Vão longe (e ainda bem) os tempos dos emigrantes portugueses remetidos para as bidonvilles dos arredores de Paris. A língua portuguesa ganha crescente direito de cidadania em França e no mundo
No ano em que nasci, Manuel Alegre viu a sua (nossa) pátria derramada na gare de Austerlitz: "Minha pátria sem nada/sem nada/despejada nas ruas de Paris", como escreveu num dos poemas mais belos do livro A Praça da Canção. Era o confronto do poeta com a tragédia de um povo deliberadamente mantido analfabeto e supersticioso, a desaguar humilhado numa Paris que, um ano depois, queria ser realista e exigir o impossível.
Agora façamos de conta que estamos num filme e apliquemos o separador: "Paris, 40 anos depois". Flanando pelas lojas da moda, com os meus companheiros de viagem, somos discretamente seguidos pela curiosidade da jovem vendeuse. "São portugueses?", pergunta finalmente, com sotaque brasileiro contaminado pelo francês materno. E desfia, finalmente, a história do seu fascínio pela nossa língua, que aprendera numa escola em Paris, seduzida pela Bossa Nova com que fora embalada em criança.
"Vous êtes portugaise, madame?" Oui. "Un moment, s'il vous plaît". À procura de um vestido especial para uma ocasião ainda mais especial, sou solicitamente atendida por uma empregada que chama uma colega luso-descendente, capaz de conversar comigo no meu próprio idioma. É uma mulher elegantíssima, a família originária do norte de Portugal, com quem falo longamente sobre o ensino da língua em França, as férias dela e até - imagine-se- o gosto demasiado clássico dos franceses em matéria de sapatos. Nessa mesma noite, convidada por um amigo espanhol residente em Paris, fui ouvir Mísia. E vi minha pátria, orgulhosa e universal, nas ruas de Paris.
A 18 de março abriu em Lanzarote a Casa e a Biblioteca José Saramago. Crónica de Francisca Cunha Rêgo
Hei de ter esta mágoa para sempre. De cada vez que abrir os livros, de cada vez que ler um texto, de cada vez que as suas palavras - gravadas sob tantas formas - chegarem até mim. De cada vez que uma fotografia me passar por debaixo dos olhos. Nunca o entrevistei. E a essa mágoa juntam-se outras, aquelas que ficam nas perguntas que não vamos mais poder fazer: "Já leste o último Saramago?", "Quando sairá o próximo romance?", "O que disse o Nobel sobre isto?" ou "Qual será o dia em que vem à Feira do Livro?". Há nove meses que não podemos dizer nenhuma destas frases. Há nove meses, o tempo de uma gestação, que Saramago partiu, levando com ele todas as palavras, como alguém disse nas cerimónias fúnebres em Lisboa.
N'O Ano da Morte de Ricardo Reis, Saramago escreveu que nove meses é o tempo que leva "para que os vivos se esqueçam dos mortos" e precisamente nove meses depois da sua morte - assinalados a 18 de março - inaugurou-se oficialmente, em Lanzarote, a Casa e a Biblioteca José Saramago. "Por muitos nove meses que passem, não o vamos esquecer nunca", disse Pilar del Río na cerimónia de abertura. E fez das suas palavras, nossas.
Nunca vamos esquecer a postura, a visão sobre o mundo, a coragem, as frases certeiras, as vírgulas no tempo certo. Não vamos esquecer o seu olhar sério, muitas vezes duro e ao mesmo tempo sábio. A Casa (assim mesmo, com maiúscula) onde Saramago e Pilar viveram - nos 'intervalos' das mil e uma voltas que deram ao mundo - pode agora ser visitada e descoberta. O caminho para Lanzarote ficou mais curto. O vento da ilha puxa-nos para lá. Longe das mágoas que ficaram, podemos por uns instantes estar mais perto. Fazer perguntas àquele lugar. E se tal não for possível, ao voltar a abrir os livros, ao re-encontrar as personagens, sentir, saber, que nunca nos deixou.
