Cavaco é apenas mais um daqueles reformados queixosos que lamenta o baixo valor da sua pensão. Onde está a novidade disto? O admirável esforço de contenção de Cavaco, que limitou os lamentos à pensão, e não os estendeu às varizes e ao colesterol, não foi valorizado
No âmbito das comemorações do primeiro aniversário do seu segundo mandato, o Presidente da República resolveu proferir declarações adequadamente festivas. Raras vezes terá Cavaco exercido as suas funções com tanta eficácia: um dos deveres do Presidente é unir o povo português, e Cavaco conseguiu-o. O povo está unido. Unido contra ele, mas unido. Portugueses do Norte e do Sul, do Litoral e do Interior, de esquerda e de direita, do Benfica e do Porto - todos dão as mãos e concluem que há um ponto no qual concordam: Cavaco está a brincar com eles.
Os presidentes costumam mudar de comportamento após a reeleição. Depois de um primeiro mandato discreto, aproveitam o segundo para adoptar uma atitude mais hostil ao Governo. No entanto, Cavaco é inovador, na medida em que prefere hostilizar o povo.
A culpa é do povo, que se deixa hostilizar por ninharias. Num país em que Américo Amorim não é rico, é natural que o Presidente da República não ganhe para as despesas. E Cavaco é apenas mais um daqueles reformados queixosos que lamenta o baixo valor da sua pensão. Onde está a novidade disto? Muita sorte temos nós. Este tipo de idoso costuma passar das queixas sobre a reforma para outro género de lamúrias. O admirável esforço de contenção de Cavaco, que limitou os lamentos à pensão, e não os estendeu às varizes e ao colesterol, não foi valorizado. Este povo, que se melindra por tudo e por nada, merecia uma conferência de imprensa em que o Presidente puxasse de uma receita médica e lastimasse o alto preço dos remédios contra a arteriosclerose. Ou um comunicado à Lusa, protestando contra a alteração de horários da novela. Ou uma intervenção, nos telejornais, acerca da falta de condições para o dominó, no Jardim da Estrela. Cavaco tem reduzido esta espécie de magistratura geriátrica à contemplação embevecida de vaquinhas e às queixas sobre a pensão. Ainda assim, o povo reclama.
A única coisa a fazer é mudar a lei que determina que são elegíveis para o cargo de Presidente os cidadãos portugueses com mais de 35 anos. É melhor restringir o leque: só devem poder candidatar-se a Presidente os portugueses maiores de 35 e menores de 40. Quem ainda não é reformado não pode queixar-se da reforma. E as características próprias da meia-idade fazem com que o cidadão eleito exerça a Presidência com mais estilo: um carro oficial descapotável e uma primeira-dama de 20 anos podem muito bem constituir a animação de que o povo precisa.
Assim como D. João II teve no Infante D. Henrique um antecessor visionário, também o Álvaro se apresenta às cavalitas de um gigante: Paulo Futre. A exportação de pastéis de nata é o equivalente político da importação de chineses
Quando o ministro Álvaro apontou para o pastel de nata, os parvos olharam mesmo para o pastel de nata. Era dos raros casos em que deveriam ter olhado para o dedo. Teriam constatado que se trata do mesmo dedo com que D. João II apontou para a Índia. Um disse "Oriente" e o outro disse "pastel de nata", mas ambos quiseram dizer "futuro". Neste momento, é óbvio que a aventura dos Descobrimentos teve, como propósito principal (para não dizer exclusivo), o de ir à Índia buscar a canela que hoje faz falta para polvilhar os pastéis de nata. Entre o Príncipe Perfeito e o Álvaro há apenas uma diferença: o segundo não tem um Camões que verta em decassílabos heróicos a gesta da pastelaria.
Assim como D. João II teve no Infante D. Henrique um antecessor visionário, também o Álvaro se apresenta às cavalitas de um gigante: Paulo Futre. A exportação de pastéis de nata é o equivalente político da importação de chineses - que foi também, note-se, um projecto de crescimento dirigido para Oriente.
