpostos por ele, não têm tempo para escrever mais que duas ou três páginas, ou porque os que sobram fora dos tribunais escrevem todos o mesmo. Algo de muito grave se passa quando o País suspira pela liberdade de imprensa dos tempos de Cavaco Silva.
Neste momento, Portugal tem um primeiro-ministro que mais depressa se demite por causa das finanças regionais do que por causa da liberdade de imprensa. Trata-se de um homem que quer ser primeiro-ministro para mandar na TVI. Mais do que a ofensa à democracia e à liberdade, o que não se lhe perdoa é a falta de gosto. E um insuportável centralismo: um homem que recebe do povo o poder de governar o País inteiro, mas que deseja sobretudo mandar em Queluz. O mandato que lhe deram nas eleições é manifestamente exagerado.
Apesar de tudo, Sócrates tem uma virtude inestimável: conseguiu fazer despertar um amor pela liberdade de expressão em quem nunca mostrou que lhe tivesse sequer amizade. É bonito que o espírito antidemocrático seja um veículo de democratização. Confuso, mas bonito.
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2:00 Quinta-feira, 11 de Fev de 2010
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Porque razão abandonaram os vampiros a Transilvânia? Por uma razão artística muito forte: porque vendem
Ao que parece, alguém se enganou com o seu ar sisudo e lhes franqueou as portas à chegada: os vampiros estão em todo o lado. Na literatura, no cinema, na televisão, aparecem vampiros a toda a hora. Saiu uma antologia portuguesa de contos com vampiros, há filmes e livros estrangeiros cheios de vampiros, e quase todos os programas de televisão incluem um vampiro: nas telenovelas, lá está um vampiro; nas séries juvenis, lá está um vampiro; nas conferências de imprensa do ministro das Finanças, lá está um vampiro.
Por que razão abandonaram os vampiros a Transilvânia e vieram povoar o resto do mundo? Por uma razão artística muito forte: porque vendem. Aparentemente, o público do início do século XXI tem um interesse sem precedentes pelos vampiros - o que, diga-se, não é fácil de perceber. Os vampiros são um monstro que não inspira particular terror. São, no fundo, um monstro totó. Gostam de sangue, mas isso também os apreciadores de cabidela, e eu não tenho medo deles. Não podem apanhar sol, como as crianças que têm a pele leitosa. Têm medo de alhos, que é das fobias mais maricas que uma pessoa pode ter. E morrem se lhes espetarem uma estaca de madeira no coração. Olha que idiossincrasia tão gira. Ao contrário do que acontece com o resto de nós, os vampiros não duram muito se lhes empalarem o coração. De resto, é um facto que desejam morder-nos o pescoço, o que não deve ser agradável. Mas, se o conseguirem, transformam-nos em vampiros imortais. Que transtorno tão grande. Um monstro que, se não tivermos cuidado, nos dá a vida eterna. Há religiões que, a troco de muito dinheiro, não oferecem metade. Por mim, não me importo de ficar com os caninos um pouco maiores se é esse o preço a pagar para viver para sempre. Nem precisam de me prometer a eternidade: perante a perspectiva da morte, até aceito ficar com a dentição da Teresa Guilherme se me derem mais duas semanas de vida.
O mais surpreendente nestes vampiros modernos é o modo como a adaptação aos tempos actuais os tornou ainda menos assustadores. Apaixonam-se com muita facilidade por raparigas humanas, o que lhes agrava as olheiras. Desenvolveram uma ética que não lhes permite fincar o dente em qualquer pescoço para saciar a fome. São monstros certinhos, que querem comportar-se como deve ser para terem uma vida social igual à das outras pessoas. São uma espécie de diabético que, em vez de tomar a injecção de insulina de vez em quando, toma um sucedâneo de sangue. Não são monstros, são pessoas doentes que querem fazer uma vida normal. É aborrecido. Os vampiros da minha infância andariam por aí a morder pescoços indiscriminadamente. A estes, só lhes falta que a ASAE apareça a proibi-los de sugar artérias em restaurantes. Bananas.
