Madrugada de quinta-feira, 11, em Portugal, ainda onze e picos da noite de quarta-feira em Port St. Charles, nos Barbados. Cansado, bastante mais magro e ansioso por rever a família, a namorada e os amigos, o luso-sueco Pedro Salgard Cunha, 28 anos, chegou ao fim da aventura de cruzar o Atlântico num pequeno barco a remos.
Coisa pouca de 11,1m de comprimento por 1,8m de largura, mas capaz de albergar seis remadores, três de cada vez em turnos de duas horas, o Sara G portou-se bem ao longo dos quase dois meses em que serviu de casa e meio de transporte a Pedro e aos seus camaradas de aventura (quatro homens e uma mulher). Talvez porque levava a bordo seis bons esprits, seis pessoas que não se conheciam antes mas rapidamente se entenderam para não remar cada um para seu lado - literal e metaforicamente, claro.
Ainda disponível em
http://www.onemillionstrokes.org.uk/
(em inglês) ou
http://www.remosnoatlantico.com.pt/
(em português macarrónico por se tratar de uma tradução automática), o Diário de Bordo do português está cheio de histórias deliciosas, como a do peixe que aterrou na sua nuca e acabou grelhado. Em pleno oceano Atlântico, dá muito gozo pequeno-almoçar um peixe-voador-transviado, escreve Pedro. Quando a dieta varia entre comida liofilizada e rações do exército britânico, percebe-se o porquê de tantas descrições naturalmente obsessivas sobre a comida a bordo e a necessidade de ganhar forças para remar, remar, remar.
O Sara G zarpou de Agadir (Marrocos) a 12 de Janeiro, com o objectivo de alcançar os Barbados, em 40 dias. Foram 5 300 km. A meio caminho, o português fazia um primeiro balanço à VISÃO, por e-mail: "A melhor coisa da viagem é apanhar douradas e cozinhá-las: fritamo-las em azeite e comêmo-las enquanto estão quentes! A pior foi o tempo passado com a âncora da deriva. É uma sensação horrorosa estar sentado no barco, a vê-lo recuar, sem poder fazer nada."
Antes do doutoramento em Ciências de Materiais, em Cambridge (Reino Unido), Pedro esteve dois anos e meio nas forças armadas suecas, onde recebeu treino em técnicas de sobrevivência e resistência. O seu espírito aventureiro está nos genes: o pai fez 15 anos de queda-livre com pára-quedas e agora voa em planadores.
Apesar do seu aspecto nórdico, Pedro sente orgulho em ter sido o primeiro português a atravessar o oceano Atlântico a remos. Metade do dinheiro que conseguiu angariar nesta aventura (qualquer pessoa podia patrocinar quilómetros, a um euro cada) será gasto em material didáctico para a Escola de Ontupaia, em Nacala, Moçambique. Na biblioteca, os alunos têm um único livro: um dicionário de Português.
DIÁRIO DE BORDO
(alguns extractos)
Dia 53 - Olhar para a frente
7 de Março
Quando regressar, acho que a primeira coisa que quero fazer é sentar-me no sofá e ver televisão. Estou ansioso por saber o que está a acontecer no laboratório e no clube de remos.
Dia 51 - Os dias passam rápido...
5 de Março
Está a tornar-se muito difícil manter-me acordado durante o turno da noite. Sinto que trabalho apenas a 80% e adormeço entre remadas. Julgo que peso cerca de 72 kg, o que ainda é um peso saudável. Ainda consigo comer um monte de calorias. Estou a acabar com as guloseimas ... e agora até como os pacotes de molho de tomate só pelo sabor forte!
Dia 41 - Humanos!
23 de Fevereiro
Por volta das 3 da tarde vi de repente algo branco surgir no horizonte. Antes de percebermos o que se passava, um iate enorme apareceu à nossa frente. Matt chamou-os pelo rádio e eles conseguiram trazer o barco suficientemente perto nós. Estavam a caminho do Caribe, para uma das pequenas ilhas a norte dos Barbados. Como tínhamos vindo a fazer bons progressos, parámos por 15 minutos para dar à língua. Foi incrível ver outras pessoas depois de todo este tempo.