Ouça aqui a música dos Deoilinda, Parva que sou, com boa qualidade sonora e leia a crónica de Luís Ricardo Duarte
Pela primeira vez na vida gostava de ser acusado de plágio. De não escrever este texto e reproduzir integralmente a letra da nova canção dos Deolinda, Que parva que eu sou, da autoria de Pedro da Silva Martins. E gostava de fazer esse plágio porque há muitos anos que uma música não dizia tanto a tanta gente, num país em que a música sempre foi uma arma.
Em quatro minutos, a banda de Lisboa sintetiza as dores de crescimento e as sensações da geração dos licenciados desempregados, da vida adiada, dos estágios contínuos, dos call center em part-time e dos 1000 euros de ordenado que hoje são só 500. "Sou da geração sem remuneração/ e não me incomoda esta condição./ Que parva que eu sou!/ Porque isto está mal e vai continuar,/ já é uma sorte eu poder estagiar.", canta Ana Bacalhau, num vídeo que pode ser facilmente encontrado em blogues e nas redes sociais. "Que parva que eu sou!/ E fico a pensar,/ que mundo tão parvo/ onde para ser escravo é preciso estudar."
Como no romance A Arte de Morrer Longe, de Mário de Carvalho, esta é a descrição da primeira geração que vive e viverá pior que os pais. E quando olha para a frente só vê um futuro sem esperança. Agora, tem a sua música, o seu hino. Mas a ser um hino, será um hino de revolta. Porque quando acabamos de o ouvir ("sou da geração 'eu já não posso mais!'/ que esta situação dura há tempo demais/ E parva não sou!| E fico a pensar, /que mundo tão parvo/ onde para ser escravo é preciso estudar") a ideia não me sai da cabeça. De que estamos à espera? Numa canção semelhante, J.P Simões perguntava: "Poderá uma pobre canção contribuir para a tua regeneração ou só te resta morrer desintegrada?" E eu acrescento: O que vamos fazer, minha geração?
Eu era contra. Convictamente contra. Enviavam-me pedidos e eu fingia que não via. Que não era nada comigo. Que aquilo ia passar. Que iam desistir. Mas a coisa era insistente. Os nomes sucediam-se. Nomes que não via escritos há muitos anos. Caras que, de repente, se tornavam adultas. Os percursos eram variados, as páginas mais ou menos loucas, os links mais ou menos desconhecidos.
Alguns tinham casado, outros já estavam divorciados, alguns tinham filhos, outros continuavam a estudar. E eu a resistir, a dizer que não queria entrar. Havia jantares em que toda a gente me dizia: "Vá, não sejas parva, entra lá que é divertido, vais ver que vais gostar". E eu a dizer que não, que me fazia impressão andar a contar a sei lá quantas pessoas pedaços da minha vida. Que quando queria dizer alguma coisa a um amigo, gostava de lhe telefonar, de o convidar para um programa. Mas há uns tempos não deu para continuar a negar. E lá me rendi ao livro das caras, vulgo Facebook. E, quando há poucos dias, fui tomar café com uma grande amiga de infância que não via há anos, soube que tinha feito bem.
Uma promoção literária que é também uma performance. A brasileira Paula Parisot fechou-se durante sete dias e sete noites numa livraria para encarnar a personagem principal do seu novo romance, Gonzos e Parafusos
"Qual é o limite?", questionava-se Paula Parisot minutos antes de iniciar a promoção do seu segundo livro, Gonzos e parafusos, uma edição Leya Brasil. Não se pense, contudo, que se tratava da costumeira ronda de entrevistas e autógrafos, que percorre um país em ameno convívio com os leitores. Nada disso. Tudo mais radical. Por sua livre vontade, a escritora brasileira fechou-se num apertado e transparente cubículo de três por quatro metros, colocado no meio da Livraria Vila da Fradique, em São Paulo. Isso mesmo: sete dias e sete noites, entre 11 e 18 de Março. Tempo suficiente para encarnar a protagonista do seu romance, a baronesa Elisabeth Bachofen-Echt, que ficou celebrizada numa pintura de Gustav Klimt. Personagem e criadora confundem-se, porque confundidos já estavam quando a autora decidiu escrever este livro. A escrita, como no caso de Hélia Correia (ver pp 10-16), fez-se pela identificação.