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2:43 Quinta-feira, 4 de Fev de 2010
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Aquele "A" da gripe A é aparentado com aquele que os espectadores de jogos de futebol soltam quando a bola bate no poste: ah! Pensei que era golo... Com a gripe sucedeu o mesmo. Gripe ah!, já me foram ao bolso
Divisas provenientes de todo o mundo entraram nas contas bancárias das farmacêuticas por causa da gripe A. O dinheiro, sabemo-lo bem, é contagioso. Sobretudo quando é muito, multiplica-se depressa. Significa isto que, embora de um modo ligeiramente inesperado, cumpriram-se as previsões da Organização Mundial de Saúde: acabou por haver pandemia, mas de moedas e notas. E infectaram, sobretudo, os bolsos das farmacêuticas. Haja quem tenha a caridade de nos livrar deste tipo de infecção.
Mas quem diria. Milhares de páginas de jornal a alertar para os perigos da gripe, horas de debates sobre a dimensão da pandemia, panfletos da Direcção-Geral de Saúde a ensinar os portugueses a lavarem as mãos e, segundo se diz agora (designadamente, em milhares de páginas de jornal), a pandemia foi o maior escândalo médico do século. Nada disto teria sido possível sem as reportagens e os debates. Mesmo as instruções sobre lavagem de mãos foram essenciais neste processo, para que o nosso dinheiro passasse para as mãos das farmacêuticas irrepreensivelmente limpo. Se as notas continuassem a ser manuseadas pelas nossas mãos sujas, talvez as farmacêuticas não as quisessem.
Do ponto de vista médico, a gripe A foi uma digna sucessora de outras pandemias que, sendo muito perigosas nos jornais, foram inofensivas, ou quase, na vida real. Depois da doença das vacas loucas e da gripe das aves, a gripe suína também cumpriu o seu destino: como pandemia foi fraca, mas como negócio foi um achado. Aquele "A" da gripe A é aparentado com aquele que os espectadores de jogos de futebol soltam quando a bola bate no poste: ah! Pensei que era golo... Com a gripe sucedeu o mesmo. Gripe ah! Pensei que era mais perigosa. Por outro lado, também se parece com o ah! dos burlados. Gripe ah!, já me foram ao bolso. Eu conheço pessoalmente mais sócios do Sporting do que gente infectada pelo vírus da gripe A, o que demonstra bem o falhanço da disseminação da doença. Se um grupo tão reduzido consegue, ainda assim, ser mais numeroso, dificilmente poderemos chamar pandemia àquilo que aconteceu. Ainda assim, esperemos que as pandemias continuem a fazer-nos pior ao bolso do que à saúde. Antes na farmácia que no cangalheiro, como diz o José Mário Branco na célebre canção chamada OMS. Ou FMI. É mais ou menos a mesma coisa. Se se fala num ou noutro, o melhor é guardar a carteira.
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5:57 Quinta-feira, 28 de Jan de 2010
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A explicação de Fernando Lima é como o computador de Cavaco: tem vulnerabilidades
Três meses depois de ter sido afastado da Casa Civil do Presidente da República por causa do seu envolvimento no chamado caso das escutas, e dois meses depois da sua reintegração na Casa Civil do Presidente da República sem que tivesse havido novidades a propósito do seu envolvimento no chamado caso das escutas, Fernando Lima veio a público explicar o seu envolvimento no chamado caso das escutas dizendo que, tendo embora estado envolvido no chamado caso das escutas, na verdade não teve nada a ver com ele. Ora até que enfim, um esclarecimento claro e cabal sobre este estranho processo.
