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Rui Vieira

Uma voz na Literatura

Vozes no escuro, já nas livrarias, é o terceiro romance de Rui Vieira, um escritor a quem mais do que a história importa a frase, o paciente trabalho sobre as palavras. E depois de ter escrito aos quatro elementos, entrando no convento e nas vidas das "monjas desnudas", perde-se agora no labirinto do Centauro. E aqui publicamos já um parágrafo desse novo livro que começou a escrever em Agosto

Apanhou-o em cheio a crua história de uma ordem de monjas do século XIX que para expiar os pecados mortificavam a carne não com silícios, mas entregando o corpo ao inferno, deitando-se com velhos, doentes e andrajosos, aqueles a quem até as prostitutas recusavam. Relia Alexandra Alfa, de José Cardoso Pires, quando deu com a alusão a essas "freiras desnudas" que lhe tinha passado despercebida na primeira leitura. "Descobre-se sempre muito mais quando se relê um livro", afiança ele. Contactou a revista alemã Der Spigel, a que se referia o romance de Cardoso Pires e conseguiu o artigo, em que buscou mais pormenores. A história interessou literariamente a Rui Vieira, até porque a ideia de vocação há muito que lhe assaltava o espírito e queria ser matéria de um livro. E foi. Vozes no escuro (edições Nelson de Matos), diz do que vai dentro de um convento, duas vezes devastado por um incêndio, e da alma de uma noviça, enclausurada numa cela para expiação. Numa trama narrativa complexa cruzam-se destinos femininos e a história das tais monjas, que o escritor deslocou para o século XV, com esteio nos quatro elementos - fogo, água, terra e ar. Uma estrutura que potencia as ideias de pecado e purificação, culpa e redenção, que atravessam o romance, que não procura, mas também não evita o território da religião. "Gosto de histórias que se passam dentro da cabeça das pessoas e a vocação é nesse sentido um tema sem limites", justifica.
A vocação de Rui Vieira é a frase. Mais do que contar uma história, quer escrevê-la, o que não é de todo a mesma coisa. Conhece o prazer dessa diferença, sempre que se senta para escrever, sempre noite dentro, sempre à mão, sempre com uma caneta de aparo e tinta permanente sobre as folhas de papel branco. O gesto pode já parecer arcaico, mas Rui Vieira explica-o pela natureza da sua própria escrita. É que escreve parágrafo a parágrafo e relê tudo, uma e outra vez, sempre que recomeça a escrita. Às tantas, vai sobrepondo notas sobre notas à margem, remissões, setas, rabiscos e sinaléticas várias. E gosta de o fazer sobre o papel. Só quando um capítulo fica pronto, o passa a limpo ao computador. Paralelamente, vai acompanhando a escrita num caderno à parte, onde aponta ideias, hipóteses para resolver um ou outro problema que a narrativa impõe ou mesmo, numa fase inicial, o desenho do próprio romance. A "espinha dorsal" da narrativa é para ele fundamental. "Quando começo um romance, sei sempre qual será o fim", garante. "Pelo caminho, deixo correr a narrativa, as personagens vão aparecendo, mas a estrutura do texto fica assente no princípio". É assim demorada a sua escrita. Vozes no escuro foi escrito e reescrito ao longo de mais de dois anos. E é preciso que um livro já esteja a caminhar para o seu fim para subitamente se insinuar a história de outro. Rui Vieira está, desde Agosto, a escrever um novo romance, no "labirinto do Centauro", como ironiza. Desta vez, será um thriller, em torno de um psicopata, que já lhe deu para ler muito tratado de psiquiatria.
Rui Vieira, 43 anos, não é daqueles que declaram que sempre quiseram ser escritores desde pequeninos. E se é justamente "de pequenino que se torce o destino", como canta Sérgio Godinho, ele não dá crédito a tais manifestações de precocidade literária. Ele simplesmente queria ser cientista, ainda que caprichasse nas redacções e que se aplicasse na leitura, "devorando" As aventuras de Sandokan, de Emílio Salgari, ou de Os Cinco, de Enid Blyton. Também nunca foi dos que começam a ler Eça ou Homero aos cinco anos. Cada leitura no seu tempo. O cheiro dos livros impregnou-lhe, porém, a infância, já que a mãe trabalhava num alfarrabista. Os pais - a mãe, uma 'torguiana', o pai um 'aquiliniano' - ainda são alfarrabistas, com uma livraria, Vieira de seu nome, na Rua das Oliveiras, no Porto.
Não foi em vão que encheu os pulmões dessa atmosfera livresca, uma poalha antiga de papel e palavras que lhe ficou em depósito nalgum bocado de alma ou de cérebro, onde se sedimenta a escrita. E, no fundo, Rui Vieira sabia que um dia seria escritor. Era uma questão de tempo ou, como adianta, de "maturação" do próprio processo da Literatura. Já andava na casa dos 30 e levava umas largas centenas de livros lidos, quando se sentou à secretária e começou a pôr a sua escrita em dia. Tinha feito o curso de Engenharia, trabalhou numa fábrica do sector energético, antes de mudar para o ramo dos serviços, sendo hoje director da banca. Não tinha esperado sentado. Escreveu uma primeira história, a que deu um nome, Milénio, e um destino, o caixote do lixo. Não ficara satisfeito, mas deu a si próprio uma segunda oportunidade. A escrita já se tinha tornado uma coisa "séria". E escreveu Guardador de almas, com que se estreou em 2005. A seguir, publicaria A eternidade noutra noite e recentemente saiu o terceiro romance, Vozes no escuro. Não os une uma temática, nem parecem indiciar preocupações recorrentes. O que há neles de comum é a própria escrita: "A fragmentação, os parágrafos, a pontuação". São marcas diferenciadoras e reveladoras de um "perfeccionista" confesso. "Gosto de pôr vários tempos no mesmo parágrafo. E, por outro lado, os parágrafos aparecem recuados. Desde muito miúdo que me esquecia sempre dos travessões no discurso directo e como os meus últimos livros são escritos na primeira pessoa e essa foi a forma que encontrei de o assinalar, como se fosse um atropelo da personagem sobre si mesma", adianta. "Não me agrada chamar-lhe um estilo, mas tento manter essas marcas. E procuro sempre uma construção da frase que permita passar de uma personagem para outra, sem ter que fazer pontuação. Gosto de misturar tudo". Contra a corrente, Rui Vieira é dos que não querem facilitar a vida ao leitor, mas dar-lhe algum trabalho. "A minha preocupação é desafiar quem lê", afirma. E puxando os seus galões de leitor, acrescenta: "Quando leio, gosto de aprender e que o livro me prenda não pela história, mas pela forma como a conta". Vozes no escuro tem 230 páginas. Outro dia, dois colegas do escritor conversavam sobre o livro e um deles, irónico, disse-lhe: "Ainda bem que são só 200, se fossem 500, nunca mais acabava de o ler, porque tenho que andar sempre para trás e para a frente". É nesse ziguezaguear entre páginas que se vê a arte de ler. A de escrever, no caso, é frase a frase.