Está bom de ver que foi grande a polémica à volta desta performance (documentada no site www.leya.com.br/gonzoseparafusos
). Na imprensa, nos blogues e no bate-boca dos cafés, falou-se em golpe de génio e em golpe publicitário. Mas entre o vouyerismo literário e o sentido de oportunidade, Paula Parisot filia-se naquela genealogia de artistas, que inclui os patronos Joseph Bueys e Tehching Hsieh, que faz de cada criação um acto transformador. Porque o único limite parece ser apenas este: aceitar que a maior obra de arte é a nossa própria vida. E que com ela, ficcionando ou mergulhando na contínua performance, podemos mudar o que nos rodeia e o que somos. Sem convenções, nem postulados. Vivendo os nossos desejos e obsessões.
Hoje abri uma carta que não era para mim. Não é um costume meu. Aliás, acho mesmo um hábito detestável, esse de nos metermos no correio alheio, muito mais na vida alheia. Mas ela estava ali parada, em cima da minha secretária, junto a outras cartas que tinham o meu nome impresso. E a Otília Peixoto, a secretária de redacção do JL, tinha acabado de me dizer: "Tens correio em cima da mesa". Abri a primeira. Fundação de Serralves: dois desdobráveis. Um sobre As Fúrias, um ciclo de conferências sobre imagens e movimentos sociais em Portugal no século XX; o outro sobre cursos de jardinagem À volta dos Jardins do parque. Abri a segunda. Gulbenkian: um convite para a sessão de encerramento do Ano Internacional da Astronomia 2009, dia 17 de Março. Vi o terceiro envelope. Mas não o abri. Fiquei a olhar para o nome do destinatário alguns segundos. Rodrigues da Silva. Três palavras. O nome profissional do José Manuel Amaral Rodrigues da Silva, o Zé Manel, o nosso editor. Depois sorri. E não é que não me lembre dele muitas vezes, tantas vezes, em tantos dias. Mas ver assim o nome escrito, mesmo à minha espera, em cima da minha secretária tem um embate maior. Como aquela vez (e infelizmente sei que não será a última) que ligaram para o meu telefone a perguntar por ele. E eu tive que dizer o que ainda me custa dizer. Tenho saudades tuas, pá! E tenho coisas para te contar, e filmes e notícias e jornais para comentar contigo. Tenho uma coisa que me apetecia dizer-te. Sei que me ias abraçar, como fizeste quando te disse que me ia casar. Sei que me ias dizer que os bebés são todos iguais e que só começam a ter graça quando falam. Sei que no dia seguinte me ias mandar um dos teus postais. Que ias ficar contente por mim. Por nós. E chateia-me andar a abrir o teu correio.
Não sei se esta coscuvilhice é modo de ser português ou humano, mas o certo é que quase todos nós o somos um pouco.