Primeiro, recorde-se, Fernando Lima tinha arranjado sarilhos falando a um jornal. Agora, quis esclarecer tudo escrevendo para um jornal. Não pode dizer-se que tenha aprendido a lição. Sobretudo porque a explicação de Lima é como o computador de Cavaco: tem vulnerabilidades. O ex-assessor de Cavaco e actual assessor de Cavaco diz que o caso foi empolado pelos jornais a partir de um desabafo vago e inofensivo. "Como é que elementos do PS", terá perguntado Lima inocentemente, "sabem o que faz cada um na vida privada? Andam a vigiar os assessores, quem sabe através de escutas instaladas na residência oficial do Presidente, na sequência aliás de um caso em que, ao que suspeitamos todos aqui na Casa Civil, um assessor do governo foi espiar o Presidente para a Madeira?" A partir destas simples declarações, os jornalistas, com a capacidade de efabulação que se lhes conhece, conseguiram supor que o assessor da presidência desconfiava da existência de escutas na residência oficial do Presidente, e acreditava num caso anterior de espionagem do governo a Cavaco Silva. Tudo não passou, portanto, de uma fantasia inventada pela imprensa. Para Fernando Lima, o Público esteve mal em todo este processo. O DN, revelando o modo como o Público esteve mal, esteve ainda pior. E o Expresso, que agora publicou o esclarecimento de Lima, não perde pela demora. É óbvio que também não se terá portado bem.
Em resumo, a Presidência nunca teve suspeitas gravíssimas de estar a ser vigiada, mas à cautela o Presidente mandou examinar as suas comunicações. A hipótese de vigilância aos assessores de Cavaco não passou de um desabafo que não era para ser tomado à letra, mas de facto o computador do Presidente tinha vulnerabilidades. Falar no caso na altura foi um modo de desviar as atenções dos problemas graves que o país atravessava, mas falar no assunto agora é apropriado, até porque o país já se livrou dos problemas graves que atravessava. Estava a ver que nunca mais se esclarecia isto.
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5:54 Quinta-feira, 21 de Jan de 2010
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O país está numa situação delicada. Todos devemos contribuir com propostas
No ano em que se comemora o centenário da República, o Partido Popular Monárquico quer propor um referendo para saber se os portugueses preferem a monarquia. É um bocadinho como ir a um congresso de vegetarianos perguntar se alguém quer uma posta mirandesa, mas os 15 090 votos que o partido obteve nas últimas eleições legislativas terão feito germinar nos seus dirigentes a forte suspeita de que há uma grande vaga de fundo na sociedade portuguesa a favor da causa monárquica. É natural, são números que impressionam. Os monárquicos dizem que nunca ninguém perguntou aos portugueses se queriam viver num regime republicano, pelo que faz sentido referendar a questão - até por razões de equidade relativamente àquele referendo, em 1143, no qual os portugueses foram chamados a dizer se queriam viver 750 anos num regime monárquico.
Por mim, apoio o referendo. Sendo republicano, tenho admiração pelos monárquicos. Gente que não quer uma figura decorativa eleita por todos e exige uma figura ainda mais decorativa que recebe o cargo de herança. A diferença é tão subtil que é forçoso admirar quem se bate por ela. Além do mais, a monarquia é o regime ideal para todos os que já perceberam que Portugal não irá a lado nenhum enquanto for dirigido por portugueses. Nesse aspecto, a monarquia, no seu fulgurante antipatriotismo, é mais lúcida: a família real inglesa é de origem alemã e dinamarquesa, o príncipe espanhol tem ascendência grega. É muito raro que o rei de determinado país seja aquilo a que se pode chamar um natural desse país. Seria a nossa esperança, se o rei mandasse alguma coisa.
Conseguirá o PPM convocar o referendo? Infelizmente, é pouco provável. É curioso que um partido que se chama "popular" tenha uma falta de popularidade tão grande. Os 0,27% de votos que obteve ficaram muito longe de partidos como o PS ou o PSD, mas também bastante distantes dos votos nulos, com 1,37%, e dos votos brancos, com 1,74%. Há seis vezes mais portugueses que preferem não votar em ninguém do que eleitores do partido monárquico. Mesmo admitindo que o programa político dos votos brancos faz mais sentido, ainda assim é uma diferença muito grande.
