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Aventura

Português atravessa Atlântico a remos

Ao fim de 57 dias e 20 horas, Pedro Salgard Cunha chegou a Bridgetown, nos Barbados. Foram quase dois meses recheados de peripécias, como conta no seu Diário de Bordo, a espreitar no final deste artigo

Rosa Ruela
16:34 Quinta feira, 11 de Mar de 2010
Português atravessa Atlântico a remos

Madrugada de quinta-feira, 11, em Portugal, ainda onze e picos da noite de quarta-feira em Port St. Charles, nos Barbados. Cansado, bastante mais magro e ansioso por rever a família, a namorada e os amigos, o luso-sueco Pedro Salgard Cunha, 28 anos, chegou ao fim da aventura de cruzar o Atlântico num pequeno barco a remos.

Coisa pouca de 11,1m de comprimento por 1,8m de largura, mas capaz de albergar seis remadores, três de cada vez em turnos de duas horas, o Sara G portou-se bem ao longo dos quase dois meses em que serviu de casa e meio de transporte a Pedro e aos seus camaradas de aventura (quatro homens e uma mulher). Talvez porque levava a bordo seis bons esprits, seis pessoas que não se conheciam antes mas rapidamente se entenderam para não remar cada um para seu lado - literal e metaforicamente, claro.

Ainda disponível em http://www.onemillionstrokes.org.uk/ (em inglês) ou http://www.remosnoatlantico.com.pt/ (em português macarrónico por se tratar de uma tradução automática), o Diário de Bordo do português está cheio de histórias deliciosas, como a do peixe que aterrou na sua nuca e acabou grelhado. Em pleno oceano Atlântico, dá muito gozo pequeno-almoçar um peixe-voador-transviado, escreve Pedro. Quando a dieta varia entre comida liofilizada e rações do exército britânico, percebe-se o porquê de tantas descrições naturalmente obsessivas sobre a comida a bordo e a necessidade de ganhar forças para remar, remar, remar.

O Sara G zarpou de Agadir (Marrocos) a 12 de Janeiro, com o objectivo de alcançar os Barbados, em 40 dias. Foram 5 300 km. A meio caminho, o português fazia um primeiro balanço à VISÃO, por e-mail: "A melhor coisa da viagem é apanhar douradas e cozinhá-las: fritamo-las em azeite e comêmo-las enquanto estão quentes! A pior foi o tempo passado com a âncora da deriva. É uma sensação horrorosa estar sentado no barco, a vê-lo recuar, sem poder fazer nada."

Antes do doutoramento em Ciências de Materiais, em Cambridge (Reino Unido), Pedro esteve dois anos e meio nas forças armadas suecas, onde recebeu treino em técnicas de sobrevivência e resistência. O seu espírito aventureiro está nos genes: o pai fez 15 anos de queda-livre com pára-quedas e agora voa em planadores.

Apesar do seu aspecto nórdico, Pedro sente orgulho em ter sido o primeiro português a atravessar o oceano Atlântico a remos. Metade do dinheiro que conseguiu angariar nesta aventura (qualquer pessoa podia patrocinar quilómetros, a um euro cada) será gasto em material didáctico para a Escola de Ontupaia, em Nacala, Moçambique. Na biblioteca, os alunos têm um único livro: um dicionário de Português.

DIÁRIO DE BORDO

(alguns extractos) 

Dia 53 - Olhar para a frente

7 de Março

Quando regressar, acho que a primeira coisa que quero fazer é sentar-me no sofá e ver televisão. Estou ansioso por saber o que está a acontecer no laboratório e no clube de remos.

Dia 51 - Os dias passam rápido...

5 de Março

Está a tornar-se muito difícil manter-me acordado durante o turno da noite. Sinto que trabalho apenas a 80% e adormeço entre remadas. Julgo que peso cerca de 72 kg, o que ainda é um peso saudável. Ainda consigo comer um monte de calorias. Estou a acabar com as guloseimas ... e agora até como os pacotes de molho de tomate só pelo sabor forte!

Dia 41 - Humanos!

23 de Fevereiro

Por volta das 3 da tarde vi de repente algo branco surgir no horizonte. Antes de percebermos o que se passava, um iate enorme apareceu à nossa frente. Matt chamou-os pelo rádio e eles conseguiram trazer o barco suficientemente perto nós. Estavam a caminho do Caribe, para uma das pequenas ilhas a norte dos Barbados. Como tínhamos vindo a fazer bons progressos, parámos por 15 minutos para dar à língua. Foi incrível ver outras pessoas depois de todo este tempo.

