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GESTÃO DE FRAUDE

Crónica

Observando a sombra

Nova crónica da secção Gestão de Fraude, assinada, esta semana, por Óscar Afonso

Óscar Afonso
8:09 Quinta feira, 2 de Abr de 2009

O estudo e a reflexão académica da problemática da economia não-registada (vulgo economia sombra ou subterrânea) têm sido claramente descorados por parte dos investigadores e dos políticos portugueses. Com este procedimento, desconsidera-se injustificadamente a importância da produção ilegal e da produção oculta (subdeclarada ou subterrânea), sobretudo, mas também da produção informal, da produção para uso próprio (autoconsumo) e da produção subcoberta por deficiências da estatística. Em termos económicos, trata-se de aceitar como consistente a informação estatística (oficial, legal) quando, de acordo com sólidos estudos existentes, se reconhece que essa economia oculta representa 18% do Produto Interno Bruto oficial. Trata-se, em suma, de aceitar que se avalie a actividade económica de forma deficiente, se ignore e se faça ignorar uma parte da realidade social que a todos atinge, com obvias implicações na orientação política.

Para além dos mantos diáfanos do "pudor social", para tal terá contribuído o reduzido número de investigadores portugueses, a complexidade do objecto de estudo, a escassez de fontes de dados e o (artificialmente) longo período de não recessão da actividade económica.

Será de esperar alguma alteração a este nível?

O número de investigadores portugueses não aumentou significativamente, alguns trabalhos divulgados pretensamente sobre a nossa realidade ainda carecem de rigor, o objecto de estudo não se simplificou e também não tem havido alterações significativas ao nível das fontes. Por conseguinte, por estas razões, não serão de esperar alterações relevantes.

Há, contudo, dois novos factores que, suponho, conduzirão ao fortalecimento do estudo e reflexão académica da problemática da economia não-registada em Portugal. Por um lado, o cenário macroeconómico actual e, por outro lado, a intenção e a motivação recente de alguns investigadores, docentes e gestores.

Comecemos pela conjuntura macroeconómica. Portugal é uma pequena economia periférica, muito aberta ao exterior e com uma estrutura produtiva onde escasseia a qualificação. Por esse motivo, a inversão do ciclo económico será profundamente sentida em Portugal. Na ausência esperada de uma resposta global, e da reduzida capacidade de intervenção do nosso país, haverá adaptações mais ou menos individuais às manifestações da crise. Em muitos casos, essas adaptações consistirão em actividades que se processam na economia não-registada. Ora a intensificação do fenómeno não deixará certamente de motivar, sobretudo, a generalidade dos economistas e sociólogos. Como não deixará de aumentar a argúcia de criminologistas, juristas e políticos: ilegalidade e fraude são aspectos correlacionados.

Por outro lado, a crescente sensibilidade pública a estas realidades, a formação em gestão de fraude e a criação de instituições preocupadas com estas problemáticas, como é o caso do Observatório de Economia e Gestão de Fraude (OBEGEF), podem criar alertas sobre esta situação. O Observatório, apostando em saberes diversificados - economistas, gestores, engenheiros, matemáticos, juristas e outros - visa, "promover a investigação interdisciplinar sobre a economia não-registada e a fraude em Portugal", acolhendo todos quantos de forma científica estejam interessados em desbravar este vasto terreno. Aqui deixamos o convite.

No imediato, mas não imediatamente pelas razões acima expostas (complexidade do objecto e dos indicadores, custos), o Observatório propõe-se estimar o peso sectorial, regional e global da economia não-registada em Portugal. Consolidado esse objectivo visa caminhar para uma análise mais detalhada das suas causas e consequências, da sua estrutura o peso económico e social, da relação entre a economia não-registada e a corrupção, do impacto desta no produto, no investimento, nas despesas governamentais e nos fluxos internacionais de bens e factores, no desenvolvimento e nas nossas condições de vida.

É um projecto tão aliciante quanto difícil. Por esse motivo insistimos: estamos disponíveis para acomodar todos os contributos.

Palavras-chave   gestão de fraude
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Estas crónicas
Santos (seguir utilizador), 1 ponto (Normal), 12:16 | Quinta feira, 2 de Abr de 2009
Peço desculpa ao autor, sem menosprezo por esta crónica, o meu apontamento vai para o conjunto das crónicas sobre a fraude, que só hoje descobri.
Considero importante abordar públicamente estas temáticas, fazer com que todos nós nos apercebamos que a economia sombra, como aqui chama, e a fraude fazem parte do nosso quaodiano, sem nos apercebermos que isso tem que ver connosco.
Continuem.
Aborda um assunto importante
Fernando (seguir utilizador), 1 ponto , 21:37 | Sexta feira, 3 de Abr de 2009
Na reunião do G20 um dos assuntos centrais era os offshore. Ouvi a reportagem da TSF e foi com muito espanto que ouvi o economista César das Neves defender que esse era um assunto totalmente irrelevante.
Não sou economista, mas tenho acompanhado os assuntos económicos. Como é possível ignorar um quinto da economia mundial que passa à margem do oficial? Miopia? Incapacidade de ver o que se mete pelos olhos dentro?
Obrigado pelas suas reflexões.
Opinando a propósito
José Gonçalves Cravinho (seguir utilizador), 1 ponto , 17:18 | Quarta feira, 8 de Abr de 2009
Eu também não sou economista nem percebo nada de economia a
não ser a economia caseira.Mas pelo que tenho lido,os Liberais,que constituem a chamada Sociedade Civil dizem que quanto menos
Estado,melhor Estado.Quer isto dizer que se deve deixar correr
o marfim e cada um que se amanhe e quem vier atrás que feche a porta.Mas agora depois dos Banqueiros galifões terem surripiado
muitos milhares de milhões,o Governo,usando o Erário Público do
  Estado ou seja da Nação,acorreu a «nacionalizar» alguns Bancos
Privados.Quer dizer que,segundo a filosofia liberal,o Estado que
ao fim e ao cabo é administrado e dirigido pela élite capitalista
liberal,deve ser a capa que protege as classes dirigentes -Clero
e Nobreza á custa do Povo.Mas no mundo do salve-se quem puder,
a Plebe procura imitar a Fidalguia,e a fraude e corrupção vem do
alto.Para rematar o meu comentário,eu direi:
-Corromper,é portanto adulterar/é peitar,subornar,envilecer/
é depravar,poluir,perverter/contaminar,seduzir,falsificar.
Na Política ou Arte de Governar/e também nas várias Religiões/há os troca-tintas,os aldrabões/que o Povo conseguem ludibriar.
Corrupção a todos os níveis afinal/desde o Plebeu até ao Barão/
desde o Rèpublicano ao Príncipe Real/desde o Pontífice romano ao Sacristão.
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