Um parágrafo do novo romance de Rui Vieira:
"Resta-me morrer: reencarnar o Centauro que sempre fui, correr livre até às montanhas de Tessália, saciar-me com a carne que as minhas mãos dilaceraram, vingar-me dos homens que me encurralaram sem perceberem a minha dor, vingar-me destes Lápitas que em nome do Bem e da civilização me mantêm neste labirinto de vida errante".

Maria Leonor Nunes
16:40 Segunda, 29 de Março de 2010
Rui Vieira
Rui Vieira
DR

Duarte Belo

Um fotógrafo na paisagem

FOTOGALERIA Há sempre um Portugal desconhecido que espera por Duarte Belo, que tem feito um exaustivo levantamento fotográfico do país. Mas desta vez, a sua objectiva fixou em imagens a ilha de Santiago, em Cabo Verde e desse trabalho resultou Cidade do mais antigo nome, um livro com poemas de José Luiz Tavares, edição Assírio & Alvin, que será lançado amanhã, quinta-feira, 11, às 18 e 30, na sede do UCCLA, à rua de São Bento, em Lisboa

Qualquer coisa de western havia de acudir ao espírito de quem o visse, solitário, seguindo a linha férrea, as botas arrastando poeiras e resíduos das chulipas, os olhos semicerrados de luz e paisagem a perder de vista. Foram 54 quilómetros, todos palmilhados a pé, sempre seguindo o caminho por onde já não passam comboios. Aqui e ali, a tropeçar nalguma pedra ou nas ervas rasteiras que já vencem o destino desbravado pelo ferro dos carris. Três dias e por certo um par de botas ou bem podiam ser ténis, diga-se em abono da realidade, mesmo que desfavorecendo a metáfora -, sempre a andar pela linha do Tua, de mochila às costas, como é seu hábito, e o olhar a despenhar-se pelo desfiladeiro, cavado do céu ao fundo do tempo. Podia lembrar um cowboy solitário, mas não era nem um caminheiro daqueles que agora põem pés ao caminho para manter a forma física e a cultura geral, em comunhão com a Natureza. Era um fotógrafo andarilho, Duarte Belo, que já gastou muitas solas, percorrendo o país de Norte a Sul, de Este a Oeste, fazendo da sua máquina fotográfica a única bússola.
Do Tua até Mirandela e depois até Bragança, fez por certo umas boas centenas de fotografias, que podem constituir o material de um dos seus próximos livros. E ele já tem uma bibliografia invejável. A edição é a vertente mais forte do seu trabalho que assenta em projectos que vai arquitectando. Gosta de livros e de os fazer. Não será de estranhar, já que, como justifica, cresceu no meio deles. Poderá mesmo dizer-se que são uma questão de berço, pois aparte a biblioteca que lhe forrou os dias desde a infância, é filho do poeta Ruy Belo. A poesia de Duarte Belo escreve-se por imagens, ainda que sejam da sua lavra as memórias descritivas que acompanham as suas fotografias, nos livros que faz.
O último que acaba de publicar, Cidade do mais antigo nome, uma edição da Assírio & Alvim, é uma parceria com o poeta cabo-verdiano José Luiz Tavares. O desafio partiu do poeta e Duarte Belo aceitou com entusiasmo fotografar a ilha de Santiago, em Cabo Verde. "Interessa-me muito uma vez que a Cidade Velha foi fundada por portugueses, em 1460, e ainda existem vários elementos de origem portuguesa, como o pelourinho, o que se relaciona com o trabalho que tenho feito cá em Portugal", adianta. E o que tem feito é um verdadeiro "levantamento do território português", da paisagem ao povoamento. 
