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Perceber e respeitar o 'outro'

O referendo só não se justifica sobretudo por ser quase certo que não teria 50% de participação, não sendo vinculativo

7:05 Quinta, 7 de Janeiro de 2010
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Em política, e no comentário político, apresentar realidades por sua natureza multifacetadas, complexas, de forma deturpadoramente esquemática, mesmo maniqueísta, e só ter certezas - constitui, as mais das vezes, uma prova de sectarismo, de pouca visão ou pouca seriedade. Ainda mais quando estão em causa matérias como a dos casamentos homossexuais. Tudo seria claro se se tratasse só da concretização de um Direito Fundamental, o da igualdade (não discriminação em função da orientação sexual), consagrado no art.° 13.° da Constituição. Mas não trata. Como, aliás, o Tribunal Constitucional até já decidiu, num caso concreto. E nem percebo como é possível um dos vice-presidentes do grupo parlamentar do PS defender a tese do Direito Fundamental e, a seguir, dizer (como ouvi, espantado) que o PS não aprovou, na legislatura anterior, uma lei semelhante à agora em pauta no Parlamento com base num "juízo de oportunidade"...

Obviamente contrário, desde sempre, com provas dadas, a qualquer forma de desigualdade ou discriminação, julgo que para os dois elementos (cônjuges, parceiros, o que quiserem) dos casais homossexuais terem os mesmos direitos e deveres dos heterossexuais não é imperioso o "contrato" que formaliza a sua ligação chamar-se "casamento". E há razões, sobretudo de ordem histórica e jurídica, que explicam porque é bem defensável seja outra a designação desse "contrato". Que difere do casamento tradicional porque este é, sempre foi, entre pessoas de sexo diferente, e tem como uma das suas possíveis consequências (não pressuposto ou objectivo indispensável) o nascimento de filhos, etc. Assim, entendo ser não só legítimo como fundamentado o ponto de vista de Diogo Freitas do Amaral (ler pág. 38) e o projecto do PSD de "união civil registada", se respeitar aquela igualdade - e que seria lamentável se alguém as caracterizasse com os epítetos de retrógrados, reaccionários, ou similares...  

Por outro lado, e sendo certo que me bati pela inclusão do direito de petição e dos referendos na Constituição muito antes de lá estarem, como uma das formas de concretizar a indispensável maior participação democrática dos cidadãos na vida do País: a) em abstracto, entendo que o referendo até poderia ser o caminho mais indicado para a aprovação da lei; b) fico muito satisfeito por uma petição ter recolhido 90 mil assinaturas, o que cumpre sublinhar e se reveste de iniludível significado; c) embora seja ponderoso, o argumento segundo o qual a consagração do casamento homossexual já constava dos programas eleitorais do PS e do BE, e por isso quem neles votou já manifestou a sua concordância a tal respeito, não me parece decisivo: votar num partido não quer dizer aprovar todo o seu programa, quer porque em geral os eleitores nem o conhecem, quer porque se assim fosse não teriam ninguém em que votar, e a abstenção atingiria uma percentagem astronómica...

Em síntese e conclusão, não podendo abordar muitos outros aspectos pertinentes, este é um daqueles casos em que tenho muitas dúvidas sobre muita coisa. Excepto uma: as pessoas e os partidos com posições diversas têm estrita obrigação de compreender e respeitar "o outro", de não fazer desta questão uma guerra ou um conflito que divida mais a nossa sociedade. Mas, com todas as dúvidas e sem o poder fundamentar como desejaria, sempre quero dizer que:

1) embora o Parlamento tenha toda a legitimidade para decidir (não é esse o problema), só entendo que o referendo, em concreto, não se justifica, sobretudo porque, face às experiências anteriores, é quase certo que não chegaria aos 50% de participação, não sendo vinculativo. E entendo que, neste caso, deve prevalecer a decisão do Parlamento, mesmo que não coincida com a maioria dos votos do referendo; 

2) embora, sendo os efeitos os mesmos, a diferença se situe apenas na semântica, este simples facto pode bastar para que os próprios "contraentes" se sintam discriminados, ou que alguém os tente discriminar - e só por isso admito a uniformização da designação "casamento".

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Ao Sr. Lightning Bird
minoninha (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 12:02 | Sexta, 8 de Janeiro de 2010
Caro Lightining Bird,

