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Diários de Viagem

Pelas areias do Médio Oriente [4]

As águas e as areias do Sinai. COM FOTOS

15:52 Terça, 24 de Agosto de 2010
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Pelas areias do Médio Oriente - Pelas areias do Médio Oriente [4]

Quando o autocarro se aproxima de Dahab, na península de Sinai, contávamos com quase 24 horas de viagem. Há quase um mês no Egito, onde nos habituámos a ser rudes com os vendedores e a ignorar as suas técnicas agressivas de venda, pudemos finalmente baixar a guarda e desfrutar de alguns dias relaxados na costa do Mar Vermelho.

 

Pelas areias do Médio Oriente - Pelas areias do Médio Oriente [4]

Paraíso para os mergulhadores mais experientes, Dahab atrai, essencialmente, os apaixonados pelo mar e pelos recifes de coral. Um curso de mergulho seria possível, se tivéssemos tempo, mas como não era o caso, decidimos experimentar o snorkeling. Os recifes de coral que circundam Dahab são ecossistemas riquíssimos, a antítese do que temos encontrado um pouco por todo este país - o deserto. Recheados de vida, os corais podem ser admirados a poucos centímetros de profundidade graças à limpidez e transparência das aguas. Ao contrário daquilo que tínhamos visto em Hurghada, onde o turismo de massas destruiu os corais, aqui o recife está bem preservado e as agências de viagem tem o cuidado de sensibilizar os turistas para a preservação da biodiversidade deste ecossistema frágil.

 

Pelas areias do Médio Oriente - Pelas areias do Médio Oriente [4]

Dahab cresceu em torno de uma aldeia beduína, junto ao mar e, em poucos anos, transformou-se numa estância turística para viajantes independentes. No entanto, estes não fomentaram a construção de resorts junto ao mar, tal como em Sharm El-Sheik ou Hurghada e, por aqui, a localidade ainda se mantêm genuína. Basta caminhar alguns metros na direção oposta ao mar, ou um pouco mais para Norte, para percebermos que a vida dos beduínos continua intacta. As cabras circulam pela povoação, as crianças brincam nas ruas, os homens rezam nas mesquitas e a vida decorre com normalidade. Os rapazes e raparigas mais audazes aventuram-se a nadar nos recifes, enquanto os irmãos mais velhos ganham a vida a transportar turistas de camelo para os locais de mergulho. De manhã, fazem com os camelos o percurso em direção às praias e à noite regressam à povoação. A economia local ganhou com o turismo. Não com o turismo de massas ou assente em turistas endinheirados. A localidade soube desenvolver-se à custa do turista com menos recursos económicos. Soube encontrar um equilíbrio entre o desenvolvimento e a manutenção da sua identidade.


Na península de Sinai, perto de Dahab, encontra-se o monte Sinai, aquele em que se supõe que Moisés tenha recebido do Senhor os dez mandamentos da lei que regeria o seu povo durante os séculos seguintes.


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Existe uma tour organizada por qualquer agência local que consiste em subir ao monte de noite (tal como Moisés, mas não ficando lá tanto tempo como ele!), assistir ao nascer do sol no cume e regressar à sua base, onde se visita o mosteiro de Santa Catarina, alegadamente o mosteiro cristão em funcionamento mais antigo do Mundo. Não podíamos deixar passar esta oportunidade e, entre umas caminhadas pelos canyons branco e colorido e uns mergulhos nos recifes do "Blue Hole", decidimos empreender mais esta aventura.

Se a nossa ideia era ter uma experiencia mais ou menos solitária, de modo a poder apreciar o local e a sua história, depressa vimos que não ia ser nada assim. Depois de duas horas de viagem num mini-autocarro, com um total de 11 pessoas, chegàmos a base do monte. Dezenas de turistas sobem a montanha ou preparam-se para a subida. Dezenas de beduínos tem camelos estacionados ao longo da estrada para levar os turistas mais preguiçosos até à parte final da subida, 700 degraus até ao cimo, sendo os japoneses os clientes mais assíduos. A subida é gradual, com várias paragens, mas difícil, pois estamos já cansados das caminhadas desse dia. Três horas depois chegámos ao topo. Cinco barracas vendem comes e bebes a poucos passos do cume, vendedores gritam para atrair turistas sedentos ou com fome. Alugam-se cobertores e colchões para ajudar na espera do nascer do sol, só dai a duas horas. Tínhamos trazido os nossos sacos-cama, levámos dois colchões para o cume e, como fomos dos primeiros grupos a chegar, arranjámos um bom local. Metemo-nos nos sacos e fomos dormir...

Pelas areias do Médio Oriente - Pelas areias do Médio Oriente [4]

Pelos menos tentar, pois passado pouco tempo começou a chegar uma torrente de turistas, principalmente de nacionalidade russa. Depois de algum sono sobressaltado, começaram a notar-se as cores da alvorada, mas o fresco da madrugada não convidava a sair do saco! Por fim lá nos aventurámos a tirar muitas fotos, que no entanto não fazem jus a beleza da paisagem circundante. As montanhas próximas estão iluminadas de um laranja forte, fazendo as delícias do impulso carregador no gatilho (da máquina...) da Carla! Só aí tivemos noção da quantidade de pessoas presentes no cume, mais de uma centena, mas um dia calmo segundo o nosso guia!

 

Pelas areias do Médio Oriente - Pelas areias do Médio Oriente [4]

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A descida foi feita pelos "Degraus do Arrependimento", o caminho supostamente feito por Moisés na sua subida e descida do monte. A paisagem é fenomenal, pelo caminho vão-se vendo locais com história bíblica e no final da descida esperamos um pouco pela abertura das portas do mosteiro.

Pelas areias do Médio Oriente - Pelas areias do Médio Oriente [4]

Após mais um banho de multidão russa (constituída na sua maioria por fieis da Santa Catarina), lá entrámos no mosteiro. A estrutura do mosteiro (muralhado) é bastante interessante, mas só uma pequena parte está aberta ao público. Contém uma pequena igreja, uma mesquita (!) e uma biblioteca com ícones e alguns dos manuscritos cristãos mais antigos que sobreviveram, dizendo-se que só é ultrapassada neste aspeto pela Biblioteca do Vaticano. Finalmente, como não podia deixar de ser, pudemos fotografar o suposto descendente do arbusto em chamas pelo qual o Senhor se fez conhecer a Moisés. De volta ao autocarro, mais duas horas de tentativas de dormir um pouco para restaurar energias.

 

Pelas areias do Médio Oriente - Pelas areias do Médio Oriente [4]

Concluindo: se quiserem ter uma experiencia engraçada, admirar paisagens bonitas e visitar um mosteiro interessante, não hesitem. Mas se for para terem uma experiência espiritual ou contemplativa, esqueçam. O monte já não é o mesmo de Moisés, e ele próprio, com certeza, escolheria hoje outro local para falar com o Senhor!


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