Além do "registo documental", na Cidade Velha, Duarte Belo procurou "uma leitura mais interpretativa do lugar". Por outras palavras, quis dar a ver o que era menos evidente, traços que "falem da História, do povoamento, da natureza e da forma como é habitado".
Em certa medida, pesou também o conhecimento dos poemas de José Luiz Tavares sobre a Cidade Velha, ainda que as imagens estejam longe de qualquer intenção ilustrativa. "Gosto de fotografar as coisas pela 'primeira vez', mas tendo a preocupação de responder a algumas questões levantadas pelo texto", diz. Passou uma semana em Santiago e fez à volta de quatro mil fotografias, das quais escolheu as 92 que integram o livro. "A situação da cidade velha, junto ao litoral, o facto de ter uma ribeira com água todo o ano, tornaram muito sedutor fotografar, para tentar captar essa presença, esse contraponto do verde num território muito seco", adianta. De resto, fotografa sempre compulsivamente, de uma "forma intuitiva" e a selecção das imagens, o "crivo", como lhe chama, é depois a sua mais árdua tarefa. "Vou fazendo sequências de imagens, neste caso, tendo em conta a relação com os poemas, e a escolha faz-se por etapas", explica.
Depois de Santiago, Duarte Belo gostaria de fotografar a ilha do Fogo para registar essa "respiração vulcânica da terra", que tanto o impressionou quando recentemente fez um trabalho sobre o vulcão dos Capelinhos, nos Açores. E seguiria de alguma maneira os passos do geógrafo Orlando Ribeiro - outro andarilho que cartografou Portugal de lés a lés -, cuja obra é para ele inspiradora. Registou em livro aliás a casa do geógrafo e com a sua mulher, igualmente geógrafa, Suzanne Daveau e com o historiador José Mattoso, fez uma série de 14 volumes, O sabor da terra, para o Círculo de Leitores. Com a mesma chancela, publicou uma dúzia de tomos de Portugal Património, um trabalho de fôlego que implicou uma dezena de anos de trabalho, cinco no terreno, outros tantos preparando a edição.
Poucos serão os recantos de Portugal que ainda não esquadrinhou. Mas ainda não se dá por satisfeito. Gostaria, por exemplo de calcorrear o maciço central: Serra da Estrela, Serra do Açor e Serra da Lousã. Por montes e vales, sempre a pé, sempre fora da estrada. É assim que gosta de fotografar. Noutros tempos, fazendo alguns troços com a sua carrinha 4L, um granel de rolos e um rol de mapas e cartas militares na bagagem, acampando tanto quanto possível pelo caminho. Nessas expedições, fez mais de cinco mil rolos de fotografias a preto e branco, ao todo 150 mil imagens que tem agora o propósito de trabalhar, não só por questões arquivísticas, mas porque gostaria de criar um site sobre todos os lugares de Portugal, disponibilizando on line toda a informação que foi reunindo ao correr dos anos.
Enquanto preparava A cidade do mais antigo nome, Duarte Belo desdobrou-se noutro projecto, Comboio de livros, sobre a Biblioteca Nacional, e aventurou-se num novo território: a ilustração de um livro infantil, O príncipe urso doce de laranja, um conto popular da recolha de Leite Vasconcelos. Descobriu assim uma outra faceta enquanto artista plástico. É que fez os bonecos em cartolina, pintou-os e depois fotografou-os: uma "trabalheira", como reconhece. Valeu-lhe a prática de fazer maquetas, que ganhou no curso de Arquitectura, mas foi bem mais difícil pôr os seus bonecos de pé do que meter-se pelos mais duros caminhos e atalhos, mesmo dos que deram trabalhos. Sobretudo, as figuras humanas deram-lhe que fazer. Já se sabe, o humano é sempre um quebra-cabeças.

