Uma leitura daquela que foi a estreia literária do escritor inglês Evelyn Waugh
Evelyn Waugh (1903-1966) foi um verdadeiro contador de histórias. Pode até falar-se de uma natural apetência para a escrita. A vontade de escrever e de criar enredos surgiu muito cedo, aos sete anos, quando andava na escola primária, pelo que não espanta uma estreia literária aos 25. O escritor inglês já era uma figura conhecida, depois da frequência da Universidade de Oxford e da publicação, em 1927, de uma biografia de Dante Gabriel Rossetti. Entrou no mundo literário com a convicção de quem queria percorrer um longo caminho. E, na verdade, não perdeu tempo. Declínio e Queda, agora re-editado entre nós, é o primeiro de uma sequência de livros que em pouco tempo animaram as livrarias inglesas. O Jovem Waugh fervilhava em ideias e lançou-se em várias viagens, quer físicas, quer imaginárias. Ler este Declínio e Queda é, assim, um exercício fascinante, porque podemos identificar o magma que depois o escritor mais adulto e maduro desenvolveu, sabendo que em Waugh esse amadurecimento foi muito rápido. Neste romance já encontramos o especial dom para a criação de personagens e para a sátira de costumes, numa crítica social sempre divertida. É a velha aristocracia, decadente e mergulhada nas glórias passadas, que lhe interessa, o que explica, em parte, a popularidade das suas obras, frequentemente adaptadas ao cinema e à televisão.
Mas o objetivo de Waugh não era apenas desconstruir ironicamente o romance burguês. Há uma vontade de perscrutar a Humanidade no seu labirinto, através do protagonista. Este, em Declínio e Queda, já é um herói involuntário, ou melhor, um anti-herói. Ao longo da curva narrativa, com os altos e muitos baixos que o título indica, Paul Pennyfeather não terá de ultrapassar nenhuma provação, nem de superar obstáculos. Com uma resignação mística aceita o seu destino e vê defraudadas as suas expectativas. Primeiro, sendo expulso do Scone College, depois caindo nas armadilhas de um amor interesseiro.
Esta estreia evidencia, obviamente, algumas fragilidades, sobretudo na passagem em que o narrador se dirige diretamente ao leitor, sintetizando a moral da história (pp 120). Por outro lado, privilegia-se acima de tudo a ação, mesmo se improvável ou simples. Mas este Declínio e Queda, em particular no contorno das personagens, no riso que as suas convicções e atos despertam ou na fragilidade que revelam, é feito do talento que, mais tarde, se revelou em todo o seu esplendor em Um Punhado de Pó, Ente Querido ou Reviver o Passado em Brideshead. Ao contrário de Pennyfeather, o percurso literário de Evelyn Waugh fez-se de ascensão e glória.
Se todos os mitos literários têm um livro fundador, Correios assume esse papel para Charles Bukowski. É um bilhete-postal em forma de auto-retrato do escritor enquanto funcionário público
Sobre alguns escritores é impossível falar das suas obras sem falar das suas vidas. Ambas se confundem de tal forma que, por vezes, parecem uma e a mesma coisa. Também ajuda a mitologia que se gera à volta dessa torrente única, o que faz com que nunca se perceba muito bem se essa mistura se deve à vida que levaram ou aos livros que escreveram. É a velha história do ovo e da galinha, que quando aplicada à Literatura se transforma num entusiasmante jogo biográfico e interpretativo. Claro que são muitos os excessos de leitura que esta visão suscita, mas Charles Bukowski, sobre o qual agora falamos, facilita-nos a tarefa. Nesse sentido, a afirmação que surge no final deste seu primeiro romance, Correios, é muito esclarecedora: "De manhã, era manhã e eu ainda estava vivo. Talvez escreva um romance, pensei. E foi o que fiz". De resto, interpretando o espírito do livro, a editora decidiu incluir ao da frase uma fotografia do próprio escritor, tirada na época em que a obra foi publicada, em 1971. É a arte que imita a vida ou a vida que imita a arte?
Não vale a pena deslindar a parangona que desde a antiguidade vem alimentando acaloradas discussões. Até porque Charles Bukowski não nos dá motivos para o fazer. O ponto de partida é justamente a sua experiência enquanto funcionário dos Correios, trabalho que lhe "consumiu" 13 anos de vida. O autor de Mulheres ou A Sul de Nenhum Norte transfigura-se em Henry Chinaski, um homem que gasta sempre mais do que recebe, em parte por causa da factura da bebida. Às vezes, para compor as contas do mês, passa pelas corridas de cavalos, onde engana endinheirados e patos bravos com a sua astúcia.