Examinemos a ideia do Álvaro com a atenção que merece. Se cada pastel de nata for vendido ao preço competitivo de um euro, e supondo que alguém nos oferece todos os ingredientes, basta que Portugal venda 78 mil milhões de pastéis de nata para pagar a dívida. Sabendo que o mundo conta, neste momento, com 7 mil milhões de potenciais consumidores de pastéis de nata, a venda de 11,1 pastéis a cada habitante resolve-nos o problema. Não chega a dois cartuchos por pessoa, e ainda por cima é por uma boa causa. Se, com os 11,1 pastéis, impingirmos uma bica a cada cliente, ainda nos sobra dinheiro para acabar umas obras que estão paradas por falta de verba na Madeira.
Os críticos que pretenderam reduzir a ideia do Álvaro aos seus aspectos mais folclóricos não perceberam, ou não quiseram perceber, que o projecto não pode ser confinado à exportação dos pastéis, mas deve ser integrado numa estratégia de desenvolvimento global. A produção e venda de 78 mil milhões de pastéis fará de Portugal o maior produtor mundial de colesterol. Um investimento paralelo em medicina cardiovascular poderá projectar internacionalmente a ciência portuguesa e contribuir para manter relações comerciais múltiplas com a estrangeirada lambona, que passa a frequentar-nos tanto a pastelaria como o consultório médico. Mãos à nata.
Apontar "austeridade" como palavra do ano de 2011 é como dar uma martelada acidental num dedo e bradar: "Apre! Magoei um bocadinho a falangeta!"
Uma votação organizada pela Porto Editora determinou que a palavra do ano de 2011 é "austeridade". Parece-me evidente que Eduardo Catroga não participou nesta votação. "Austeridade no bolso dos outros para mim é refresco", como diz o ditado. Ora, sabendo que os cidadãos que participaram na eleição do vocábulo do ano não foram nomeados para um cargo na EDP que remunera 639 mil euros por ano, confesso alguma desilusão com a escolha. Tendo em conta o que 2011 foi e o que se adivinha que 2012 será, esperava que a palavra escolhida fosse recrutada num campo lexical mais, digamos, vernacular. Apontar "austeridade" como palavra do ano de 2011 é como dar uma martelada acidental num dedo e bradar: "Apre! Magoei um bocadinho a falangeta!"
A minha preferência por uma palavra com menos sílabas e mais expressividade não se deve tanto à minha predilecção pelo escândalo, mas sim ao meu amor pela verdade. Escolher uma injúria ou um lamento menos erudito como palavra do ano de 2011 teria sido mais acertado até do ponto de vista filosófico. Nomear é dominar, como sabemos. Dar um nome às coisas é conhecê-las, e o conhecimento é poder. No entanto, chamar austeridade à austeridade não nos serve de nada. Não nos ajuda a conhecê-la nem a dominá-la.
Conhecê-la é difícil, porque ela vai tomando novas qualidades e torna-se mais funda todos os dias. À austeridade da troika acrescentou-se a austeridade do Governo, que achou que a da troika não era suficientemente austera, e troika e Governo já avisaram que vai ser necessário austerizar ainda mais a austeridade, porque nenhuma das austeridades anteriores conseguiu ainda refrear convenientemente a nossa famosa vida à tripa-forra. É uma espécie de bolo de bolacha de austeridade, com várias camadas.
Dominar a austeridade é impossível, porque, em princípio, é ela que nos domina a nós - sem precisar de nos nomear. Numa tentativa esforçada (em mim inédita, e que prometo não tornar a levar a cabo) de tentar perceber melhor o assunto de que me ocupo, consultei o dicionário, e recolhi a totalidade dos significados da palavra eleita como símbolo do ano passado. Entre as definições mais corriqueiras ("qualidade de austero", "disciplina rigorosa", etc.) encontrei uma mais desenvolvida: "cuidado escrupuloso em não se deixar dominar pelo que agrada aos sentidos ou deleita a concupiscência." Eis uma definição que ajuda a compreender a austeridade: os portugueses não devem deixar-se dominar por aquilo que agrada aos sentidos (por exemplo: três refeições diárias), nem pelo que deleita a concupiscência (e sabemos todos quão concupiscente pode ser o desejo de viver em casas com energia eléctrica e água canalizada). Nomear a austeridade não nos permite dominá-la, mas ajuda-nos a saber aquilo que não devemos deixar que nos domine. Já é qualquer coisa.