Maria Leonor Nunes
14:00 Quarta, 10 de Fevereiro de 2010

Daniel Blaufuks

Caderno de rascunhos

É sabido que nem tudo o que parece é. Cadernos Blaufuks I, uma edição Tinta-da-China, à primeira vista, poderá afigurar-se um manual de truques de magia. Pura ilusão. Trata-se de um livro de rascunhos sobre a arte de fotografar e as ligações das imagens do fotógrafo com a Literatura ou a Pintura

É um pequeno livro discreto, sem a gramagem e o lustro do papel dos convencionais álbuns de capa dura. E, no entanto, salta à vista, nos escaparates, pela fotografia que ocupa toda a capa: um chapéu, um tomate, uma mão, uma atmosfera acinzentada, um conjunto que lembra Magritte. Uma única palavra dá-lhe nome: Cadernos e um número, um, promete-lhe continuidade. É um caderno sem linhas, lá dentro, só há fotografias de Daniel Blaufuks, sem qualquer texto, sem uma palavra. "A imagem não precisa de texto", justifica o fotógrafo, interrogando-se: "Haverá ainda quem saiba ler uma imagem?". Para ele, as imagens contam histórias, como afirmava ao JL, em 2003, altura em que apresentou na Gulbenkian, em Lisboa, a exposição Collected short stories - E se há uma "leitura da Pintura", por que não uma "leitura da Fotografia"?Neste Caderno de apontamentos fotográficos, lêem-se sobretudo referências da Pintura ou da Literatura - de Magritte ao famoso escriba Bartleby, personagem de um dos mais intrigantes contos de Herman Melville, o mesmo é dizer, os lugares da memória, matéria-prima de toda a obra de Daniel Blaufuks. Mas da primeira imagem que evoca a fotografia Noir et Blanche (1926) do surrealista Man Ray à derradeira tentativa de levitação, corre uma narrativa de simulação e magia. Mas nada na manga: as aparências iludem. "Haverá, aqui, de facto, algum truque?", pergunta, retórico, o fotógrafo, em resposta ao JL. "O Caderno é um pequeno livro de anotações, um livro de trabalho, um esboço, não tem truque", esclarece. E acrescenta, chamando a terreno outro surrealista: "Também Georges Pérec gostava de criar pequenos jogos literários, como receitas de cozinha sem funções práticas".
Também os truques de Blaufuks não têm outro desfecho que não seja a própria fotografia. E a sua potencialidade de ilusão? "A primeira imagem do Caderno é a recriação de uma famosa fotografia de Man Ray em que eu assumo o papel do modelo feminino. É uma ilusão mal disfarçada, mas apenas para quem conhece o original. É uma referência, logo uma memória", diz.
Todas as fotografias deste Caderno são, aliás, "recriações" de um manual de magia, que Daniel Blaufuks encontrou num alfarrabista. Interessou-lhe, adianta, a sua atmosfera cinzenta, mas avança que bem poderia ter sido um livro de jardinagem. A questão era que permitisse o jogo com as referências literárias, pictóricas ou cinematográficas que queria estabelecer. Sem tirar coelhos da cartola, pombas do lenço ou achar na palma da mão alguma carta fora do baralho. Não significa isto desconhecimento do 'ilusionista': "Na era do photoshop toda a fotografia é ilusão e claro que aprendi a fazer todos os truques", assevera irónico. Mas remete o efeito ilusório ao olhar de quem vê ou lê: "Cabe ao 'leitor' decidir como quer olhar. Uma fotografia é uma fotografia é uma fotografia. Tudo o resto é poesia". E acrescenta: "O leitor é convocado. A partir daí o livro é dele. Pode começar pelo início, pelo meio, pelo fim. Pode mesmo tentar encontrar a solução, se é que existe. Pode tentar levitar um copo, como eu o faço na última imagem. É importante ainda existirem coisas que não podemos compreender inteiramente".
