A crise que vivemos demonstra que os níveis de risco nas grandes instituições financeiras não foram reduzidos e, pelo contrário, foram aumentados
9:07 Sexta, 5 de Março de 2010
Partilhe este artigo:
Nos últimos meses, os mercados têm levantado dificuldades acrescidas em termos de "trading" de curto prazo aos profissionais do sector e aos investidores em geral, levando frequentemente a situações em que as oscilações atingem mais de 1% em pouco tempo, e fazendo com que os stops sejam atingidos para retomar depois o caminho contrário. A análise técnica, instrumento que reflecte o simples compromisso entre a oferta e a procura, tem sido pouco eficiente em resultado de movimentos que se podem considerar anómalos.
Ao ler um relatório da empresa americana TAAB penso ter encontrado o motivo das minhas dúvidas quanto aos méritos da análise técnica no investimento para o século XXI.
O problema (porque disso se trata), envolve 2% dos intervenientes no mercado e chama-se "high frequency trading", ou negociação de alta frequência.
Segundo o TAAB Group, o "trading" algorítmico nos Estados Unidos representou 70% do volume negociado em 2009 e teve origem em 2% das empresas de corretagem e de investimento. Nos Estados Unidos, existem cerca de 20.000 empresas neste sector, mas só 2 % representam os tais 70% do volume.
"High frequency trading" são sistemas informáticos que actuam em milionésimos de segundo, tendo por base modelos quantitativos, para intervir nos mercados de acções, e futuros. Estes sistemas computorizados são capazes de "ler" os preços do mercado e transmitir milhares de ordens por segundo (não é erro), introduzindo, cancelando e reintroduzindo ordens consoante as alterações do mercado, sem intervenção humana.
Estes sistemas configuram, no nosso entender, manipulação de mercado, pelo menos por quatro razões:
1 - O investidor tem que pagar o "feed" da bolsa para ter preços em tempo real. Independentemente de ser já uma das maiores aberrações o investidor ter que pagar para obter as cotações que se estão a fazer antes de poder negociar, a realidade é que quando esse preço lhe chega, ele já deu origem a intervenções de 2% dos participantes do mercado, que puderam actuar nos tais milionésimos de segundo. Existe manipulação quando alguns intervenientes no mercado beneficiam de condições especiais.
2 - Estas empresas utilizando "high frequency" tiveram 21 mil milhões de lucros em 2008, o que demonstra claramente que existe uma vantagem competitiva. Todos se recordam como a Goldman Sachs levou a tribunal o seu antigo programador Aleynikov por roubo de segredos de "trading", porque acredita que, se a sua concorrência tiver acesso à mesma programação a sua vantagem competitiva com origem na velocidade e eficiência das ordens seria diminuída de forma significativa.
3 - Na verdade, a velocidade de negociação destes sistemas distorce a realidade do mercado, sendo possível agora de modo electrónico fazer aquilo que foi proibido manualmente a "traders" e investidores, ou seja, o lançamento e posterior anulação de ordens no sistema, por configurar manipulação de mercado. Como referimos, um sistema deste tipo pode introduzir e cancelar milhares de ordens por segundo.
4 - A velocidade é ainda um factor de manipulação, porque permite aquilo que se designa por "front running". Este é dos pontos mais importantes porque aqueles que colocam ordens no sistema para fecho de posições de compra ou de venda estão expostos ao risco de mercado antes de receberem a confirmação da execução, enquanto os que dão liquidez ao mercado colocando ordens para comprar ou vender estão sujeitos ao risco de verem as suas ordens ficarem no mercado enquanto o preço se afasta. A velocidade dos sistemas de "high frequency trading" tem como objectivo permitir que as suas ordens sejam executadas antes, das ordens daqueles que não têm essa capacidade.
O pior é que os sistemas de "high frequency trading" podem vir a tornar-se ainda mais conhecidos por razões piores. Alguns participantes indirectos com sistemas de "high frequency trading" (hedge funds, por exemplo), fazem-no através de "clearing members" (instituições membros das bolsas com capacidade para liquidar), entidades que são responsáveis pelos "tardes" executados nas bolsas através da sua associação às câmaras de compensação. Assume-se que nestas condições existam estruturas de gestão do risco, quer ele seja de crédito quer ele seja de negociação, como forma de segurança. Existem dois tipos de acordo com estas instituições: o acesso supervisionado (sponsored access) e o acesso não supervisionado (unfiltered sponsored access). O sistema com filtro é obviamente mais lento que o outro e é por isso certamente menos utilizado.