Dia 37 - Sinto-me bem
19 de Fevereiro
Esta viagem é de longe a maior aventura que já fiz na minha vida. Não é o lado físico, é mais o lado mental que é mais difícil do que qualquer coisa que fiz antes. São os turnos repetitivos, 2 horas a remar, 2 horas de folga, basicamente 24 horas por dia. Acho que estou a aguentar bem. O meu rabo parou de perder pele, cortei buracos no assento de espuma para tentar aliviar a pressão. O meu cotovelo também já desinchou.
Dia 33 - Dieta para um remador dos oceanos
15 de Fevereiro
Apanhámos seis douradas à hora do almoço. Todos agora esperam que eu as mate, mas desta vez, no lugar de lhes bater na cabeça, decidi usar uma faca. É mais rápido e, provavelmente, mais humano. Cozinhamo-las com um tipo de molho polaco absolutamente fantástico! Um bom complemento à nossa dieta habitual.
(...)
A noite passada foi bastante chata, mas o céu estava absolutamente fantástico, sem luar. Vi montes de constelações, o meu livro de "star spotting" vem a calhar.
Dia 29 - Céu da noite
11 de Fevereiro
O remo de noite tanto pode ser o céu como o inferno. Por vezes, pode ser praticamente impossível manter-me acordado, como ontem. Estava sempre a adormecer e a cair para o lado. Também estava a alucinar bastante e acordei a tentar fazer coisas com as minhas mãos, como abrir uma garrafa.
(...)
Estivemos perto de um navio há duas noites, falámos pelo rádio e ele mudou de curso. Também vimos um petroleiro maciço hoje. Falámos em VHF e ele passou a cerca de 600m de distância da nossa popa, impressionante.
Dia 27 - Dia bonito
9 de Fevereiro
algo incrível aconteceu, ontem à noite. Quando me levantei para vigiar navios, um peixe voador de seis polegadas [15 centímetros] bateu-me no pescoço e foi cair dentro da cabina da popa. Bem, já se está a ver, ninguém se mete com o Pedronator. Fui buscar a minha faca Stanley, cortei-lhe a cabeça e meti-o num saco de plástico com água, para comê-lo mais tarde.
Dia 23 - Resumo da semana à deriva
5 de Fevereiro
Temos um peixe debaixo do barco, é preto e azul listrado, muito bonito. Tentei agarrá-lo com as minhas mãos, mas é rápido de mais. Ele (ou talvez eles) parece viver debaixo do barco e aparece se eu atirar alguma coisa para a água. Chamamos-lhe Barry. Julgo que também vimos tubarões ontem. Até agora temos visto tartarugas, golfinhos, albatrozes, barracudas, peixes voadores e baleias.
Dia 11 - Manter-se ocupado
23 de Janeiro
Durante os turnos normalmente ouvimos música apenas para nos manter ocupados. Temos um aparelho de som e altifalantes de bordo, e quando há bastante sol para poder carregá-lo ouvimos músicas em comum. Se não, usamos os nossos iPods. Jogamos jogos do tipo 20 perguntas, e também tentamos resolver algumas das charadas e piadas que as pessoas têm enviado. Para passar o tempo durante a noite, e às vezes também durante o dia, escolhemos temas com base nas letras do alfabeto - Hoje estamos no 'I'.
Dia 9 - Onda grande
21 de Janeiro
Tudo no o barco está a funcionar. O único problema que tivemos até agora é o AIS, que morreu. Ele permite-nos ver os outros navios no plotter gráfico, e eles verem-nos. Não é vital, ainda temos luzes de navegações, rádio e um reflector de radar que faz com que pareçamos maiores do que somos. Temos também um sistema de vigia durante a noite.
Dia 8 - Comer...remar...lavar...remar...dormir...
19 de Janeiro
O meu primeiro turno do dia começa às 7h40. Há um par de coisas que tenho de fazer entre cada turno de remo. Cozinhar é o mais óbvio. Comemos alimentos liofilizados, a que é necessário adicionar água. No convés há um simples fogão a gás para ferver a água. Adiciono algumas especiarias e está pronto - perto de comestível!