Não foi hà muito tempo, era uma rapariga normal, ria em conversas de grupo, estava no 2º ano penso. Enforcamento. Não houve tempo... ainda hà cerca de um ano um rapaz tomou uma overdose de comprimidos. Asfixia? Diz-se que na missa em seu nome, a professora de matemática lamentou ter-lhe dado os 20 valores, garantindo assim a sua entrada em medicina.
Esta é uma cidade de padres. Ou foi... não se sabe exactamente de que é esta cidade. Os seminários definham em abandono, as privadas inflaccionam notas, os alunos concorrem com médias exorbitantes. "Quer seguir medicina" contava a mãe a uma amiga... esta é uma cidade de padres, mas dizia alguém que quando se fala de dinheiro todos os homens têm a mesma religião.
Não são só os alunos que se matam, havia uma professora, chamava-se Cristina. Tinha um comportamento peculiar, vestia de modo demasiado ousado para a sua idade, chamava feias às colegas, intimidava uma aluna gaga por não saber ler na aula de inglês, rindo altivamente. A minha mãe falou-me desta personagem já vai um par de anos, na altura julgava-a arrogante, deselhei-lhe mal pela prepotência e depois ela respondeu-me. A Cristina suicidara-se para pasmo de toda a gente, encontrada morta uma semana após consumado o acto, no apartamento onde morava. Sozinha. Palavras leva-as o vento, e o vento é rápido. A professora Cristina sofria de uma qualquer patologia, o marido controlava-lhe a medicação. Houve um divorcio e a Cristina perdeu o rumo. Ninguém deu a cara pelo cadáver, foi a escola que arcou com as despesas do funeral.
São dicotomias tão velhas quanto a Sé desta cidade, aquelas que falam de vítimas e agressores. O vento é rápido, cortante na face de Leandro suspenso sobre as águas geladas do rio. Chamam-lhe o gordo, o feio, o preto, o paneleiro, o filho de um divórcio, o judeu, o terrorista, o filho da puta. A nascente do Tua dá a gente facilmente com ela, mas e a da maldade? Todo o mundo se assombra com a dissolução do franzino corpo nas águas, não há jeito de os bombeiros darem com o cadáver, os pais choram copiosamente a perda, e era um filho, era um filho, e nada mais é qualquer homem ou mulher que um filho.
Nas ruas deste país contesta-se: "Portugal aos portugueses" a vermelho numa parede, "Não á destruição da família!" numa faixa entre a multidão, "O povo unido jamais será vencido" escrito no tecto, onde ninguém vê. E são filhos na multidão, filhos contra filhos. Esta é uma cidade de padres, homens que acreditam na palavra d'Aquele que nos disse todos irmãos. Mas a família d'Ele é uma família pobre, que não se entende, não sabe ouvir o outro, não estende a mão, não se põe no lugar de.
Dizia-se no vento que a Cristina pelo seu 40º aniversário pedira 40 rosas ao marido. Este achou que seria mais do agrado da esposa um perfume. Diz-se que ela espatifou tudo. A Cristina fez 40 anos, depois mais três e então desistiu. Ninguém pôde ajudar a Cristina, ninguém soube ver para além da altivez e da arrogância, ninguém se sujeitou à aspereza das suas palavras e percebeu a instabilidade oculta. Também ninguém percebeu o porquê do enforcamento ou da overdose dos dois estudantes, tão pouco adivinhava que o Leandro se desiquilibrava com a professora Cristina na borda da ponte.
Ensinam-nos em crianças: "Sê bom para os outros, mas para singrares na vida elimina a concorrência." As pessoas crescem entregues à sua consciência, ou na perspectiva mais pragmática dos que acreditam na exactidão das ciências, entregues à probabilidade e reacções químicas do seu organismo. Mas esta é uma cidade de padres, daqueles que oscultam caminhos inatingíveis nestes corpos, que crêem num Deus uno, na deturpação dos ideiais de um crucificado.
Um homem, uma criança, abre a boca, tem um gesto que desaponta, e os lobos avançam. É predatória a natureza de todos os animais, da Humanidade também. A discriminação, o juízo precipitado são mecanismos de depuração da espécie. Se é diferente, se tiver defeito, tem de ser eliminado. Com estas mortes a culpa volta a morrer solteira, porque não são os pais, os professores, os alunos, o Ensino, ou o Sistema os culpados. Cada um tem o seu papel na perpetuação de mitos, estereótipos, convenções sociais. "Sê bom para os outros, mas elimina a concorrência."
Deixando cair o regaço, disse Isabel: "São falácias, Senhor."
P.S.: E depois ao longe na praça uma prostituda ri com a leveza do ar no espírito. Sabe Deus, que não tem corpo para tantas pedras.
Parabéns sinceros pelo seu texto. Ele espelha a sociedade em que vivemos hipócrita, egoísta, onde as pessoas perderam os valores.
E a escalada de violência não acontece só com os mais novos como Leandro... mas com muita Cristina de 40 anos... e muitos estudantes com um futuro promissor, que não encontram sentido para a sua vida. Porquê?... É aí que reside o problema, quando as pessoas não conseguem ver mais além, ver com os olhos da alma, com respeito pelos outros.
Vale a pena reflectir sobre o que escreveu.
Sara