Daniel Blaufuks pensa publicar uma série destes "rascunhos" fotográficos, a um ritmo trimestral. Assim as vendas permitam a continuidade do projecto, já que não conta com qualquer apoio. E os 'cadernos' seguintes podem ser "quase tão inexplicáveis" como o primeiro que já está nas livrarias. O fotógrafo tem, aliás, vários livros de fotografia publicados. Começou logo em 1991, com o magnífico My Tangier, resultado de uma expedição à mítica Tânger, ao encontro do escritor norte-americano Paul Bowles - autor de Deixai a chuva cair ou Um chá no deserto, entre outros -, que ali escolheu viver, até à sua morte em 1999. "Gosto de alguns livros de fotografia", diz. "Gosto de os fazer e ver na mão de outras pessoas. Os livros são democráticos. Todos podemos levar um para casa". É o que pede o seu Caderno, sem alarde, nem outro teaser que não seja o das suas desejáveis imagens, todas dispostas ao centro da página, possibilitando também um certo efeito cinético, num desfolhar rápido. "A opção gráfica é a que este trabalho pedia: o senhor Bartleby tenta fazer habilidades nas horas vagas", diz o fotógrafo, invocando de novo as ligações literárias do seu trabalho. E nele, afirma, o processo de feitura das imagens pouco importa: Todos nós temos hábitos. Fotografar, pensar, ler, escolher. Eu fotografo, eu penso".
Soa algo cartesiano e bem se poderia arriscar a máxima "Leio, logo fotografo" ou "Existo, logo fotografo". Tanto pelo facto de ter encontrado na fotografia uma linguagem própria como pela natureza da sua fotografia. Fernando Pessoa, José Saramago, Joseph Conrad, Ernest Hemingway ou Graham Green fazem parte das suas afinidades literárias e estão implicados na sua obra, ao correr dos tempos. A próxima exposição de Blaufuks, a inaugurar a 17 de Março, na Galeria Carlos Carvalho, em Lisboa, intitula-se O oficio de viver e cruza o universo de outro dos autores da sua particular estima, Cesare Pavese. Blaufuks parte da escrita dos diários do escritor italiano para constituir uma série de fotografias, encenações do quotidiano, capazes de reflectir sobre a banal organização dos dias e a um tempo, sobre a própria prática da arte: "A fotografia como exercício
diário, a fotografia como razão para estar vivo. Ter um trabalho para ter direito ao descanso. Sentir-se útil, sentir-se em paz, não desistir", como se pode ler na memória descritiva da exposição. E noutro passo: "A série é composta por trabalhos minimalistas, quase tableaus caseiros da banalidade do quotidiano, encenados propositadamente para este trabalho em espaços recolhidos e com pouca ou nenhuma ligação com o mundo exterior. São peças íntimas viradas para si mesmas, como quem escreve um diário. E quem escreve um diário tem a nítida consciência de que outro o lerá um dia mais tarde. O conjunto de trabalhos, algo diarista, mas que pouco ou nada relata, remete não só para a nossa própria memória pessoal, como igualmente para representações e simbolismos presentes na Pintura e no Cinema e que fazem parte da memória comum da nossa civilização".
A memória é ainda o lastro de outra exposição que Blaufuks irá apresentar, no início de Abril, no espaço Carpe Diem, também em Lisboa. O nome deixa-o desde logo claro: "A memória da memória". Mostrar-se-á um filme, Carpe Diem, sobre a memória do próprio espaço expositivo, e um trabalho em fotografia "A memória dos outros", criado a partir de filmes privados. Ambos os projectos, como adianta o texto de apresentação, "debatem-se precisamente com essa impossibilidade de aceder inteiramente à memória alheia, dado esta ser uma experiência sensorial e espacial, transmitida principalmente através de registos falados, escritos, fotográficos ou fílmicos, logo através de uma memória dessa memória (evocação). Simultaneamente estes dois trabalhos realçam a importância dos arquivos de memórias como um elemento de transmissão e como base essencial para o conhecimento".
Enquanto prepara uma exposição para inaugurar a 2 de Maio, em Essen, na Alemanha, Daniel Blaufuks, que também trabalha em cinema - Black/white e Sob Céus estranhos são as suas primeiras obras - ou em cenografia, além do fotojornalismo ou da fotografia de moda, que marcaram o início do seu percurso, está a montar um filme que rodou na ilha de S. Vicente, em Cabo Verde, uma vez mais sobre a memória, desta feita do próprio cinema, naquela ilha.
E de reter na memória são os Cadernos de Blaufukss. Espera-se que saia na Primavera o segundo dessa colecção de anotações do ofício de fotografar.