Dia 37 - Sinto-me bem

19 de Fevereiro

Esta viagem é de longe a maior aventura que já fiz na minha vida. Não é o lado físico, é mais o lado mental que é mais difícil do que qualquer coisa que fiz antes. São os turnos repetitivos, 2 horas a remar, 2 horas de folga, basicamente 24 horas por dia. Acho que estou a aguentar bem. O meu rabo parou de perder pele, cortei buracos no assento de espuma para tentar aliviar a pressão. O meu cotovelo também já desinchou.

Dia 33 - Dieta para um remador dos oceanos

15 de Fevereiro

Apanhámos seis douradas à hora do almoço. Todos agora esperam que eu as mate, mas desta vez, no lugar de lhes bater na cabeça, decidi usar uma faca. É mais rápido e, provavelmente, mais humano. Cozinhamo-las com um tipo de molho polaco absolutamente fantástico! Um bom complemento à nossa dieta habitual.

(...)

A noite passada foi bastante chata, mas o céu estava absolutamente fantástico, sem luar. Vi montes de constelações, o meu livro de "star spotting" vem a calhar.

Dia 29 - Céu da noite

11 de Fevereiro

O remo de noite tanto pode ser o céu como o inferno. Por vezes, pode ser praticamente impossível manter-me acordado, como ontem. Estava sempre a adormecer e a cair para o lado. Também estava a alucinar bastante e acordei a tentar fazer coisas com as minhas mãos, como abrir uma garrafa.

(...)

Estivemos perto de um navio há duas noites, falámos pelo rádio e ele mudou de curso. Também vimos um petroleiro maciço hoje. Falámos em VHF e ele passou a cerca de 600m de distância da nossa popa, impressionante.

Dia 27 - Dia bonito

9 de Fevereiro

algo incrível aconteceu, ontem à noite. Quando me levantei para vigiar navios, um peixe voador de seis polegadas [15 centímetros] bateu-me no pescoço e foi cair dentro da cabina da popa. Bem, já se está a ver, ninguém se mete com o Pedronator. Fui buscar a minha faca Stanley, cortei-lhe a cabeça e meti-o num saco de plástico com água, para comê-lo mais tarde.

Dia 23 - Resumo da semana à deriva

5 de Fevereiro

Temos um peixe debaixo do barco, é preto e azul listrado, muito bonito. Tentei agarrá-lo com as minhas mãos, mas é rápido de mais. Ele (ou talvez eles) parece viver debaixo do barco e aparece se eu atirar alguma coisa para a água. Chamamos-lhe Barry. Julgo que também vimos tubarões ontem. Até agora temos visto tartarugas, golfinhos, albatrozes, barracudas, peixes voadores e baleias.

Dia 11 - Manter-se ocupado

23 de Janeiro

Durante os turnos normalmente ouvimos música apenas para nos manter ocupados. Temos um aparelho de som e altifalantes de bordo, e quando há bastante sol para poder carregá-lo ouvimos músicas em comum. Se não, usamos os nossos iPods. Jogamos jogos do tipo 20 perguntas, e também tentamos resolver algumas das charadas e piadas que as pessoas têm enviado. Para passar o tempo durante a noite, e às vezes também durante o dia, escolhemos temas com base nas letras do alfabeto - Hoje estamos no 'I'.

Dia 9 - Onda grande

21 de Janeiro

Tudo no o barco está a funcionar. O único problema que tivemos até agora é o AIS, que morreu. Ele permite-nos ver os outros navios no plotter gráfico, e eles verem-nos. Não é vital, ainda temos luzes de navegações, rádio e um reflector de radar que faz com que pareçamos maiores do que somos. Temos também um sistema de vigia durante a noite.

Dia 8 - Comer...remar...lavar...remar...dormir...

19 de Janeiro

O meu primeiro turno do dia começa às 7h40. Há um par de coisas que tenho de fazer entre cada turno de remo. Cozinhar é o mais óbvio. Comemos alimentos liofilizados, a que é necessário adicionar água. No convés há um simples fogão a gás para ferver a água. Adiciono algumas especiarias e está pronto - perto de comestível!

Palavras-chave   Pedro Salgard Cunha   Português   atravessa   Atlântico   Remos
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Também a remar se vai longe
rositamacomoascobras (seguir utilizador), 2 pontos (Divertido), 23:08 | Sexta feira, 12 de Mar
Hej Pedro

Felicitaçöes por este feito e bravo!

Deve andar cà com um apetite...
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