Os cidadãos do país cujos salários estão entre os mais baixos da Europa e cuja taxa de desemprego é das mais altas, interrogam-se periodicamente acerca dos tempos em que vivem. Serão estes tempos muito fáceis, ou apenas moderadamente fáceis? Por sorte, todos os anos, o Presidente da República revela os resultados da análise exaustiva que fez a Portugal e comunica a todos que, na sua opinião, estes tempos são difíceis
No dia 1 de Janeiro de 2012, Cavaco Silva referiu a "situação difícil em que o país se encontra", expondo em especial as "dificuldades económicas". No dia 1 de Janeiro de 2011, o Presidente tinha notado: "os tempos que atravessamos são de grandes dificuldades". Acrescentou que "seria faltar à verdade afirmar que essas dificuldades vão desaparecer", sublinhando: "é imprescindível que estejamos unidos para enfrentar as dificuldades". E concluiu: "temos capacidade de ultrapassar as dificuldades". No dia 1 de Janeiro de 2010, Cavaco disse: "tenho a obrigação de alertar os Portugueses para a situação difícil em que o País se encontra", e apontou "a difícil situação das nossas contas públicas", terminando com uma referência a uma conjuntura "de grandes dificuldades". No dia 1 de Janeiro de 2009, o Presidente afirmou que era altura de "enfrentar as dificuldades", disse que não esconderia a verdade da nossa "situação difícil", previu que 2009 seria "um ano muito difícil" e concluiu que aquele era "tempo de resistir às dificuldades". No dia 1 de Janeiro de 2008, Cavaco fez notar que a conjuntura internacional era "difícil" e registou as "dificuldades de crescimento da nossa economia". No dia 1 de Janeiro de 2007, começou por dizer que o "quadro internacional" se apresentava "particularmente difícil", e depois lembrou as "dificuldades por que passam alguns". Perante estes factos, devem tirar-se duas conclusões:
1. Portugal vive tempos difíceis, que colocam algumas dificuldades;
2. Cavaco Silva pode ser um robô.
O discurso de ano novo do Presidente tem sido uma oportunidade de ouro para os portugueses distraídos perceberem melhor o seu país. Os cidadãos do país cujos salários estão entre os mais baixos da Europa e cuja taxa de desemprego é das mais altas, interrogam-se periodicamente acerca dos tempos em que vivem. Serão estes tempos muito fáceis, ou apenas moderadamente fáceis? Por sorte, todos os anos, o Presidente da República revela os resultados da análise exaustiva que fez a Portugal e comunica a todos que, na sua opinião, estes tempos são difíceis. E trazem consigo dificuldades. Claro que os cidadãos menos sofisticados protestam que assim também eles fazem previsões, porque é evidente que os tempos estão difíceis uma vez que vivemos em Portugal, e isto está difícil desde 1143. Não reparam que o diagnóstico de Cavaco é mais completo do que isso. Não são apenas tempos difíceis: são tempos difíceis repletos de dificuldades, subtileza que costuma escapar aos analistas. Além disso, mesmo em tempos de crise, Cavaco consegue transmitir uma mensagem de esperança - e de poupança. Numa altura em que se fala tanto de corte de custos, Cavaco sugere, com o seu discurso, que a figura do Presidente pode ser substituída por um gravador. De cinco em cinco anos, os cidadãos votariam na marca de pilhas a colocar no aparelho. E, no primeiro dia de cada ano, a maquineta anunciava dificuldades difíceis, sem cobrar salário nem auferir reforma. E ainda dizem que Cavaco Silva não aponta caminhos e soluções.
Só cientistas sociais muito perspicazes conseguem perceber que Portugal é uma democracia com algumas falhas, e não uma falha com alguma democracia.