Gosto de me sentar sozinha nos cafés. Escolho uma mesa, peço a bica, um cinzeiro e fico ali num prazer que é só meu durante uns minutos. Mas depois, já mais desperta, começo a perceber os sons que me rodeiam. Reparo nas outras mesas e, inevitavelmente, começo a ouvir a conversa do lado. A consciência pesa-me, e por isso desculpo-me perante mim mesma: preciso de conhecer este país que é meu, como vivem e pensam as pessoas, quais os seus problemas. A curiosidade matou o gato, dizem, mas o certo é que ainda estou bem viva. E vou ouvindo. Partilho sorrisos, contenho-me nas gargalhadas, tento evitar as tristezas e problemas íntimos de cada um. Às vezes, confesso, irrita-me o barulho das chávenas e da máquina do café por trás do balcão, que me impede de seguir o raciocínio alheio. Quase que grito 'Shiuuuu!' quanto estou mesmo embrenhada na conversa. Controlo-me e vou preenchendo com a imaginação esses espaços que ficaram em branco. Quando me vou embora, muitas são as vezes em que a sensação é igual à de quando estive sentada à mesa com amigos: a de que tive uma conversa bestial. E quantas vezes me pus a olhar por alguma janela, para dentro de um casa, a observar as pessoas, os seus movimentos, gestos, posturas. Também aí invento pretextos: estou no estrangeiro, tenho que ver os outros modos de vida, tenho só que me inspirar na sua forma de colocar o sofá e a mesa de café... Mas a verdade, verdadinha, é que tenho curiosidade. De ver os pais a brincar com os filhos ou um casal desavindo, de perceber o que vêem as pessoas na televisão às dez da noite ou de que cor é que os meus vizinhos pintaram as paredes da sala.Não sei se esta cuscuvilhece é modo de ser português ou humano, mas o certo é que quase todos nós o somos um pouco. Há excepções, claro, mas no dizer popular são elas que confirmam a regra. Se calhar é daquela ordem, que repetida até à exaustão, já ficou gravada no subconsciente: pare, escute e olhe. Refere-se a atravessar a rua, mas é possível que o contexto - que tem tendência a ser desprezado - não tenha ficado tão bem gravado quanto o comando em si. E quem nunca o disse que atire a primeira pedra: "Quem me dera ser mosca para ouvir aquela conversa".
Estava eu sentado no McDonalds da Charneca da Caparica... Modéstia à parte, é um bom começo
Estava eu sentado no MacDonalds da Charneca da Caparica... Modéstia à parte, é um bom começo. Tem logo graça. Se fosse uma anedota, provavelmente, estavam já com um sorriso nos lábios. É uma daquelas frases que nem vale a pena continuar, porque o que quer que se diga só pode perder graça. Como este texto, que começou tão bem, e agora já está a descambar.
Estava eu sentado no MacDonalds da Charneca da Caparica... a partir daqui tudo pode acontecer. Porque a graça está em que existe efectivamente um MacDonalds na Charneca da Caparica, que é uma localidade de nome curioso, o que torna a existência da loja de hambúrgueres, por si só, caricata. A frase, sem mais nada, é um retrato mordaz da região e do país. Isso digo eu, apesar de não me ficar nada bem dizer, uma vez que sou o autor da frase.
Estava eu sentado no MacDonalds da Charneca da Caparica... e se calhar o leitor não está a achar graça nenhuma a isto e já está a ficar irritado com este texto e a pensar: "Se não tinha nada para dizer, porque é que escreve, porque me está a fazer perder tempo?". Mas eu tenho uma coisa importante para dizer que é...
Estava eu sentado no MacDonalds da Charneca da Caparica... a frase pede para ser continuada. Pede um 'quando'. Devem acontecer mil e uma coisas no MacDonalds da Charneca da Caparica, encontros amorosos, cenas de pancada, crimes, contos de fadas, invasões extra-terrestres. Posso inventar uma história com pickles, com o funcionário do mês, o gerente da loja, a desventura de uma batata frita com medo do ketchup, a forma como os adolescentes sorvem a coca-cola e as crianças devoram o happy meal. Mas em vez disso vou dizer o que realmente se passou.
Estava eu sentado no MacDonalds da Costa da Caparica quando pensei: "Isto dava um bom início de crónica, podia ser para o Par ou Ímpar, uma coisa a fazer lembrar Se Numa noite de Inverno um Viajante, do Calvino, mas com a devida distância". Então, tirei o meu caderno vermelho do bolso de trás, peguei numa caneta e escrevi: "Estava eu sentado no MacDonalds da Charneca da Caparica". E depois levantei-me.
Ver Sofia Loren, aos 75 anos, no musical Nove, ao lado de mulheres infinitamente mais novas como Penélope Cruz, Nicole Kidman ou Marion Cottilard, é uma prova de coragem tão bela como ela o foi nos tempos em que passeava sensualidade em Cannes e Veneza
Num dos mais belos poemas alguma vez escritos em língua inglesa, o irlandês W.B.Yeats exalta o amor que sobrevive à usura do tempo: "Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,/ Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,/Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,/E amou as mágoas do teu rosto que mudava." A leitura destes versos demonstrou-me, há muito tempo, quando o li pela primeira vez, que há apenas duas maneiras de viver o envelhecimento: a angustiada, que cartografa as rugas como um mapa da rota para a morte, e a tranquila, que se adapta aos ritmos da vida como se estes fossem de água.
