Chega (bem) ao fim "A Fórmula da Felicidade", uma das melhores e mais inteligentes BDs nacionais recentes. Arriscava-me a dizer que é um pouco mais do que isso, mas, para já, talvez seja cedo.
16:53 Terça, 20 de Julho de 2010
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O lançamento do primeiro volume de A Fórmula da Felicidade foi um evento importante na BD nacional pela junção rara de qualidades. Um argumento inteligente de Nuno Duarte e um desenho inspirado de Osvaldo Medina, tendo como resultado uma história chamativa com capacidade de chegar a diferentes tipos de públicos. Um livro acessível sem ser simples, inteligente sem ser arrogante ou críptico.
A Fórmula da Felicidade conta a história de Victor, um jovem prodígio solitário que desenvolve uma fómula matemática com o poder estranho de trazer uma sensação de felicidade a quem a ouve. Algo muito útil, muito poderoso; muito vendável. Segue-se o salto do anonimato à fama (com a previsível perda de alma), desaguando eventualmente numa queda e redenção. Um percurso clássico de um herói involuntário, feito diferente através, quer do uso de animais atropomorfizados num excelente trabalho de Medina (evocando Blacksad e Canardo), quer do recurso (muito mais ligeiro no segundo volume) à Matemática.
Seguindo a máxima do grande argumentista de cinema William Goldman, e modificando ligeiramente o percurso mitológico do herói citado por Joseph Campbell, cada filme tem três actos. No primeiro obriga-se o herói a subir a uma árvore (Crise). No segundo atiram-se-lhe pedras (Complicação). No terceiro arranja-se maneira de o fazer descer (Redenção). Não que isso equivala necessariamente a finais delicodoces, afinal de contas Goldman escreveu Butch Cassidy and the Sundance Kid. E qual é a parte mais difícil de escrever? O último acto. Que, em cinema, não deve durar mais de 15 minutos. Portanto, já no início de A Fórmula da Felicidade as dificuldades adivinhavam-se no final. O segundo volume encontra a história em pleno segundo acto, com Victor a deslizar lentamente pela inutilidade do seu próprio estrelato. Ter uma fórmula matemática que induz felicidade não parece trazê-la a ninguém, menos ainda ao protagonista. Ou, por outro, trás imensa felicidade a quem controla e vende cada declamação privada de Victor (uma mistura de leitura de poesia, "performance" e tele-evangelismo), já que, de um modo nada matemático, a fórmula só funciona se for lida pelo seu criador. As angústias de Victor, sendo previsíveis, são igualmente naturais, e ao definir e gerir muito bem várias personagens secundárias coerentes Nuno Duarte e Osvaldo Medina aliviam um pouco do peso sobre o protagonista, sobretudo onde é mais óbvio (a "spigelberguiana" relação com o pai ausente). E à medida que a história se desenvolve inexoravelmente resta apenas resgatar Victor de si mesmo, o final. Considerando a geneaologia clássica de A Fórmula da Felicidade não haverá grandes surpresas, no sentido em que um tipo de final e o seu exacto oposto seriam igualmente possíveis. Mas Nuno Duarte resolve bem a questão, suficientemente bem para o final não ser o mais importante. Algo que, embora pareça um paradoxo, era exactamente o que esta obra muito bem conseguida precisava.
A Fórmula da Felicidade 2. Argumento de Nuno Duarte, desenhos de Osvaldo Medina. Kingpin Books, 46 pp., 14,99 Euros.