De acordo com o relatório da Economist Intelligence Unit, Portugal passou a ser uma democracia com falhas. É um estudo que contribui para tornar o País mais homogéneo: depois de nos terem baixado o rating económico, agora baixam-nos o rating político. É natural, e até certo ponto desejável, que um país que começa por ser lixo financeiro passe a ser também, e o mais depressa possível, lixo democrático.
A qualidade do relatório e a competência dos relatores é manifesta: só cientistas sociais muito perspicazes conseguem perceber que Portugal é uma democracia com algumas falhas, e não uma falha com alguma democracia. Por outro lado, a conclusão do estudo confronta-nos com uma revelação inquietante: uma vez que Portugal passou agora a ser uma democracia com falhas, isso quer dizer que, até aqui, Portugal era uma democracia sem falhas. Claro que, a bem dizer, uma democracia sem falhas não existe, e portanto todas têm falhas. Quando se define um regime como "democracia com falhas", isso significa que começa a haver demasiadas falhas para tão pouca democracia. O que levanta o problema de saber se um regime pode ser relativamente democrático, isto é, se um bocadinho de democracia é democracia. Assim como aderimos mal à ideia de que determinada pessoa possa ser apenas ligeiramente pedófila, ou estar mais ou menos morta, o conceito de democraciazinha também pode causar alguma estranheza.
E, no entanto, é o que temos: soberaniazinha popular que elege um governozinho capaz de tomar decisõezinhas. As decisões propriamente ditas são tomadas por outros, que não perdem tempo a ser eleitos. Há, contudo, uma questão acerca da qual o relatório é pouco claro: nesta gradação entre democracia e autoritarismo, quando é que um regime deixa de ser uma democracia com falhas para passar a ser uma ditadura com falhas? No intervalo que separa a democracia plena da ditadura absoluta, a partir de que quantidade ou qualidade de falhas é que um regime deixa de ser uma democracia com falhas para passar a ser uma ditadura incompetente?
Talvez um bom método seja o de acompanhar o percurso do regime político em questão, para lhe determinar uma trajectória: se se trata de uma ditadura que passou a ter algumas falhas, há a esperança de que esteja a caminhar para vir a ser uma democracia; se, como Portugal, era uma democracia plena e passou a ter algumas falhas... Enfim, é fazer as contas.
Se um almirante sugerir a um grupo de passageiros que se atire borda fora, só para ver se o barco se torna mais fácil de controlar, perde um bocadinho de prestígio. Mas o que é inaceitável noutros ofícios, em política é bom senso
Examinemos os seguintes casos, ocorridos na mesma semana: um comandante da polícia desejou que alguns concidadãos tivessem "relações sexuais incríveis" e perdeu o seu emprego; um primeiro-ministro desejou que alguns concidadãos emigrassem e manteve o seu. Este é um país em que desejar felicidade (ainda por cima através de relações sexuais incríveis, que é a forma mais alta de felicidade) dá despedimento ou, pelo menos, processos disciplinares e outras chatices.
Acabei por não saber ao certo o que aconteceu ao comandante porque tenho andado ocupado a tentar manter relações sexuais incríveis, como é próprio desta época festiva. Mas o facto permanece: desejar felicidades, em Portugal, causa mais engulhos do que desejar transtornos.
Vamos por partes: o comandante da polícia municipal de Coimbra enviou um e-mail de boas festas aos funcionários da autarquia mas, dizem os jornais, enganou-se no anexo. Aqui está o primeiro elemento estranho da história.
O homem não se enganou no anexo, enganou-se no e-mail. O anexo era a única coisa interessante daquela peça de correspondência, uma vez que continha o desejo de "relações sexuais incríveis" e fotografias de senhoras capazes de as proporcionar. João Paulo Barbosa de Melo, presidente da autarquia de Coimbra, instaurou um infame processo disciplinar ao comandante, pretextando que "a mensagem tinha conteúdos que não se coadunavam com o prestígio daquela câmara". Ora, trata-se de uma alegação falsa. Sou um velho apreciador de conteúdos que não se coadunam com prestígios, e o mail do comandante não os exibia. Nenhuma das senhoras está completamente despida e a própria expressão "relações sexuais incríveis " é repugnantemente prestigiosa. Não é o tipo de coisa que se deseje numa linguagem tão pouco vernacular. O desejo está expresso de um modo tão formal que quase tira a vontade de o concretizar, como se o comandante tivesse dito: "Espero que desfrutes de sensações extremamente agradáveis ao nível da genitália." Não diz. No entanto, não é por isso que o pobre polícia está a ser processado, mas sim porque o presidente da Câmara teme que o seu prestígio esteja posto em causa. E ai de quem se interponha entre um autarca e o prestígio.