A astúcia, de resto, é o que mais caracteriza Bukowski. A rapidez da sua escrita não oculta um olhar extremamente atento. Em poucas frases compõe-se uma cena, descreve-se uma personagem, comprova-se um modo de vida que tinha tanto de libertino quanto de libertário. Não há regras para esta existência atropelada pelo quotidiano e à medida que o romance avança torna-se evidente o fosso que separa uma sociedade americana, burocrática e formalista, e o espírito insubmisso deste trabalhador desordeiro. As doses duplas de whisky, os cigarros que se fumam nas situações mais impróprias, as conquistas amorosas com as suas cantigas do bandido, o tudo ou nada do jogo contrastam com um sistema empresarial em que o código postal não permite divergências, tal como os regulamentos, que são reproduzidos no início do livro e ao longo da troca de correspondência entre o departamento de recursos humanos e Chinaski. O autor/personagem, que nasceu em 1920 e morreu em 1994, foi despedido. Não espanta. E saúda-se.
Se todos os mitos literários têm um livro fundador, Correios assume esse papel para Charles Bukowski. É um bilhete-postal em forma de auto-retrato do escritor enquanto funcionário público.
Novo livro do escritor italiano Dino Buzzati acaba de chegar às livrarias portuguesas. O Grande Retarto é uma surpreendente incursão pelos terrenos da Ficção Científica, numa tentativa de captar a essência do ser humano
Na escrita de Dino Buzzati, o fantástico é um dos elementos mais presentes. Os cenários, em vários romances e contos, recordam esses universos impossíveis que deslumbram a imaginação de autores e leitores. Noutros casos, é a descrição do ambiente e o enredo a sugerirem que os limites da realidade foram claramente extravasados. No entanto, apesar desta tendência, são poucas as incursões nos terrenos mais avançados da ficção científica. Interessante excepção é este O Grande Retrato, que acaba de ser lançado pela Cavalo de Ferro, que tem vindo a publicar a sua obra completa. É nele que o escritor italiano melhor revela a sua visão do impacto das tecnologias no futuro da Humanidade.
O início do romance é sintomático da arte poética de Dino Buzzati e faz lembrar a sua obra-prima, O Deserto dos Tártaros. Chamado de urgência ao Ministério da Defesa, um pacato cientista é convidado a integrar um projecto especial. Que terá de aceitar sem saber dos pormenores, nem das condições. O segredo não só é a alma do negócio, é também a condição a que as personagens do autor de Os Setes Mensageiros muitas vezes se sujeitam. Sem dar por isso, Ermanno Ismani, como Giovanni Drogo junto dos Tártaros, vê o seu futuro decidido por outros.
Será então esse segredo a guiar-nos na primeira parte do livro. Dino Buzzati é exímio a gerir as nossas expectativas, prolongando ao máximo o caminho até ao local onde decorre a experiência científica. O suspense, porém, não retira interesse à narrativa, antes intensifica o momento da sua revelação. Isso mesmo se sente quando se entra no complexo militar e iniciamos uma vertiginosa viagem ao centro da alma. Porque é esse o tema central deste perturbador romance: indagar se uma máquina, um programa de computador, um algoritmo ou uma produção artificial conseguirá alguma vez reproduzir o que nos faz humanos. "À sobre-humana sensibilidade e força racional corresponderá também um sobre-humano espírito. Não há-de ser esse dia o mais glorioso de toda a História?", questiona-se uma das personagens. "Nessa altura irradiará da máquina uma potência espiritual que o mundo nunca conheceu, um fluxo irresistível e benéfico. A máquina lerá os nossos pensamentos, criará obras-primas, revelará os mistérios mais escondidos (p. 100)".
Publicado em 1960, quando a ficção científica vivia um novo fôlego, na sequência das duas guerras mundiais, O Grande Retrato testemunha o interesse crescente pela máquina. Não apenas como auxiliar mecânico, mas também como espelho do próprio homem. Ao mesmo tempo, uma potência e uma ameaça. Uma complexa equação que nem a Literatura é capaz de resolver e que Dino Buzzati define como "a misteriosa essência que faz com que cada um de nós seja único no mundo".
