Numa região em que os riscos para quem não anda com protecção são enormes, tomar a decisão de enviar agentes humanitários sem escolta é uma grande responsabilidade
8:06 Quinta, 19 de Novembro de 2009
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Como passo uma parte do meu dia a lidar com organizações não-governamentais, num contexto de insegurança generalizada e de má governação institucionalizada, preciso de ter alguma paciência e abertura de espírito. Tudo isto deve ser acompanhado por um diálogo constante, que, sem conversa, não há entendimento. Três virtudes difíceis, mas a idade ajuda a ser-se mais sereno. E com umas décadas aos trambolhões nestas matérias ganha-se uma couraça mais espessa, como os crocodilos sagrados do deserto. Mas, de vez em quando, um desabafo, que é o que a crónica vai ser, faz bem.
A criminalidade violenta na zona do Sahel, os ataques de homens armados contra os agentes humanitários, os extremismos, as incompreensões religiosas e culturais, os conflitos entre comunidades, as violações dos direitos humanos, as rebeliões, fazem parte do nosso quotidiano. Sobretudo nas zonas de fronteira e, em particular, no Leste do Chade, no Darfur e no Norte do Niger. Juntou-se agora a este leque de crimes e dificuldades o rapto de estrangeiros. Na semana passada, foi a vez de um agrónomo do Comité Internacional da Cruz Vermelha, feito refém nas terras da incerteza que são as zonas entre o Chade e o Darfur.
Estas são, fora do Afeganistão e do Iraque, as áreas de maior perigo para os trabalhadores humanitários e os agentes das Nações Unidas. No caso dos funcionários da ONU, consegui impor a regra que obriga que todas as deslocações no terreno se façam com escoltas armadas. Com gente da nossa polícia ou com capacetes azuis. Mas algumas ONGs não vêem com bons olhos este tipo de obrigação. Acham que perdem a sua imparcialidade e neutralidade, se forem acompanhadas por forças das Nações Unidas.
Numa região em que os riscos para quem não anda com protecção são enormes, com uma probabilidade quase absoluta de haver ataques, tomar a decisão de enviar agentes sem escolta é uma grande responsabilidade. É isso que digo às ONGs que o fazem. Há que saber assumir as suas responsabilidades. Aqui, não há espaço para fugir com o rabo à seringa.
Muitas das agências humanitárias estão, neste momento, convencidas de que mais vale andarem bem guardadas pelas missões de paz do que serem confrontadas com perigos de consequências graves. E, assim, podem continuar o seu trabalho junto das populações vulneráveis.
Mas algumas organizações adoptam uma posição mais fundamentalista. Preferem retirar-se das paragens, deixar milhares de famílias sem assistência. Tudo por uma questão de princípios, que, na minha opinião, são mal compreendidos. Quem pode colocar a questão em termos de neutralidade, independência e imparcialidade, quando as partes são tão distintas? Temos, de um lado, forças da ONU, com mandatos específicos do Conselho de Segurança, destinadas a proteger gentes em perigo, e, do outro, grupos de homens armados, fora-de-lei e do mundo de agora, à espera, em cada leito de rio seco, da próxima vítima. Sobretudo se a vítima for um ocidental, com um todo-o-terreno, um telefone satélite e uma nacionalidade daquelas que pagam recompensas. Sim. Há governos da UE que são conhecidos nestas areias quentes, onde a esperança seca todos os dias, por pagarem pela libertação dos seus nacionais feitos reféns. Esta é a melhor maneira de alimentar a indústria do rapto.
Esses governos poderiam utilizar melhor o seu tempo e os seus recursos, se se ocupassem a fazer ver às suas agências humanitárias que um capacete azul não é a mesma coisa que um bandido armado, emboscado nas dunas do sofrimento em que vivem milhões de sahelianos. E se tivessem em conta que a região, às portas da Europa, apresenta riscos de "somalização" e de se transformar num viveiro de tresloucados com bombas.