Há que admirar, acima de tudo, o esforço dos monárquicos. O país está numa situação delicada, a crise agrava-se, o desemprego sobe, o endividamento aumenta. Todos devemos contribuir com propostas. Há quem defenda que o país precisa de mais investimento público, quem pense que o país precisa de uma política mais austera. Os monárquicos acham que o país precisa de D. Duarte. São opiniões. Creio, por isso, que esta proposta do referendo é o maior contributo do PPM para a política portuguesa desde o comunicado que o partido emitiu logo após a morte de Sousa Franco, na campanha eleitoral das eleições europeias de 2004. Era um comunicado que dizia, e cito: "Não queremos nem devemos dramatizar, nem tão-pouco fazer do Professor um mártir, mas a verdade é que o Professor também deveria fazer parte das pessoas que não cuidava da sua saúde. Provavelmente, não media a tensão há muito tempo. A sua morte já estava prevista." E concluía: "Ao mesmo tempo, estamos certos, esta foi a melhor e a mais eficiente forma de o Professor dizer basta desta politiquice e dos politiqueiros que a alimentam." Talvez um dia Portugal volte a ser uma monarquia. Mas espero sinceramente que isso aconteça apenas muito depois de eu já ter dito basta desta politiquice.
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5:04 Quinta-feira, 14 de Jan de 2010
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Os outros povos curam a ressaca do fim de ano com café e sono, nós curamos com a mensagem de Cavaco Silva
Quem diz que o fim de ano é deprimente, em geral refere-se apenas àquela alegria artificial que começa na primeira badalada e termina logo na décima segunda, altura em que somos confrontados com a dura realidade de estarmos a soprar numa língua da sogra sem qualquer razão válida - isto supondo que há momentos que proporcionam razões válidas para se soprar numa língua da sogra. Julgo, no entanto, que seria injusto deixar de reconhecer que o fim de ano não é só a deprimente cerimónia da meia-noite. É também a deprimente mensagem de ano novo do Presidente da República. Seja qual for o Presidente que, nesse momento, ocupa o Palácio de Belém, é a ele que cabe a desagradável função de nos recordar que, muito embora estejamos a entrar num novo ano, num novo começo de possibilidades ilimitadas - isto continua a ser Portugal. Os outros povos curam a ressaca do fim de ano com café e sono, nós curamos com a mensagem de Cavaco Silva. Não há nada como recordar que estamos endividados, desempregados e na cauda da Europa para espantar uma embriaguez. Cavaco é o Guronsan de Portugal.
Dito isto, há que moderar o entusiasmo relativamente à mensagem de ano novo do Presidente da República. O melhor, aliás, e tendo em conta o que o futuro nos reserva, é moderar o entusiasmo relativamente a tudo. E o discurso de Cavaco Silva, ao mesmo tempo que apela ao bom-senso, parece excessivamente confiante nas suas próprias virtudes. Diz o Presidente, por exemplo, que tem "a obrigação de alertar os portugueses para a situação difícil em que o País se encontra". Não se trata exactamente de alertar, pois não? Uns portugueses já tinham sido alertados pela nota de despedimento, outros pela execução da hipoteca. Não desfazendo em Cavaco, o desemprego e as dificuldades financeiras são ligeiramente mais eloquentes do que um alerta de ano novo.
Por outro lado, o Presidente tem razão quando diz que "os portugueses compreenderiam mal que os diversos líderes políticos não se concentrassem na resolução dos problemas das pessoas". Imagine o leitor que determinado político, em lugar de se concentrar na resolução dos problemas das pessoas, se entretinha a promover uma intriga de espionagem, com a colocação de notícias nos jornais, entradas e saídas de assessores em cargos da Casa Civil e perturbação do resultado das eleições. Que diriam desse político os portugueses? Não sei bem. Mas não é muito provável que quisessem dar-lhe ouvidos no dia de ano novo.
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7:18 Quinta-feira, 7 de Jan de 2010
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