Por outro lado, o primeiro-ministro também formulou um desejo de Natal: que os professores abandonem a família, os amigos e a sua vida em geral e emigrem.
Ainda assim, não atentou contra o prestígio de qualquer instituição. Se um almirante sugerir a um grupo de passageiros que se atire borda fora, só para ver se o barco se torna mais fácil de controlar, perde um bocadinho de prestígio. Mas o que é inaceitável noutros ofícios, em política é bom senso. Já era conhecida a sugestão que os racistas dão aos estrangeiros: "Vai para a tua terra." Agora, o primeiro-ministro tem uma recomendação para os nativos: "Sai da tua terra." Esta terra, afinal, para quem será?
Primeiro foi D. Carlos, a 1 de Fevereiro de 1908, e agora foi o pórtico da A22, a 12 de Dezembro de 2011. O assassinato político voltou a Portugal
Primeiro foi D. Carlos, a 1 de Fevereiro de 1908, e agora foi o pórtico da A22, a 12 de Dezembro de 2011. O assassinato político voltou a Portugal. Há qualquer coisa no dealbar dos séculos que excita os conspiradores. Quando, no início do século XXII, esta revista estiver a ser lida, na sala de espera dum consultório médico, o leitor futuro que se acautele: alguém ou alguma coisa estará para levar um tiro.
O método dos atentados é semelhante: os regicidas estavam descontentes com a monarquia e mataram o rei; os portagicidas estavam descontentes com as portagens e abateram o pórtico. A única diferença é que o descontentamento dos portagicidas é mais específico, e a raiva mais direccionada. Antes odiava-se uma pessoa, hoje abominam-se equipamentos informáticos e cablagens. Menos mau. Embora dificulte a tarefa de prever o que será objecto de cólera no futuro. Em 1908, as auto-estradas não tinham ainda sido inventadas, e os pórticos de portagem ainda menos. Já havia austeridade, que é a mais velha governação do mundo, e armas de fogo - que, volvidos cem anos, continuam a ser o mais expressivo meio de comunicar uma insatisfação. Os aborrecimentos que mudem à vontade: nós cá estaremos para lhes espetar um balázio. Não podemos imaginar o modo como, no princípio do próximo século, o governo aplicará a lei. Sabemos apenas que haverá medidas de austeridade e que os instrumentos usados para as impor levarão um tiro. Esta capacidade, ainda que parcial, de predizer o futuro, sempre dá algum sossego.
O novo modelo de atentado, dirigido a objectos inanimados, tem apenas um inconveniente: por ser muito menos grave do que os homicídios, e também menos eficaz, tende a ser mais frequente. É possível que, a partir de hoje, quem se insurja contra o aumento do IVA na restauração dê dois tiros na conta do café; que quem se exalte com a meia hora de trabalho adicional dispare sobre o relógio de ponto; que aqueles que se indignam com o corte nos salários fuzilem o recibo do vencimento. Portugal inteiro vai parecer a noite de fim de ano na Madeira: estampidos e cheiro a pólvora. Embora, muito provavelmente, seja mais barato abater a tiro todas as portagens do país do que pagar cinco minutos de fogo-de-artifício na Madeira. E ligeiramente menos criminoso.
Como o idiota-filho desejava ficar preso durante três meses numa casa, tentou fazer com que o idiota-pai ficasse preso durante 30 anos noutra. Édipo matou o pai por causa de uma querela no trânsito; o idiota-filho denunciou o idiota-pai por causa de um programa de televisão. São ambas histórias trágicas, mas a denúncia talvez seja mais cruel uma vez que, não sendo o idiota-pai titular de um cargo público, a confirmar-se a culpa teria mesmo de cumprir pena de prisão.
