O País vive esta situação extraordinária: tendo problemas muito graves, aqueles a quem, em primeira mão, compete resolvê-los contribuem para agravá-los. Sobretudo criando, potenciando e aproveitando mal-entendidos, divergências, conflitos, em particular entre si, em vez de os (tentar) esclarecer, sanar, superar. O que se verifica a todos os níveis: não só entre partidos, o que, infelizmente, é menos anormal, mas entre polícias, magistraturas, serviços da administração pública, até órgãos de soberania!
Depois, os media encarregam-se, bem, de noticiar e comentar, como é seu direito e dever; ou, mal, de amplificar, com falta de rigor e/ou relevo excessivo; ou, pior ainda, de cair no sensacionalismo, se não quase na invenção.
Tudo isto contribui para inviabilizar um clima de confiança, a que se refere José Gil (pág. 28), que, de par com a "visão de Portugal", nos permita sair do buraco, como acredito possível. O que é especialmente lastimável quando implica Presidente da República, Governo ou primeiro-ministro, deputados.
Ora, nestes últimos dias, voltou a assistir-se a aflorações de tal estado de coisas, com Cavaco Silva a usar uma formulação que podia ser entendida como uma pequena "farpa", ao responder a uma pergunta sobre o casamento de homossexuais; mas que também podia não ter essa intenção, e de qualquer forma representou apenas a expressão de um ponto de vista, do qual boa parte dos portugueses partilha.
E com um vice-presidente do grupo parlamentar do PS a verberar o Presidente, sem justificação bastante e sem "necessidade" nenhuma.
Porquê e para quê?
De facto, além de ser contrário ao interesse do País, só uma para mim óbvia falta de clarividência política pode fazer com que Cavaco e Sócrates, o Governo ou PS, de qualquer forma se hostilizem. Porque, mesmo na estrita e estreita perspectiva de um interesse político imediato, isso é mau para todos. Sobretudo para o Presidente e o chefe de Governo. Quem for ou parecer hostil, adverso, não compreensivo face ao(s) outro(s) é que fica a perder.
Só quem é cego não vê que o País precisa de uma pacificação política.
Além disso, não se compreende o que pretende o PS quando, por um lado, alguns seus dirigentes defendem que o Presidente deve "falar", subentendendo-se que para meter a Oposição na "ordem", no que toca, pelo menos, ao Orçamento; e, por outro, se queixam quando Cavaco diz o que não lhe agrada. Aliás, é um flagrante erro do PS dramatizar e apelar à intervenção do Presidente. Nem está em causa o regular funcionamento das instituições democráticas, nem até ao momento há nada que justifique uma sua intervenção pública sobre o que tem ocorrido no Parlamento. E quando se grita que há lobo quando (ainda?) não há...
O PSD oscila entre os queixumes e a barafunda. Desde as mais altas e respeitadas personalidades do partido até aos medíocres que só existem à sua sombra, todos estão de acordo quanto à gravidade da crise e à extensão dos danos. Segundo dois dos seus prestigiados fundadores, Eurico de Melo e F. Ribeiro da Silva, os "bons combates por ideias e projectos" estão a ser substituídos "por mesquinhos confrontos de clãs, que nem ao menos se distinguem ou se afirmam por alternativas políticas claras".
E aqui está o ponto essencial: pode haver um Congresso extraordinário, que agora está em pauta, mas de nada servirá se não houver uma definição e clarificação política inequívocas. Isto é: ou o PSD se assume mesmo, com todas as consequências, como o "partido social-democrata" que o seu nome diz ser, ou abjura a social-democracia, como na prática vem fazendo ao aceitar, inclusive, ser classificado como um partido de direita. Neste caso, até deve mudar de nome (voltar ao PPD inicial?), como vários partidos comunistas fizeram por esse mundo fora.
PS: O reeleito presidente do Supremo Tribunal de Justiça disse várias coisas interessantes no discurso de posse, que gostaria de sublinhar, embora não estando de acordo com algumas delas, em particular com as respeitantes ao jornalismo e a um seu eventual novo órgão "regulador".