Maria Leonor Nunes
10:30 Quarta, 3 de Fevereiro de 2010
Origami - Caderno de rascunhos

Origami

As grandes minúsculas de valter hugo mãe

Não é gralha, nem descuido ortográfico. É mesmo de propósito, tudo em letras pequenas: valter hugo mãe. E não será apenas uma peculiaridade do nome artístico. Nas suas páginas, não se vislumbra uma maiúscula. Não se trata de uma qualquer aversão à caixa alta ou de um qualquer relacionamento traumático com caps lock. É simplesmente uma questão de estilo. 

São muitos os que deitam mão a liberdades poéticas, valter hugo mãe é um caso de "liberdade gráfica". E se aboliu as maiúsculas foi para acelerar a escrita. É o que diz o escritor, que agora publica o seu quarto romance, a máquina de fazer espanhóis, o primeiro na editora Objectiva

Há sempre dois momentos na paginação de um texto de valter hugo mãe. Primeiro, alguém repara que o nome está indevidamente escrito com maiúsculas e põe tudo em caixa baixa. Depois, alguém presume que está gralhado e repõe as caixas altas. É um busílis para gráficos e revisores. Mas o aparente desprezo do escritor, que agora regressa com um novo romance, a máquina de fazer espanhóis, pelas maiúsculas não tem nada de pessoal. É antes uma questão literária, de "limpeza formal do texto". valter hugo mãe acha que as maiúsculas são uma "sinalética" que só atrapalha a leitura. "Simplificando, sintáctica e graficamente, chegamos a uma escrita mais próxima do modo como falamos", justifica. "As pessoas não falam com maiúsculas".

É a simplicidade que procura e está convicto de que usando apenas minúsculas não só o pode almejar, como "acelerar" a própria escrita. E "agilizando o texto" aproxima-o não só do ritmo da fala como do próprio pensamento. "A escrita convencional deita mão de tantos sinais que nos obriga a marcar uma distância permanente entre o que somos e o que o texto é", acrescenta. "Um texto mais acelerado permite uma respiração mais natural ao leitor encurtando essa distância".

valter Hugo mãe não é, de resto, o único a usar apenas minúsculas. Al Berto fê-lo em alguns poemas e foi através deles que tomou consciência dessa "liberdade gráfica". Assumiu-a depois por causa de Ruy Belo: "Numa dada passagem, ele diz que num poema, nenhuma palavra deve levantar a cabeça acima das outras. Levei esta imagem à letra, também por uma espécie de democracia das palavras". Em suma, uma questão de estilo que acaba por "dar coerência" e diferenciar a sua obra, quer na poesia, quer na ficção. Nem uma "graça" para dar nas vistas, nem um capricho ou uma bizarria passageira. "É uma convicção que tenho aprofundado, porque o meu estilo tem que ver com essa propensão para a aceleração, para os textos que correm com rapidez", diz. Aí, pesa também a importância da pontuação: a mínima possível, de modo a não interferir com a velocidade do pensamento e da escrita. E jamais usa reticências. Abomina esses três pontinhos que considera o "excremento da pontuação". "É uma menorização da capacidade de leitura e de compreensão. É o sinal gráfico mais insuportável, porque é um sinal de desrespeito pelo leitor, que trata como se fosse estúpido".

