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Relato de uma escuta

Se calhar, foram conversas como esta que os investigadores ouviram

6:33 Quinta, 26 de Novembro de 2009
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Uma claque bem comportada de uma equipa de futebol, dos Gato Fedorento, mostra a sua boa educação, protestando contra a má arbitragem: "O árbitro está a ser extremamente incorrecto!" Ora, aparentemente, um dos picantes que mais despertam o voyeurismo geral, são os termos pouco correctos com que José Sócrates alegadamente se refere a Cavaco Silva e a Manuela Ferreira Leite, nas suas conversas com Armando Vara. Nenhum de nós, investigadores, juízes, jornalistas ou cidadãos em geral, usámos, jamais, linguagem incorrecta contra o nosso chefe (ou a sua mãe), o vizinho de cima, o colega do lado, o fornecedor atrasado, o cliente relapso ou alguém com quem, simplesmente, não simpatizamos. O País comporta-se, todo, como a claque betinha dos Gato Fedorento. Não admira, pois, que agora se escandalize com a suposta linguagem menos polida do primeiro-ministro. É uma - mais uma! - prova da sua impreparação.

Mas o miolo das escutas parece ser a interferência do Governo no negócio da TVI - olhem que surpresa... - provará as omissões de Sócrates no Parlamento. E uma alegada intenção (não concretizada no resto dos relatos sobre as escutas), de favorecer um determinado grupo de Comunicação Social. Indícios vagos à medida do chapéu do "atentado contra o Estado de Direito". Um crime de sonoridade bombista tão tonitruante quanto ambíguo e difícil de provar. Faz lembrar o processo dos hemofílicos, em que a acusação indiciou Leonor Beleza de "propagação de doença contagiosa com dolo eventual"...

Como muito bem escreveu Vasco Pulido Valente, "nenhum primeiro-ministro sobreviveria à divulgação do que pesou nas decisões que toma (...), ao conhecimento geral das manobras pouco saborosas a que a necessidade o obriga e da gente pouco recomendável (...) com quem tem de se entender."

Imaginemos que tínhamos acesso às conversas privadas de Mário Soares quando se deu o caso Melancia. Ou às de Cavaco Silva no tempo das reprivatizações. Ou às de Santana Lopes a propósito do caso Marcelo/TVI. Para além do calão, ficaríamos boquiabertos com a sucessão de "atentados ao Estado de Direito" e de "tráfico de influências" que, à luz dos actuais critérios judicialistas, condenamos no actual poder político.
Querem o exemplo de uma escuta entre Sócrates e Vara tão bacteriologicamente pura como inverosímil?

"Vara: O que me diz o meu amigo da atitude do senhor prof. Cavaco Silva nesta campanha?

Sócrates: O senhor Presidente da República está a ser extremamente incorrecto.

Vara: E a dra. Ferreira Leite?

Sócrates: Uma jóia de senhora. Interrogo-me, porém, se terá uma vida sexual muito activa.

Vara: E a PT, sempre vai avançar para a TVI?

Sócrates: Oficialmente, não sei de nada. Como sabe, o Estado não intervém em negócios privados.

Vara: Mesmo tendo em conta o Jornal de Sexta?

Sócrates: Sobretudo tendo isso em conta. Longe de mim interferir!

Vara: E o caso do nosso amigo Joaquim?

Sócrates: Temos de o ajudar.

Vara: Emprestando-lhe dinheiro com condições especiais? Colocando mais publicidade nos seus jornais?

Sócrates: Na qualidade de decisor político, não posso aprovar nada disso. Estava a pensar pedir à dra. Maria de Belém que o inclua nas suas orações."

E pronto. Se calhar, foram conversas como esta que os investigadores ouviram. Por isso é que o Supremo Tribunal as mandou destruir.