Desconheço se Sofia Loren, nos momentos de estar a sós consigo mesma, alheia à dispersão do "estrelato" e do desejo dos homens, alguma vez leu Yeats. Mas vê-la, aos 75 anos, no musical Nove, ao lado de mulheres infinitamente mais novas como Penélope Cruz, Nicole Kidman ou Marion Cottilard, é uma prova de coragem tão bela como ela o foi nos tempos em que passeava sensualidade por Cannes e Veneza.
Quando Rob Marshall a convidou para integrar o elenco do seu novo musical, Nove, alegadamente inspirado no filme Oito e Meio, Sofia não hesitou: ela que, durante tantos anos, sonhara com um convite de Fellini que nunca chegou, tinha agora uma oportunidade, única e irrepetível, de se aproximar do universo do realizador. Disse-o à imprensa internacional e avançou sem hesitações para o papel de mamma omnipotente de Maestro Contini (Daniel Day-Lewis). Mais desconcertante ainda: o de uma mamma morta, só visível nos solilóquios de um homem de meia-idade, perdido e carente como uma criança. Amá-la-emos agora, como escreveu o poeta, "velha, grisalha, vencida pelo sono."
Vida de júri não é fácil. Mas este ano a tarefa, nas Correntes d'Escritas, talvez não seja assim tão difícil. Crónicas sobre um mundo paralelo
Não invejo a tarefa que tem pela frente o júri do Prémio Correntes d'Escritas, cujo vencedor é anunciado no próximo mês de Fevereiro, a 24, na abertura do Encontro de Escritores de Expressão Ibero-americana, organizado pela Câmara Municipal da Póvoa de Varzim.
Um relance pela short-list agora anunciada mostra como a escolha é complicada. Uma missão quase impossível: Myra, de Maria Velho da Costa, O verão selvagem dos teus olhos, de Ana Teresa Pereira, A Sala Magenta, de Mário de Carvalho, O Cónego, de A. M. Pires Cabral, O apocalipse dos trabalhadores, de valter hugo mãe, A Eternidade e o Desejo, de Inês Pedrosa, e A Mão Esquerda de Deus, de Pedro Almeida Vieira, nos portugueses, e ainda Rakushisha, da brasileira Adriana Lisboa, Três Lindas Cubanas, do cubano Gonzalo Celorio, e O Mundo, do espanhol Juan José Millás.
Não invejo a tarefa porque dificilmente conseguiria avaliar com imparcialidade este conjunto de digníssimos romances (todos de leitura aconselhada). Sou daqueles que considera O Mundo o melhor livro de 2009 (num ano de boa colheita), e Juan José Millás uma das mais sólidas referências das literaturas hispânicas da viragem do séc. XX para o XXI. É uma convicção mais pessoal do que teórica. Uma espécie de inexplicável identificação com o seu universo que me traz à memória o verso que Raul de Carvalho escreveu sobre Álvaro de Campos: "Aquilo é demasiado meu para ser dele".
Poucos como ele conseguem misturar fantasia e realidade, pensamento e acção, delírio e lucidez, fazendo de cada história, por mais breve (ou longa) que seja, uma inesquecível experiência estética. Não é só o seu poder efabulatório e imaginativo que me seduz, mas também a verosimilhança e (im)probabilidade que ele empresta a cada conto ou romance. Em O Mundo (como em outros livros), pouco importa se o que nos é descrito (neste caso a infância) corresponde ao que aconteceu, mesmo quando ele quer convencer-nos disso. É a vertigem da sua escrita que perturba. E atrai. O mergulho na ausência de limites.
Como Maria José, uma das personagens de Duas Mulheres em Praga, que ambiciona escrever um "romance canhoto", Juan José Millás oferece-nos uma admirável perspectiva nova. Uma outra forma de olhar o mundo. E a Literatura.