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27.º Festival de Teatro de Almada

Palcos de poesia

Conversa com Joaquim Benite, diretor do Festival de Teatro de Almada a propósito da 27.ª edição que se prolonga até 18 de julho

Francisca Cunha Rêgo
12:42 Segunda, 7 de Junho de 2010
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Joaquim Benite
Joaquim Benite
DR
Doze estreias compõem a programação do 27.º Festival de Teatro de Almada, que decorre até 18 de Julho, em diversos palcos de Almada e Lisboa, estendendo-se, pela primeira vez, ao Teatro Nacional de São João no Porto. "O teatro não pode viver sem poesia", afirma ao JL, o diretor Joaquim Benite, justificando assim o facto de a poesia ser o tema desta edição.

JL: A poesia é a grande pedra de toque da edição deste ano. Como surgiu esta ideia?
Joaquim Benite: Há dois anos, quando soube que o Claude Régy estava a trabalhar a Ode Marítima, de Pessoa, contactei-o logo porque percebi que ia ser um grande espetáculo. Quando o vi, no ano passado, em Avignon, fiquei verdadeiramente impressionado: é absolutamente fantástico. De um modo geral, a poesia tem sempre estado presente no Festival, mas este ano pensámos criar, em torno desta peça, mais alguns espetáculos dedicados à poesia. Por outro lado, há muitos anos que acredito que o teatro não pode viver sem poesia. Existe, entre as duas artes, um vínculo nuclear para que aconteça teatro. O lado poético é essencial aos textos teatrais. O teatro é uma transposição poética da realidade, não a realidade em si.

O número de estreias é, mais uma vez, um recorde. Como vê este fenómeno de crescimento?
Por um lado, há a credibilidade que o festival foi criando junto das companhias portuguesas que preparam espetáculos para estrearem connosco e nos propõem coproduções. Por outro, também tivemos um grande aumento das parcerias entre teatros e instituições como o D. Maria, a Culturgest, ou o São Luiz.

Trazem grandes nomes do teatro nacional e internacional. O que destaca da programação?
Tendo em conta as 12 estreias, é difícil destacar, porque implicam sempre riscos. Acreditamos nas pessoas mas nunca se adivinham os gostos do público. Mas há espetáculos que, por si só, constituem acontecimentos culturais. É o caso da vinda de Claude Régy, um dos mais respeitados encenadores franceses, ou da criação do Cabaret Hamlet..., de Matthias Langhoff. Casimiro e Carolina, o espetáculo de Demarcy-Mota é, na minha opinião, o seu melhor. Além disso é o diretor do Théâtre de la Ville e uma figura muito importante do meio teatral. Pela primeira vez, vêm o Daniel Veronese, um grande criador, encenador e dramaturgo argentino e Dave St-Pierre, coreografo canadiano, com um espetáculo polémico e interventivo - Um pouco de ternura, grande merda!.

E dos portugueses?
Acredito que ter a Eunice Muñoz, a Cármen Dolores e a Maria Barroso a dizerem poesia é um acontecimento cultural. Ou o Luís Miguel Cintra dizer, pela primeira vez ao vivo, as canções de Camões que gravou em disco.

É também a primeira vez que o Festival chega ao Porto. Já há planos para se entender a outras cidades?
Posso dizer-lhe, em primeira mão, que para o ano vamos fazer uma parceria com o Festival das Artes, em Coimbra. Depois tentaremos estendermos mais, como foi sempre nossa intenção. Há um crescimento contínuo, que é um sinal positivo, de saúde, de luta, de esforço, de otimismo, de combate à crise.

Nesse sentido, o tema dos Encontros da Cerca - Crise, Cultura e Democracia - não podia ser mais atual...
Revela outro género de preocupações que dizem respeito às políticas culturais, debatidas um pouco por toda a Europa. Claro que as coisas são muito diversificadas. No leste europeu existe uma colossal crise económica, mas em contrapartida há uma enorme tradição cultural. Em Berlim, por exemplo, os bilhetes dos teatros nacionais custam 4 euros. Isso só é possível porque o Estado paga 85% dos orçamentos. Este colóquio tem como ideia básica a de que os conceitos de cultura e democracia não podem ser desvinculados. A cultura exige para o seu desenvolvimento a democracia, mas a democracia também não se pode construir com cidadãos incultos e ignorantes. Combate-se a crise apoiando as atividades culturais e não o contrário.  
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