Ao que dizem todos os jornais menos um, o alegado estripador de Lisboa é, afinal, apenas um alegado idiota. Na escala de abominações, a idiotia aparece muito abaixo da estripação, e por isso o país desinteressou-se rapidamente do caso: os portugueses têm raras oportunidades de conhecer pessoalmente um estripador, mas todos os dias contactam com idiotas. Mais uma vez constato que sou indigno de pertencer a este povo, uma vez que é precisamente agora que o episódio começa a entusiasmar-me. Não tenho muito interesse em estripadores, mas os idiotas exercem sobre mim um fascínio inevitável. Ainda não podemos dizer ao certo quantos idiotas existem no caso do alegado estripador, mas há dois que emergem imediatamente, e são pai e filho. Feliz coincidência ou hereditariedade? Não sabemos. Mas a concentração de idiotia deve ser celebrada, tanto por razões humorísticas como higiénicas: quanto mais circunscrita a uma mesma casa, maior a intensidade (donde, mais humorismo) e menor o risco de contágio (donde, mais higiene).
Antes de tudo, há que admitir que, se é verdade que a justiça em Portugal é fraca, não é menos verdadeiro que os tribunais têm azar. Ou lhes aparece um criminoso que, por muito que as provas o desmintam, nega responsabilidades no crime, ou aparece um palerma que, por muito que as provas o desmintam, reivindica responsabilidades no crime. No fim, em princípio, ficam ambos em liberdade. Pergunto-me sempre como é possível que haja sobrelotação das cadeias num país em que é tão difícil ser preso.
De acordo com a imprensa, o idiota-filho denunciou o pai para poder entrar num reality show. Noutros tempos, os filhos denunciavam os pais à PIDE; hoje, denunciam à TVI. Todo o mundo é composto de mudança, mas os bufos são sempre bufos. Como o idiota-filho desejava ficar preso durante três meses numa casa, tentou fazer com que o idiota-pai ficasse preso durante 30 anos noutra. Édipo matou o pai por causa de uma querela no trânsito; o idiota-filho denunciou o idiota-pai por causa de um programa de televisão. São ambas histórias trágicas, mas a denúncia talvez seja mais cruel uma vez que, não sendo o idiota-pai titular de um cargo público, a confirmar-se a culpa teria mesmo de cumprir pena de prisão.
É interessante referir que, para serem admitidos no programa, os concorrentes têm de revelar à produção alguns segredos. "O meu pai é o estripador de Lisboa" era o segundo segredo da lista do idiota-filho. Os jornais não revelam qual era o primeiro, mas tudo o que fique aquém de "A minha mãe é um senhor de bigode que invadiu a Polónia em 1939" não merece ultrapassar o segundo classificado.
A fruta, agora, traz etiquetas. Eu ainda sou do tempo em que havia apenas dois cuidados a ter com a fruta: lavar ou descascar. Desrotular é uma preocupação contemporânea.
A crise europeia não conseguirá derrotar-nos enquanto formos capazes de não perder de vista o essencial. Não permitamos, amigo leitor, que o aumento dos impostos, o desemprego e o corte dos subsídios nos impeçam de observar os grandes fenómenos sociais e culturais como este: a fruta, agora, traz etiquetas. Eu ainda sou do tempo em que havia apenas dois cuidados a ter com a fruta: lavar ou descascar. Desrotular é uma preocupação contemporânea. "Lavaste essa maçã, Carlinhos?", perguntavam as mães do século XX. "Lavaste e desetiquetaste essa maçã, Carlinhos?", perguntam as mães do século XXI. É mais uma preocupação extra, que as mães de antigamente não tinham. Por outro lado, o fenómeno alargou o mercado de trabalho, gerando as profissões de designer de etiquetas de fruta, fabricante de etiquetas de fruta e etiquetador de fruta.