Com o intuito de manter ou obter negócio em período de crise, muitas serão as instituições tentadas em facilitar, até porque não existe regulamentação sobre este assunto.
O risco existe se por qualquer razão o sistema ficar "maluco" (trata-se de um algoritmo) por motivos técnicos. Apesar dos participantes serem responsáveis pela integridade dos seus sistemas, a realidade é que a todos os níveis em todos os sectores já houve perda de informação ou adulteração de bits e bytes.
Nos mercados é conhecido o erro de 2002 da Bear Stearns que com uma ordem de 4 mil milhões fez baixar o índice Dow Jones em 100 pontos quando a ordem era "só'" de 4 milhões.
Em 2007, na Morgan Stanley, uma compra de 10.8 milhões foi transformada em 10.8 mil milhões. Sempre que existe um erro deste tipo são negociados muitos outros milhões de títulos por simpatia com o movimento original, porque são induzidos nesse erro.
A crise que vivemos demonstra que os níveis de risco nas grandes instituições financeiras não foram reduzidos e, pelo contrário, foram aumentados como comprovam os resultados dos grandes bancos de investimento Americanos.
Tal como eu que não entendo nada do negócio da Bôlsa de Valores e de capitais e das respectivas especulações,também a maioria das
pessoas,isto é a maior parte da população de qualquer País,não entende nada destas «jogadas«que de vez em quando provocam as
tais chamadas crises económicas.Será que nas Bolsas de Valores,a presença da estátua de Mercúrio que é o Deus do Comércio e dos
Ladrões,exerce alguma inspiração ou influência na conduta dos
galifões especuladores da Alta Finança que condicionam o nível
económico-financeiro do País?!Eu sei que a Banca(os Bancos) e os
Banqueiros,é que téem a chave da Economia e como tal,condicionam
a Política.E com o Liberalismo Económico e o Livre Mercado sob o lema do «salve-se quem puder«são os Poderosos Mercadores que
dominam com o Poder do Dinheiro,pois por dinheiro,há quem venda a honra e a consciência.
Eu não creio que sejam os computadores que erram,como alguém
costuma dizer,que a culpa foi dos computadores.Para mim,que sou
leigo na matéria,o computador é uma máquina maravilhosa mas muito complicada.Eu limito-me a ler as Notícias na internet e a trocar correspondência com os amigos e família via Messenger e
Skype e claro está a escrever os meus comentários.O que consta
é que há gente com conhecimentos técnicos sôbre a electrónica dos
computadores que consegue até roubar dinheiro por essa via.
Muito bom este artigo sobre as ordens ''flash''. Oportuno seria também falar sobre as dark pools criadas pelos grandes bancos de investimento. Só o nome ''dark' já diz muito do que são'
Ao ler este artigo fico com uma sensação "dejá vu".
Questionam-se aqui coisas como as "flash orders" ou comenta-se a existência de "dak pools", tanto uma coisa como outra vivem num espaço cinzento de falta de regulação, que pode vir a ter consequências nefastas.
Isto levanta mais uma vez o problema da regulação (ou falta desta!) que esteve na base do desenvolvimento de um vasto conjunto de produtos financeiros geradores da mais gave crise financeira do últimos tempos - aquela que ainda estamos a viver!
Os regualdores do mercado têm vindo a demonstrar uma total falta de capacidade em acompanhar o desenvolvimento deste, criando situaçãoes em que coexistem: excesso de regulação para as situações ou produtos financeiros conhecidos e após a comprovação de que estas podem ter efeitos perniciosos se não forem eguladas, com a total ausência de regulação das novas situações ou produtos financeiros.
Na verdade aquilo que deveríamos ter era uma maior capacidade de regular as novas situaões e/ou produtos financeirios e um menor zelo em regular as situações mais dominadas tornando o seu funcionamento menos burocrático.
Não se admirem se um destes dias tivermos uma crise no mercado de capitais resultante do impacto de umas destas actuações que ainda se encontram na tal área cinzenta da ausência de regulação.
Não podia ter sido mais oportuno este artigo que já tinha lido, mas com o que aconteceu hoje no mercado americano lembrei-me logo de si. Houve mais de 12 titulos que vieram a 0 para depois voltarem ao que estavam em 10 minutos. Se isto não é manipulação o que precisam para provar manipulação?