O escritor não ignora os engulhos que a sua opção estilística causa aos revisores e não deixa de confessar uma certa frustração quando vê os seus textos citados com alguma maiúscula. Já em relação ao seu nome, pouco lhe importa. Aliás, no BI assina-o com as maiúsculas da praxe, como qualquer um. "Fora do mundo dos livros, sou um cidadão convencional e até aborrecido", garante. E confessa que a sua caligrafia natural é curiosamente quase toda ela em maiúsculas. Os seus cadernos de notas são a prova real dessa letra grande. 

A cada um dos seus livros corresponde um desses cadernos, onde vai anotando ideias, expressões, palavras, muito antes de se fechar a escrever os romances. Para isso, mune-se de um computador que não o irrite, o mesmo é dizer que não esteja sempre a assinalar erro nas minúsculas e a emendá-lo. A primeira precaução que toma é justamente formatar o computador: "O meu word não me sugere nada, não se pronuncia quando escrevo os nomes das pessoas, das cidades, dos meses em minúsculas. Preciso que me deixe em paz e cada vez mais de estar isolado para escrever". Abastece-se no supermercado de um sortido de conservas de atum e de sardinha, de sopas de pacote e outros enlatados e tranca-se em casa, durante umas semanas. Felizmente, que é aquilo a que se chama de boa boca e melhor estômago e não enjoa tal ração de combate. Concentra-se assim na escrita, espalhando papéis à volta do computador e abre os seus "caderninhos" de escritor.

No caso de a máquina de fazer espanhóis, que agora publica, o caderno era daqueles da Vida Portuguesa, com uma série de objectos, um cavalo e uma pomba na capa. Foi-lhe oferecido por uma amiga e começou a passar para as suas páginas a "energia narrativa" deste novo romance, quando ainda estava a escrever o anterior, o apocalipse dos trabalhadores. A primeira expressão que nele escreveu foi o fascismo dos bons homens, que pensou para título, mas acabou por ser o nome de um capítulo. O título definitivo, a máquina de fazer espanhóis, impôs-se ao correr da narrativa. Foi buscá-lo, de resto, a um dos poemas do seu livro pornografia erudita, de 2007. "Achei que esse meu poema estava a intrometer-se no romance", adianta. Não foi a primeira vez que aconteceu essa contaminação: "A minha poesia é cada vez mais narrativa e a prosa tem momentos profundamente líricos". Há muito que queria escrever a história de um homem de 84 anos, a partir do momento em que a sua mulher morria. "Queria abordar essa temática da terceira idade e levar adiante a preocupação que já vinha dos outros livros que tem que ver com o valor da vida e a inevitabilidade da morte", afirma.

Ainda estava a escrever a máquina de fazer espanhóis quando, num aeroporto, comprou um outro caderno de capas vermelhas, onde já começou a tomar notas para o próximo romance. Desta feita, será mais "excêntrico". Já preencheu umas 40 páginas desse caderno, onde também vai rabiscando uns "bonecos". Mas é outro o papel dos desenhos na sua criação. Servem-lhe para "meditar". valter hugo mãe desenha como quem pensa e o que risca ajuda-o a "decidir e a não complicar".

Esses "desenhos de pensar" são momentos entre os textos e as outras coisas da vida, outras vezes como quem não pensa em nada acabam por ser "ofício de desaparecer". São desenhos "muito depurados", em que se evidencia a "beleza limpa das coisas".

É também limpa, mesmo imaculada, a relação do escritor com o papel. Não admite nem a uma dedada na brancura da folha: "Não consigo desenhar num papel com manchas, marcas ou dobras nas pontas. E tendencialmente procuro um desenho sem um traço de hesitação". "É uma utopia, até porque não sou um artista plástico". Não, mas também: valter hugo mãe é poeta, ficcionista, autor de livros infantis, de peças de teatro e de guiões de cinema, desenhador, letrista e também cantor. E não canta apenas no banho, canta sobre todos os discos, acompanha todas as vozes, mesmo que não saiba a letra de cor, mesmo que desconheça a língua. Às vezes canta mesmo as suas canções, as que escreve e canta para o seu Governo (nome da banda com quem já gravou um primeiro disco). Tudo em minúsculas, tudo em grande.

Maria leonor Nunes
9:47 Domingo, 24 de Janeiro de 2010
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