Considerando que estou do lado de quem tem poder de decisão (que não estou!), aquela que considero ser uma das ideias mais interessante do actual contexto político-económico vai já na sua quinta edição e está mais ousada que nunca.
Grosso modo, a linha de crédito em referência pode traduzir-se no seguinte, a PME (Pequena e Média Empresa) investe, o Banco empresta, e o Estado garante e bonifica.
Esta é a linha da concórdia, e só tem aspectos positivos. Senão vejamos:
- Foi criada para as PME's, mas também se aplica às micro empresas, que têm sempre mais dificuldade em negociar com a banca;
- As empresas da referida dimensão têm acesso a uma linha de crédito bonificado, e em grande parte com garantia dada pelo Estado;
- A Banca "volta a poder dar crédito", correndo um mínimo risco (tendencialmente nulo) de crédito mal parado, e assim garante rentabilidade;
- O Estado agrada às empresas, sustem os bancos, e ainda pode reaver dívidas que tinha por receber (segurança social e finanças).
- Politicamente é possível anunciar novas linhas de crédito e novos milhões de euros disponibilizados às PME's, de forma contínua. Na sua quinta edição foram anunciados 750.000.000€. É sempre bom saber que há muito dinheiro disponível para investimento.
Atendendo a que uma moeda tem sempre duas faces, aqui deixo algumas reflexões:
a) Por se tratar de uma linha de crédito, estamos naturalmente a falar de um empréstimo, e os empréstimos têm de ser devolvidos.
b) Na prática, o Estado deu aos bancos a análise de risco do crédito que ele próprio vai garantir e em parte bonificar. É certo que os bancos irão tentar garantir o recebimento da dívida por todos os meios, em caso de incumprimento, e até podem exigir garantias adicionais aos devedores, mesmo na componente garantida pelo Estado (!). Parece-me que foram estes mesmos bancos que em grande parte estiveram envolvidos nos últimos acontecimentos financeiros nada favoráveis à economia.
c) Politicamente o Estado vai poder anunciar, permanentemente, nova disponibilização de milhões de euros, cada vez que começarem a ser devolvidos os montantes das linhas anteriores, logo se infere que se trata sempre do mesmo dinheiro disponibilizado, isto é, passível de garantia e bonificação.
d) Os bancos têm assim o apoio do Estado, não lhes injectando dinheiro directamente (que a sociedade em geral não veria com bons olhos), mas permitindo-lhe, de igual forma, a sua disponibilização, altas taxas de rentabilidade através de pagamento de juros, e dando-lhes garantia de reembolso. Os spreads e a rentabilidade garantida não são assim tão baixos, para um empréstimo que em grande parte tem uma garantia do Estado.
e) O Estado até pode vir a garantir empréstimos que sejam suporte ao pagamento de dívidas ao próprio Estado. Sim, é possível!
f) Não são conhecidas, de forma clara, as taxas de incumprimento (e portanto também incluído o potencial "erro" de análise bancária) das linhas de crédito anteriores.
Na sua essência, a linha de crédito PME INVESTE é, na minha opinião (no actual contexto político-económico), uma das medidas mais inteligentes (consegue matar vários coelhos, quiçá lebres, de uma cajadada só!), no entanto, não tenho as garantias suficientes que ela será aplicada tal e qual foi idealizada. Não tenho a certeza que o seu autor seja aquele que a está aplicar e assim, eventualmente, não esteja a ser subvertido o processo. Não sei ainda o custo que tal medida teve/terá, nem se foi realizada uma avaliação de impacte, ou delineados mecanismos de controlo e acompanhamento. A resposta a este conjunto de questões poderá ser a diferença futura e o saldo negativo desta linha.
Perguntar-me-ão, se não devia ou podia esta crónica estar noutra secção de economia, que não a de Fraude? Respondo como o outro: "Poder podia, mas não era a mesma coisa!"