São três coelhos de uma cajadada só: Nova Iorque, a inebriante vida de Brendan Behan e argúcia do leitor Enrique Vila-Matas. Motivos suficientes para não perder o novo volume da colecção de Literatura de Viagens da Tinta-da-China
Os bons espíritos reencontram-se, já se sabe, por isso não espanta que seja Enrique Vila-Matas a assinar o prefácio de Nova Iorque, de Breendan Behan, o novo volume da preciosa colecção de Literatura de Viagens da Tinta-da-china, dirigida por Carlos Vaz Marques. É que entre o escritor espanhol e o irlandês, que viveu a maior parte da vida na América, há a mesma sedução pelas histórias que as cidades escondem. Pelos pequenos mistérios que só a vivência plena, sem reservas, consegue desvendar. Hotéis míticos, bares sempre abertos, pequenas salas de espectáculos, segredos bem escondidos, coreografias urbanas e um infindável corpo humano que resumem o espírito de cada lugar. Os dois são dotados desse apurado sentido arqueológico que usam não para desbravar a quietude do passado, mas para surpreender a efervescência do presente. Vê-los juntos no mesmo volume é conciliar o melhor de dois mundos. A força de quem escreve. E a argúcia de quem lê.
O interesse de Vila-Matas em Brendan Behan é fácil de explicar. O autor das peças de teatro The Hostage ou Richard's Cork Leg é daquelas figuras míticas de que é feita a marginalidade literária. Nasceu em 1923 e morreu em 1964, mas nenhuma biografia é capaz de abarcar a multiplicidade das suas aventuras, algumas passadas no Hotel Chelsea, outro lugar de peregrinação literária onde sempre encontrou refúgio. Bebia excessivamente, tal como vivia sem travões, a acelerar pelas ruas e pelos pontos de encontro. Pertencia àquele contingente de irlandeses que gostava de Dublin à distância de quatro mil quilómetros, do outro lado do Atlântico. Emigrou, não sem antes ter pertencido na juventude ao IRA, o que acabou por resultar em prisão, como lembra no romance autobiográfico Borstal Boy. No seu jeito bem mordaz, definia-se como "um alcoólico com problemas de escrita". Sempre tentou ver o mundo ao contrário. Descobrir-lhe um ponto de vista particular. Nova Iorque, segundo apurou Vila-Matas, foi escrito num dos corredores do Hotel Chelsea, já no final da vida. Aliás, corrige no prefácio o autor de Diário Volúvel, "o livro foi ditado, não foi escrito, porque Behan já andava por esses dias espectacularmente bêbado". Talvez esta informação explique o carácter errático da obra, que deambula por temas, num encadeado de histórias sem rumo. O tom é coloquial, à medida que inventaria espaços, episódio, pessoas e escritores, numa galeria de memórias que revelam a essência da cidade que nunca dorme. "Não tenho qualquer receio em afirmar que Nova Iorque é a mais magnânima cidade à face deste mundo de Deus", diz Brendan Behan. E com este livro, de inebriante leitura, contribuiu para o seu mítico estatuto. O melhor mesmo será começar a espalhar a notícia. Porque, como diz Frank Sinatra, "I'm leaving today. I want to be a part of it..."
Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo, é um relato pungente sobre uma infância passada em Moçambique, durante o Estado Novo. Uma autobiografia que tem tanto de individual, quanto de colectivo. Através deste livro, publicado pela Angelus Novus, Portugal pode olhar-se ao espelho
Poucos são os relatos autobiográficos que se publicam em Portugal. A veia memorialística parece não correr na pena dos escritores portugueses, muito menos quando centramos a análise nas antigas colónias. Sobre este assunto, de resto, até a ficção se deixa cobrir por um manto de silêncios e tabus. Se exceptuarmos os romances pioneiros de Helder Macedo, António Lobo Antunes, Carlos Vale Ferraz e João de Melo, entre outros, a par de algumas incursões poéticas e teses universitárias, as vivências nas antigas colónias e as guerras de independência que se seguiram não são temas de revisitação frequente. É por isso que o novo livro de Isabela Figueiredo, Caderno de Memórias Coloniais (Angelus Novus, 176 pp, 15 euros), surge como se de uma novidade se tratasse. Neste seu segundo livro, depois de Conto é como quem diz, a autora relata a infância passada em Moçambique, onde nasceu, em 1963, e que abandonou em Novembro 1975, meses depois da Independência. E se é verdade que Isabela escreve com a sabedoria e a reflexão que a vida lhe proporcionou, é o olhar da criança de 10 anos que mais se destaca.
