A chamada rentrée literária tem mudado, e por isso também nós aqui a assinalamos de forma diferente. Assim, entre os novos livros de língua portuguesa que vão para as livrarias este mês, escolhemos três: As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia, de Miguel Real, 57 anos, Livro, de José Luís Peixoto, 35 anos, e Milagrário Pessoal, de José Eduardo Agualusa, 49 anos
18:53 Quarta, 8 de Setembro de 2010
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Miguel Real
É ainda com dificuldade que veste o fato de escritor. E não poucas vezes recusa a designação, sobrepondo a sua humildade aos muitos livros que já publicou. Os números, no entanto, falam por si. Na última década, Miguel Real é dos autores mais fecundos da literatura e do pensamento portugueses, com uma vintena de títulos publicados, a que se soma, nesta rentrée, As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia. Do romance ao conto, do ensaio à crítica literária, nomeadamente aqui no JL, não esquecendo as inúmeras conferências que dá por todo o país e no estrangeiro, poucos são os temas que não lhe interessam. Mas mesmo assim, quando o apelidamos de escritor, ao longo desta conversa, será sempre com um sorriso que evita tal estatuto. "Escritor é o José Luís Peixoto ou o João Tordo, a quem saúdo por terem lançado agora tão bons romances", atira, para depois acrescentar: "Nunca me passou pela cabeça deixar de dar aulas para escrever, e esse é também um traço distintivo do escritor dos nossos dias, que é alguém que abdica de tudo e traça disciplinadamente um programa, publicando desde novo romances e contos, na busca incessante de instituir um estilo próprio".
A esta imagem, contrapõe em sua defesa uma mais próxima da mítica Penélope, que todos os dias, enquanto esperava por Ulisses, perdido no regresso a casa, fazia e desfazia uma colcha para assim não ter de escolher novo marido. Miguel Real também entende a sua escrita como um trabalho manual, a que vai acrescentado todos os dias novos elementos (no seu caso sem os destruir). Uma espécie de "patchwork", como sugere, a que junta várias partes, sempre diferentes, mas com muitos pontos de contacto. É frequente um ensaio dar origem a uma narrativa, ou o cansaço desta o incentivar a escrever para teatro. Numa palestra pode encontrar inspiração para um enredo e entre os dois a vontade de conhecer mais a fundo determinada época. O denominador comum, porém, é sempre o mesmo. A base é feita de História e Literatura, naquilo a que poderíamos chamar de realismo cultural. Ao estudioso da Filosofia, que segue o primado da razão, junta-se o ficcionista, que apenas obedece aos tratados da comoção estética. Um racionalista intuitivo que, num país sempre em crise, lança sobre a nudez forte da verdade um manto diáfano de lucidez e densidade cultural.
Duplo nascimento
Miguel Real nasceu em Lisboa, a 6 de novembro de 1953. Na verdade, não foi bem assim. Quem nasceu nesta data foi Luís Martins, o homem por detrás do pseudónimo. O Miguel Real haveria de surgir muito mais tarde, como veremos. Por agora centremo-nos na infância deste lisboeta que vivia junto à Alameda D. Afonso Henriques, morador que era do Bairro das Colónias, à Almirante Reis. Mas era ali, entre a Fonte Luminosa e o Instituto Superior Técnico, que passava grande parte dos seus dias. A jogar futebol na relva, a brincar com os amigos, no entra e sai do café que o seu pai tinha. A atividade física, de resto, valeu-lhe alguns pergaminhos no currículo, como o ter integrado durante a juventude e adolescência as equipas de andebol e voleibol do Benfica, apesar de em casa o coração familiar bater pelo Belenenses. Hoje lembra com nostalgia esses tempos, em particular as peladinhas na Alameda. Eram coisas da idade, garante. Raramente vê um jogo de futebol e considera até esse desporto um dos elementos mais conservadores da Europa. "O futebol separa as nações em vez de as unir", diz com a segurança de vários anos de estudo sobre o velho continente.
Desta infância feliz, o que Miguel Real, ou melhor, Luís Martins mais recorda é a certeza absoluta sobre o seu futuro. Sempre quis ser professor. E nunca duvidou. "Era das poucas coisas que sentia como definitivo em mim", adianta. Essa ideia chegou-lhe entre os 4 e 5 anos, ainda antes de ingressar na escola primária. A precocidade talvez se explique pelas visitas frequentes que o prof. Vieira fazia ao café do pai. Tinha aquele porte sólido e confiante, que se misturava com o forte simbolismo de representar o saber. Com a experiência de hoje, pode assegurar-nos que "olhava para ele como os anjos olham para Deus".
Com essa convicção a conduzir-lhe o caminho, Luís Martins cumpriu todas as etapas do percurso escolar. Frequentou a Escola Primária do Bairro dos Atores, a Escola Básica 2,3 Nuno Gonçalves e por último o Colégio Marquês de Pombal, em que se inscreveu por ter estado doente num ano letivo e precisar de recuperar tempo para terminar o antigo 7.º ano (atual 11.º). Terminou-o com sucesso, pois era um aluno aplicado. E a leitura já fazia parte da sua vida, mas ainda não de uma forma contínua. Isso chegou com a faculdade.
Antes, porém, surgiram as dúvidas. Sabia que queria ser professor, mas de quê? Hesitava entre História e Filosofia. Lia os programas curriculares e não era capaz de se decidir. "Um dia acordava inclinado para História, no seguinte para Filosofia". Sem o saber, entregou a decisão ao acaso. Já próximo da candidatura deixou-se levar pelo incentivo de um amigo, que viu nele um bom companheiro de estudo. "Anda para Filosofia", disse-lhe. E assim foi.
No início da década de 70, Luís Martins entrava na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e nunca mais seria o mesmo. É que aí percebeu que em Filosofia "ou se é muito bom ou não vale a pena". A opção foi clara: passou a estudar 12, 14, 16 horas por dia, se necessário. O grande leitor que hoje é nasceu nesta altura.
Foi também na universidade que conheceu o outro grande amor da sua vida, a par da leitura e da escrita: a mulher Filomena Oliveira, com quem vive há 36 anos e tem dois filhos, David, 32 anos, que compõe música para teatro e dança, e Inês, 21, a frequentar o terceiro ano de Turismo. Em conjunto, têm criado diversos espetáculos para teatro, adaptando inclusivamente clássicos da literatura portuguesa. Tanto nas peças originais, como nas adaptações, a encenação é sempre de Filomena Oliveira. As três últimas peças, Vodka e Cachupa, Uma Família Portuguesa e Viúva Recente, estão reunidas no volume Teatro Atual, editado pela Fonte da Palavra.
Leia a figura completa, bem como as críticas aos novos romances de José Luís Peixoto e José Eduardo Agualusa, no seu JL.