Um analista incompetente terminaria aqui o seu exame ao fenómeno das etiquetas da fruta. Não é o nosso caso. Há que ir mais além e perceber todas as implicações sociológicas da etiquetagem hortofrutícola. Em primeiro lugar, a colocação de rótulos na fruta criou um facto social que estava por identificar até agora: o snobismo da fruta. Criança que, no recreio da escola, merende uma maçã desprovida de rótulo, passa a ser ostracizada pelos colegas que só consomem fruta de marca. Mesmo no âmbito das frutas de marca, haverá uma hierarquia que distingue as frutas de marcas mais prestigiadas, consumidas pelas crianças mais populares, das frutas de marcas menos boas, consumidas pelas outras.
Em segundo lugar, a rotulagem das frutas atrai um grupo social incómodo: os coleccionadores. Onde houver etiquetas, há coleccionismo. Se o leitor julga que estou a inventar, tem bom remédio: uma fácil e rápida pesquisa na internet revelar-lhe-á vários fóruns de coleccionadores de rótulos de fruta, com indicações úteis acerca do melhor modo de recolher, catalogar e trocar etiquetas, incluindo dicas práticas sobre o furto de etiquetas na zona dos frescos dos supermercados. Há numismatas sem dinheiro para investir em moedas que aplicam os seus conhecimentos em colecções de rótulos de fruta e filatelistas falidos que trocam os selos pelas etiquetas em álbuns que podem ser menos valiosos mas são tratados com o mesmo esmero choninhas.
Em 2011, o sistema financeiro está à beira do colapso e a realidade que conhecemos pode mudar drasticamente. Mas há quem ponha etiquetas na fruta, e quem recolha as etiquetas para as coleccionar. Só não se percebe se isso é um indício de que temos salvação ou mais um sinal de que o mundo está mesmo para acabar.
As altas figuras do Estado português não podem desenvolver relações de amizade, que os tribunais não deixam.
Tenho a certeza de que o leitor já viu a cena: um enviado especial fala com o jornalista que está no estúdio de televisão. De repente, a ligação cai e deixamos de ver e ouvir o enviado especial. Diz o jornalista no estúdio: "Bom, perdemos o contacto com o nosso repórter, mas ficou o essencial." Trata-se de uma burla. Primeiro, porque o jornalista não tem maneira de saber se, por distracção ou incompetência, o repórter não tinha guardado o essencial para o fim. "Ah, é verdade, já me esquecia: de acordo com informações que apurei, daqui a dez segundos vai rebentar um engenho explosivo colocado por terroristas no coração financeiro de Cantanhede." Segundo, porque não costuma haver nada de essencial para noticiar no nosso país. Quando a ligação termina abruptamente, pode ter ficado o pitoresco, pode ter ficado o bizarro, mas é muito raro ter ficado seja o que for de essencial. Terceiro, dizer que ficou o essencial é atribuir poderes mágicos às falhas técnicas, que têm um critério jornalístico apuradíssimo para distinguir o essencial do supérfluo. O que a expressão "ficou o essencial" significa realmente é: "Se não fosse esta falha técnica, teríamos ficado aqui a ouvir o nosso enviado especial a desbobinar pormenores desinteressantes durante alguns minutos, para justificar o facto de se ter dirigido propositadamente àquele local. Felizmente, a emissão caiu e ficámos só com o essencial."
Voltou a acontecer recentemente, quando certo repórter enviava informações para o estúdio a partir de uma das casas de Duarte Lima em que a polícia fazia buscas. A emissão caiu e o jornalista em estúdio enganou-nos outra vez: "Ficou o essencial." Não tinha ficado, claro. Até porque o essencial era saber o modo como o repórter tinha ficado a saber com antecedência que a polícia iria estar, naquele dia e àquela hora, a revistar aquela casa. Ou ainda, saber o que é que o sistema judicial tem contra a amizade: neste momento, decorre o julgamento de alguns amigos do antigo primeiro-ministro; em breve começará o julgamento de alguns amigos do actual Presidente da República. As altas figuras do Estado português não podem desenvolver relações de amizade, que os tribunais não deixam. É muito desagradável. Ser amigo do antigo primeiro-ministro e do actual Presidente da República não dá muita saúde a uma pessoa. Espero que a Judiciária saiba que eu nem sequer votei neles.