Leia a opinião de Joana Patrício, Investigadora Cesnova - Faculdade de CSH, da Universidade Nova de Lisboa, e, depois, tire as suas próprias conclusões sobre esta sondagem:
Nas últimas décadas, a sexualidade e as suas várias dimensões, que antes estavam mais ocultas na vida privada, foram, progressivamente, trazidas para a esfera pública, na sociedade portuguesa, evidenciando-se nos meios de comunicação social e nas preocupações de carácter político, cívico ou religioso. Nas relações pessoais acentua-se de forma gradual o reconhecimento da sexualidade e do comportamento sexual como sinónimo de desenvolvimento e de bem-estar individual dos seus intervenientes.
Embora se anuncie esta maior igualdade entre os parceiros sexuais, os resultados do inquérito, assentes nas respostas de 663 pessoas inquiridas, das quais 45,9% são homens e 53,4% são mulheres, mostram que estes vivem a sua sexualidade de forma bastante diferente, transpondo para o campo das práticas sexuais o que é socialmente expectável e aceite nos seus comportamentos: os homens têm uma sexualidade mais activa, ao contrário das mulheres, que indiciam um menor dinamismo.
Esta interpretação deve ser articulada com o que tradicionalmente se espera do homem e da mulher. Durante o seu crescimento e entrada na vida adulta, o homem é induzido a seguir um modelo de masculinidade, cujo carácter tradicional sublinha a sua heterossexualidade, virilidade e competição, características que são validadas entre pares e que o colocam em maior contacto com a sua sexualidade. Pelo contrário, e até muito recentemente, a sexualidade da mulher tem sido omitida, associada a uma ausência de libido ou de prazer feminino.
A existência de uma sexualidade centrada em maior actividade e prazer da mulher tem sido condenada durante séculos.
As respostas dos homens sublinham uma masculinidade assente na virilidade e na heterossexualidade, apesar de os resultados revelarem alguns casos de experiências homossexuais, ainda que residuais. Comparados com as mulheres, ao longo da sua vida, os homens têm um maior número de experiências sexuais: iniciam a sua vida sexual mais cedo, têm mais parceiros sexuais e praticam relações sexuais mais frequentemente. Dado que mais de 65% dos inquiridos e inquiridas estão casados ou vivem em união de facto, e perante uma maioria de mulheres que apenas teve um parceiro sexual, é de sublinhar o exercício da sua sexualidade mais confinado ao contexto da conjugalidade ou do namoro com o marido/companheiro/a, coincidindo relacionamento sexual e projecto amoroso e de vida. Pelo contrário, o homem, reiterando a sua masculinidade, acumula experiências sexuais antes e durante a sua relação conjugal: 60% dos homens tiveram três ou mais parceiros sexuais.
O desenvolvimento sexual do homem contrasta com a vivência das mulheres de uma sexualidade socialmente avaliada como menos positiva, marcada pela falta de informação e desconhecimento, violência e um maior acanhamento em responder a determinadas questões. Embora a maior parte das mulheres e homens diga sentir sempre prazer durante a relação sexual, no caso das mulheres esta nem sempre culmina no seu orgasmo. Este facto poderá dever--se a aspectos pessoais, mas também a constrangimentos sociais que impedem a mulher de conhecer o seu próprio corpo, como, por exemplo, através da masturbação, prática que mais de 60% das inquiridas referiram nunca ter experimentado. Pelo contrário, os homens escapam a este tipo de constrangimento social que inibe a estimulação.
No contexto do casal, e de acordo com os dados, as práticas sexuais parecem beneficiar o prazer do homem. Embora entre homens e mulheres se saliente a reciprocidade na prática de sexo oral, estas praticam-no mais e recebem-no menos. Aliás, as relações sexuais afirmadas pelas mulheres parecem ter um carácter mais tradicional, possivelmente centrado no coito, ou em outras práticas sexuais como, por exemplo, a troca de carícias.
Por último, é de destacar a violência sexual detectada no estudo. A maior parte dos inquiridos/as diz nunca ter sido coagido/a a ter sexo, mas 15% referem ter sido vítimas de "relação sexual forçada", acto criminalizado pela lei portuguesa. Por outro lado, e apesar de a maioria dos inquiridos, e sobretudo inquiridas, parecer não ter alterado significativamente a sua vida sexual por causa do medo em contrair o VIH, entre os que mudaram o seu comportamento verifica-se que os homens passaram a utilizar mais o preservativo. Pelo contrário, as mulheres poderão ter mais dificuldade em introduzir o preservativo na sua vida sexual, colocando a sua saúde em risco. Perante uma maioria de respondentes que vive conjugalmente, a introdução do preservativo poderá suscitar sentimentos de desconfiança no casal.
Os dados do inquérito mostram que a sexualidade praticada por homens e mulheres assume contornos muito diferentes que assentam no que é socialmente expectável para ambos obstáculo que só poderá ser abolido no contexto da relação sexual mais igualitária.