À semelhança do romance de Paulo Bandeira Freire, As Sete Estradinhas de Catete (uma edição da QuidNovi), a intenção não é julgar os colonos, nem os protagonistas desta história. Aqui, como em muitos outros casos, ninguém será absolvido ou condenado. Até porque compreender um tempo, que também foi o seu, é o principal objectivo deste livro. "Todos os lados possuem uma verdade indesmentível. Nada a fazer. Presos na sua certeza absoluta, nenhum admitirá a mentira que edificou para caminhar sem culpa ou caminhar, apenas. Para conseguir dormir, acordar, comer, trabalhar. Para continuar", lê-se já perto do final. "Há inocentes-inocentes e inocentes-culpados. Há tantas vítimas entre os inocentes-inocentes como entre os inocentes-culpados. Há vítimas-vítimas e vítimas-culpadas. Entre as vítimas há carrascos."
O principal fio condutor de Caderno de Memórias Coloniais é o seu pai. Nele se concentram todas as emoções que Isabela Figueiredo associa ao mundo colonial. É uma filiação difícil, entre o amor e o ódio, que surge como metáfora da relação entre Portugal e os países africanos de expressão portuguesa. Paira também sobre estes textos curtos, publicados inicialmente no blogue O Mundo Perfeito, a ideia de traição. Ao regressar à "Metrópole", numa das muitas vagas de retornados, Isabela Figueiredo fugiu ao destino que lhe estava reservado. A história permitiu-lhe uma vida nova. Um pensamento novo. E reler o passado à luz dessa nova concepção do mundo implicou um corte profundo com o que se viveu.
O que torna esta relação traumática, por vezes mergulhada na culpa, é a constatação que "a partir de certa idade, muito cedo na infância, já somos nós, o que há-de perseguir-nos sempre". As suas raízes estão em África, mesmo que hoje viva num "não-lugar", no vazio que se gerou a partir do momento que entrou no avião que a trouxe para Lisboa. "Os desterrados, como eu, são pessoas que não puderam regressar ao local onde nasceram, que com ele cortaram os vínculos legais, não os afectivos. São indesejados nas terras onde nasceram, porque a sua presença traz más recordações".
Por tudo isto, Isabela Figueiredo não tem medo das palavras. De contar as coisas como elas eram e como as viu. De desenterrar comportamentos e limpá-los do discurso politicamente correcto. E ninguém escapa ao seu olhar conscientemente inocente, em particular a sua família. Sendo uma autobiografia, não foge às memórias fundadoras da sua personalidade. A descoberta da sexualidade, a sua e a dos seus pais, das discrepâncias sociais, da hipocrisia, das infidelidades, dos preconceitos, dos hábitos e costumes, dos passeios e das esplanadas, do Cinema e da Literatura, essa arma de destruição massiva de irrealidades: "O prazer de ler um livro amortecia humilhações, e era muito maior do que o de brincar sozinha com os bichos ou imaginando guerras com as roseiras. Um livro trazia um mundo diferente dentro do qual eu podia entrar. Um livro era uma terra justa. Porque esse foi o problema. Entre o mundo dos livros e a realidade ia uma colossal distância. Os livros podiam conter a sordidez, malevolência, miséria extrema, mas, a um certo ponto, havia neles uma redenção qualquer. Alguém se revoltava, lutava e morria, ou salvava-se. Os livros mostravam-me que na terra onde vivia não existia redenção alguma."
Redenção é, provavelmente, a palavra-chave deste livro. A de uma filha que se reencontra com o pai. E a de um país que, através deste relato, talvez consiga identificar no passado os traumas do presente.
Há obras que, por mais que nos esforcemos, nunca ficarão completas. A de Arquíloco, poeta da Grécia antiga, é uma delas. Leitura dos fragmentos que, através dos tempos, chegaram até nós
Há obras que, por mais que nos esforcemos, nunca ficarão completas. Dos poetas, épicos e prosadores clássicos apenas conhecemos aquilo que conseguiu resistir ao tempo.
Esse é, de resto, um dos fascínios do estudo da antiguidade greco-latina. Quais pacientes arqueólogos literários, os classicistas buscam documentos, traduções, glosas, versões, exegeses, citações, falsificações de textos antigos em todos os cantos nessa grande casa que é o passado, para assim poderem construir um edifício que, não sendo completo, poderá pelo menos aparentar uma solidez suficiente para influenciar a nossa Cultura.