O casamento civil não é religioso... Aliás, ele existe mesmo em contraposição a uma coisa tão inconcreta como o casamento religioso. Não percebo o seu argumento...
Acha então o Sr. que por eu gostar de mulheres (gosto de homens também, mas como deve concordar uma mulher é mais jeitosinha) não sou digna de ter o que o Sr. tem?
E quer dizer, se não fosse a Sra. Rosa Parks em 1955 a recusar-se ceder o lugar no bus a um branco, os pretos (desculpem se ofendo alguém, mas para mim é tão natural como me chamarem fufa - coisa que até nem sou, sou bi) deveriam ainda sentar-se nos lugares do fundo? Ora, realmente, a Senhorita Parks fez uma pressão do camandro na consciência global, não deveria ter cedido ao seu desejo egoísta...!
Talvez seja realmente melhor ficarmos encolhidos, como vocês homofóbicos gostam, e esperar que daqui a 50 anos as coisas continuem iguais.
Meu caro, perceba que a mudança social é uma inevitabilidade independente da pequenez de espírito do que chama consciência global.
    Re: Ao Sr. Lightning Bird   
Lightning bird (seguir utilizador), 1 ponto , 18:47 | Sexta, 8 de Janeiro de 2010
Sensato, mas...
Lightning bird (seguir utilizador), 1 ponto , 16:36 | Quinta, 7 de Janeiro de 2010
Concordo, mas a questão é que o capricho exacerbado por parte da comunidade homossexual no sentido de um direito social, ultrapassa o próprio direito social individual como cidadão e exige um reconhecimento que se impõe à própria consciência global do País. Uma coisa é pedirem um lugar, protecção e ajuda oficial na sociedade contra uma discriminação social que a proposta de "união civil registada" já serve plenamente. Isso é ponto assente e têm direito a tal, inclusivamente para protecção contra todo o tipo de fascismo obtuso e moralista. Mas arrogarem-se a exigir um reconhecimento do seu próprio tipo de vida a um nível ético-espiritual, onde o 'casamento' toma lugar como instituição religiosa, é já passar para uma licenciosidade disfarçada de direito, que ousa sobrepor-se à própria consciência global. Ninguém exige aos homossexuais não o serem, e tenta-se cada vez mais compreender a sua realidade, mas a homossexualidade também não se deve impor à própria sociedade arrogando-se simplesmente normal. Para a caracterização de normal, envolve todos os cidadãos, toda a população, todo o povo, e legalizar esse 'casamento' via poder governamental e parlamentar à revelia da maioria representativa da população em geral, é precisamente impor uma moral homossexual. Ora, quem se queixa de discriminação, pode na realidade também estar a impor uma discriminação individual mentalmente para com o sistema inteiro, apesar de ser uma minoria. E é isso que o Governo está prestes a aprovar.
O "outro"
Olá (seguir utilizador), 1 ponto , 23:39 | Quinta, 7 de Janeiro de 2010
Os textos de José Carlos de Vasconcelos são de certo modo lacónicos, mas sempre densos. Sente-se que dizem ou podiam dizer mais do que aquilo que se lê, pelo que são, nesse sentido, apreciáveis. Gostava no entanto de deixar aqui duas ou três reflexões soltas, (pois não há tempo para aprofundar): 1 - O 'outro' aqui a perceber e respeitar não é tanto o opositor político, do PSD por exemplo. Esse 'outro' é o outro do outro, o outro desse outro, o outro de nós todos, o outro da sociedade inteira, a saber, o beneficiário, as beneficiárias e os beneficiários, da medida generosa que os deputados vão votar amanhã, e perante a miséria do qual, das quais e dos quais, os eventuais deslizes de linguagem mais não são do que epifenómeno quase normal acometido no ardor da luta pela sua libertação. 2 - Afigura-se-me que o motivo essencial pelo qual o referendo não devia ser levado a efeito é que, se fosse, a aspiração dos homófilos a terem a possibilidade de se casar seria irremediavelmente recusada, o que não convém: a sociedade não tem o direito de mutilar as pessoas nos seus afectos mais profundos, dos quais não podem prescindir pois lhes são consubstanciais. 3 - Ninguém quer fracturar a sociedade. Era só que mais faltava. Mas a afronta feita aos homófilos é ignóbil, ignominiosa, é como uma espécie de assassinato moral: vivem, mas é como se morressem todos os dias, anos a fio, a vida inteira. Ora isso não pode ser. Ainda bem que alguém agora lhes dá a mão. Aparentemente sem quebrantos...
    Re: Pequena reflexão absolutamente acessória   
Olá (seguir utilizador), 1 ponto , 23:49 | Quarta, 13 de Janeiro de 2010
O PS traiu
vguerra (seguir utilizador), 1 ponto , 19:19 | Sexta, 8 de Janeiro de 2010
O PS traiu os portugueses e espero que venha a ser sériamente castigado por isso.Quem estava contra o casamento gay teria de votar PSD, no racíocinio desonesto dessa cambada..
    Re: O PS traiu   
D.Lobo (seguir utilizador), 1 ponto , 21:53 | Quinta, 14 de Janeiro de 2010
Já o Poder nas minhas máos ?
D.Lobo (seguir utilizador), 1 ponto , 22:45 | Quinta, 14 de Janeiro de 2010
Comessava já tudo de Principio e náo me calarei ?
A Mais B é um espétaculo 5 estrelas ,
A sua síntese agrada-me, O ponto de vista de Diogo Freitas do Amaral
muito mais . (HH)
  pode passar a censura.
8 comentários
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