Palavras-chave  sexto sentido, opinião, Filipe Luís
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Uma escuta sem valor jurídico
a.dúvida (seguir utilizador), 2 pontos , 18:14 | Sexta, 27 de Novembro de 2009
Caro Filipe Luís,
As conversas entre estes senhores não têm valor jurídico, então teremos de reconhecer-lhes algum valor artístico.
Ainda alguém se lembra de adaptar os diálogos a uma peça de teatro. E imaginando esse cenário a fila para as bilheteiras, seria enorme... o que auguraria excelentes receitas.
E agora, pense ... se a cena fosse uma espécie de monólogo de Pinto Monteiro, PGR. Que sucederia? Corriamos o risco de não ter espectadores, apenas um palco cheio de cassetes... e eu a pensar que já era tudo editado em CD, com som stereo...
Cumprimentos,
Sara
Politicamente incorrecto
george (seguir utilizador), 1 ponto , 12:05 | Quinta, 26 de Novembro de 2009
Dou-lhe os meus sinceros parabéns por uma crónica brilhante mas politicamente incorrecto. Por isso, não se admire se for alvo da fúria dos bisbilhoteiros mórbidos.
Lavador
vguerra (seguir utilizador), 1 ponto , 16:47 | Sexta, 27 de Novembro de 2009
FL" lava mais branco" para branquear o ídolo."Jornalismos"...
Amadorismo
ffortes (seguir utilizador), 1 ponto , 10:52 | Sábado, 28 de Novembro de 2009
O problema foi o do amadorismo em que tudo isto foi feito. Então os tipos escutam o Sócrates sem se segurarem com a devida autorização do Supremo?
    Re: Amadorismo   
joaquim leal (seguir utilizador), 1 ponto , 17:27 | Sábado, 28 de Novembro de 2009
    Re: Amadorismo   
ffortes (seguir utilizador), 1 ponto , 17:49 | Sábado, 28 de Novembro de 2009
    Re: Amadorismo   
joaquim leal (seguir utilizador), 1 ponto , 18:51 | Sábado, 28 de Novembro de 2009
POBRES ESQUERDISTAS
joaquim leal (seguir utilizador), 1 ponto , 17:20 | Sábado, 28 de Novembro de 2009
CARO FILIPE LUIS,
VOCÊS ESQUERDISTAS AINDA NÃO PERCEBERAM QUE ESTÃO NA PRESENÇA DE UM 1º MINISTRO SINISTRO, ALDRABÃO...ETC?
E QUE APOIÁ-LO A TODO O CUSTO SÓ VAI FAZER MAL AO VOSSO PS?
SOCIALISTAS COMO SÃO, DEVIAM ERA VER-SE LIVRES DESTE BURGESSO O QUANTO ANTES.
    Re: POBRES ESQUERDISTAS   
NDD (seguir utilizador), 1 ponto , 12:44 | Domingo, 29 de Novembro de 2009
Apenas comentando...
MRPrates (seguir utilizador), 1 ponto , 16:00 | Quinta, 3 de Dezembro de 2009
Penso que o objectivo deste espaço é dar a opinião, ainda que discordante, da crónica acima publicada. Assim, parece-me um pouco descabido e sintoma de um negativismo furioso, tecer juízos de valor; quer aos temas, quer aos respectivos autores. Adiante...há muito que leio as crónicas de F.L. e, desde as mais inspiradas até às mais formais, passando pelas divertidas, sempre lhes reconheci pontos em comum: qualidade da escrita e isenção. Parabéns, Filipe Luís! Esta semana, conseguiu fazê-la imaginativa, divertida mas séria. Não a achei brilhante, mas sim genial, porque muito inteligente. Boa continuação...os seus leitores cá estão à espera. Mesmo que seja para dizer que está muito aquém da anterior...
As leis
caprylm56 (seguir utilizador), 1 ponto , 22:23 | Sexta, 4 de Dezembro de 2009
Estão aplicadas conforme a nessessidade dos politicos.
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