O PS terá de apoiar Manuel Alegre pelo seu currículo no partido, pelo seu resultado em 2006 e até porque não tem um candidato melhor
5:47 Quinta, 21 de Janeiro de 2010
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A primeira consequência do já esperado anúncio da futura candidatura presidencial de Manuel Alegre é obrigar o PS a tomar uma posição clara, a curto prazo, a seu respeito. Posição que ou é de apoio ou corre o risco de ser suicida. Por mais anticorpos que tenha em alguns sectores do partido e no seu "aparelho", basta o currículo do poeta na história do PS, e o resultado que alcançou nas últimas presidenciais, para tal apoio não poder ser negado.
Acresce que, no essencial, o que Alegre defende coincide com princípios fundamentais do PS (a "prática" é outra questão) ou a que o PS não pode opor-se. Como a valorização da democracia participativa, sem prejuízo do primado da representativa, e de um certo "patriotismo", uma certa visão de Portugal, da sua História e cultura, do seu papel no mundo. O PS também não pode invocar a falta de "concertação" da candidatura com o partido, pois essa é até uma das forças de Alegre - e ser o candidato "do partido" foi o principal handicap de Mário Soares em 2006. Nem invocar, sem risco, o que tenha a ver com a personalidade, a imagem ou até a concepção da função presidencial de Alegre, que serão os aspectos mais vulneráveis da sua candidatura.
Creio que José Sócrates já percebeu tudo isto. Como percebeu que a situação de hoje é muito diferente da de 2006. Além de Soares ser único, a sua candidatura foi apresentada antes da de Alegre, que veio, formalmente, "dividir". Agora, pelo contrário, a candidatura já está no terreno, se houver "divisão"... O que explica tamanha antecedência no lançamento. Uma vantagem, em contraste com alguns inconvenientes. Por exemplo o de, a partir de agora, Alegre estar no ponto de mira de ataques de muitos lados e de todas as espécies: dos mais primários e mentirosos, aos mais sofisticados, que, aliás, já começaram.
Um dos primeiros objectivos dos seus adversários é colá-lo ao BE. E impedir que fique tal ideia ou imagem é dos primeiros desafios de uma candidatura à partida muito "difícil", que tem de ser internamente plural, com grande clarividência estratégica e maleabilidade táctica. Porque a recandidatura mais do que provável do actual Presidente só será assumida, como bem se compreende, no limite do prazo. E, até lá, a melhor forma de Cavaco Silva fazer a sua "campanha" é... não a fazer - e não repetir erros graves como o das "escutas". É ser o mais consensual possível, colaborar com o Governo, não responder a ataques, que apenas o beneficiam, e nem sequer comentar as presidenciais.
Alegre tem razão ao notar que só Cavaco está em condições de reagrupar o que chama "bloco conservador"; de lograr a unidade ou, pelo menos, a convergência, no centro/direita, direita, para concretizar um seu velho objectivo, que "não consegue por via partidária: uma maioria, um governo, um Presidente". Já ele, Alegre, não consegue o mesmo em relação à esquerda, centro/esquerda. Nem ele nem ninguém. Com as dificuldades e os problemas, que não são poucos, em particular ao centro, não vejo nessa área, neste momento, quem possa ser melhor candidato do que Alegre. E quem possa concitar mais apoios entre os que, em várias áreas, inclusive ideológicas, desejam uma forma diferente de fazer política e querem acreditar no que talvez liricamente se possa chamar "uma nova esperança para Portugal". E também por isto o PS terá de o apoiar.
Gostaria de tratar ainda a questão do comentário político na televisão em geral e na RTP em particular, matéria de que tenho longa experiência. Comentários feitos por dirigentes partidários no activo, ou na reserva com óbvias aspirações a voltar ao activo e/ou a ocupar cargos políticos, bem como qualquer critério de pluralismo com base na multiplicidade deles e das suas orientações, são um absurdo do ponto de vista de uma informação independente, de qualidade, e uma falácia do ponto de vista democrático. Marcelo, porém, é um "caso" especial, anterior a essa nefasta tendência, que corresponde também a um inaceitável e quase esmagador domínio partidário em quase tudo. Espero voltar ao tema.
Conseguirá Manuel alegre o "suposto" apoio do PS?
Irá Cavaco Silva recandidatar-se?
Irá aparecer uma "outra figura" na corrida às Presidenciais? Porque não? Afinal...ainda estamos longe.
Parece-me razoável deixar em aberto a resposta a estas perguntas.
Sara
Não tem perfil para Presidente da República. O Presidente deve ter formação económica ou jurídica. Currículo, parece que se reduz à permanência, como deputado, na Assembleia da República, desde 1976.
O pior que podia acontecer a José Sócrates é ter, enquanto primeiro ministro, Manuel Alegre como Presidente.
avelino.barroso@sapo.pt