Caro Vitor Ângelo,
A idade ajuda a ser-se mais sereno, mais paciente... mas o seu desabafo nesta crónica contêm a emotividade e o saber de alguém que nos permite ver o mundo através do seu olhar... Essa sua "couraça" não é assim tão dura. E se dúvida houvesse é ler a forma como aborda tantos problemas: criminalidade na zona do Shael, raptos, ONU, ONG's... tantos e tantos problemas para quem trabalha no terreno...ou para quem "bate em retirada" deixando as poulações já tão fragilizadas sem assistência. Na verdade o Iraque e o Afeganistão deixaram de ser as únicas zonas problemáticas, escreve e bem que os riscos são maiores fora desses limites. Até quando? Não sabemos.
Bem- haja VA pela partilha das suas experiências.
Cumprimentos,
Sara
Sabe, Sara, convém ir falando e escrevendo sobre um mundo maior do que a nossa pequena terra. É a única maneira de, um dia, consguirmos ter uma visão mais ampla da nossa terra num espaço mais vasto. É apenas isso que procura. Também tento escrever sobre questões que não cabem na escrita habitual dos outros cronistas da nossa praça. Assim, cada um desempenha um papel que procuar ser útil.
É grave a confusão de certas ONG’s entre o que são “bandidos armados” e o que não são “movimentos rebeldes” no Chade, como o refere VA.
Daí, manterem-se equidistantes entre “rebeldes” (que os roubam e matam, bem como às populações locais) de um lado, e forças de paz das NU, do outro lado.
Mas o erro não é só das ONG’s.
Em geral, quem escreve “politicamente correcto” tem hoje tendência para confundir grupos que são de bandidos como se de rebeldes se tratassem, num equívoco comparável mas ao invés com confusões passadas entre terroristas que muitas vezes eram de facto guerrilheiros de libertação nacional.
Há excepções. Já se diz que são piratas os “rebeldes” das costas da Somália, e simples matadores os que matam sem olhar a quem, de Nova Iorque, a Londres e Madrid, de Bagdad a Peshawar e a Kabul, apesar do seu linguarejar pseudo-político.
Mas a regra é hoje chamar “rebeldes” a raptores de inocentes a troco de dinheiro, por exemplo http://www.nytimes.com/20... .
Diz-se ”precisam de dinheiro, e o rapto é uma máquina de fazer dinheiro”. Logo raptam. Logo são rebeldes.
Ora… procure-se na Net o termo “bandidos armados” sobre o Chade, o Sahel ou o Darfur, e não se encontra.
Mas de “rebeldes”, estão os portais cheios de respeitáveis citações.
Aí, as ONG’s, numa leitura ‘naïf’e apressada, confundem as coisas e fazem-se à estrada incautos e inseguros.
Com riscos e perigos escusados.
Tomando bandidos por rebeldes, e fazendo-se alegremente ao engano.
Sabe-se pela pena diária http://victorangelo.blogs... e aqui semanal de VA, que o Leste do Chade, o Darfur e o Norte do Níger são das áreas de maior perigo para os trabalhadores humanitários e os agentes das NU.
Também se sabe que há um grupo de profissionais dedicados http://victorangelo.blogs... da PSP em permanência no Chade e na RCA, numa missão de risco em protecção ao Representante Especial http://www.un.org/en/peac... do SG das NU nesses países, também um português.
É porém notável o aparente desinteresse e o silêncio tonitruante em Portugal sobre o sofrimento das populações, o trabalho das ONG’s e a missão das NU’s nestas regiões e países.
Ora, pelas decisões de ontem em Bruxelas, esta insatisfação com os olhos postos na imprensa e nos responsáveis portugueses corre o risco de não ver grande solução alternativa, nem complementar, ao nível da UE.
As personalidades escolhidas para novo PC da U, o PM belga Herman v. Rompuy http://fr.wikipedia.org/w... e para AR da U para as RREE e Política de Segurança, a Comissária britânica Catherine Ashton http://en.wikipedia.org/w... são pessoas respeitáveis, e com méritos e percursos locais e nacionais algo interessantes.
Mas dificilmente se imagina que possam ser locomotivas nos trilhos que a EU tem de percorrer nos cenários europeu e mundial, em África e nos seus palcos mais difíceis inclusivé.