E a verdade é que fomos mal habituados. De Homero, a figura mítica de toda a Grécia antiga, chegaram-nos as duas obras principais, com uma ou outra incoerência. O mesmo já não se poderá dizer de Arquíloco, um dos nomes que, no século VII a. C, marca a transição entre a poesia épica e lírica. Numa edição da Imprensa Nacional Casa da Moeda, lançada em 2008, encontra-se tudo o que se sabe do autor, graças ao estudo e às traduções de Carlos A. Martins de Jesus, da Universidade de Coimbra.
São Fragmentos Poéticos, como o título do volume indica, que mostram como os feitos heróicos (Homero) ou as cosmogonias (Hesíodo) deram lugar a novos temas, novas métricas e novos cantos. Se, na época, o "eu" do poeta já era assumido, ele passa a dominar o poema. Amores platónicos ou vividos, glórias passadas ou pessoais, geografias colectivas ou idiossincráticas, começa aqui a confusão entre realidade e ficção, entre biografia e sujeito poético. Neste contexto, Arquíloco destaca-se por ser um dos primeiros cultores do verso iâmbico, da poesia invectiva, erótica e obscena.
Poeta-soldado, a vida de Arquíloco, que nasceu em Paros, muito provavelmente na primeira metade do século VII a. C., está envolta em inúmeras lendas. A sua morte em batalha, nas lutas contra os trácios, na época das colonizações, fortalece o mito.
No primeiro fragmento do livro, apresenta-se como "servo de Eniálio [outro nome de Ares, deus da guerra] soberano,/ e dos suaves dons das Musas o cultor". Nos poemas seguintes, revelam-se as múltiplas facetas da sua personalidade. Num dos momentos mais curiosos, Arquíloco, com ironia e humor, defende a cobardia. "Com o meu escudo um dos Saios [violenta tribo da Trácia] se envaidece, o que num arbusto,/ arma singular, deixei ficar contra minha vontade./ Mas salvei o coiro. Que me importa esse escudo?/ Deixá-lo! Outro hei-de comprar que não seja inferior (frg. 5)".
Em tudo mais mostra-se moderado (frg. 19), sedutor (frg.23), guerreiro (frg. 114), astrónomo, descrevendo um eclipse da Lua (frg. 122), contra a bebedeira em casa alheia (frg. 124b), autor de fábulas (frg. 168 e 174-85) e, claro, erótico. "O grosso dos fragmentos eróticos que conservamos, muitos deles impossíveis de reproduzir em tradução, constrói um mundo de prazeres (...), plenos de instintos animalescos que comandam o corpo e o espírito", escreve Carlos A. Martins de Jesus. "Todo este fruir violento de sensações, no entanto e porque efémero é tudo na vida, mesmo o sentir, vai redundar na alienação e na aniquilação do sujeito que já não sente nem controla o querer, um homem vencido por um inebriante desejo que perturba o espírito e atrofia os membros".
No entanto, a fama de Arquíloco, e o que deu longevidade à sua poesia, resulta das suas invectivas, versos para denegrir uma pessoa ou uma família, que tiveram origem num ritual religioso, mais tarde instituído como composição poética. "A virgindade perdida, a descrição da mulher madura e sem encanto, a notícia da lascívia pública, o quadro de violação e a sugestão da infertilidade (ou da geração de crias disformes) parecem ser os tópicos desta forma de desonra poética, que tudo indica que andasse de braço dado com os interesses políticos", defende Martins de Jesus.
Em vários versos, a fúria de Arquíloco vira-se contra Licambas, o futuro sogro que voltou atrás com a palavra, desfazendo o casamento com Neobule. Alegoria ou facto histórico, certo é que a pobre noiva viu a sua desonra nas bocas do mundo, atiçada que estava a verve do poeta: "(...) Deter-me-ei ao chegar ao teu jardim/ onde a erva cresce fica a sabê-lo! Neobule,/ que outro homem a tome para si./ Ai! Como está madura! O dobro da tua idade!/ Murchou a flor da sua virgindade/ e o encanto que tinha outrora./ Não tem limites o seu desejo/ e revelou a medida da sua infâmia, louca criatura! (...) Muito mais te quero a ti,/ pois não és desleal nem tens duas caras;/ ela é muito mais fogosa/ e muitos amantes arranja!/ Receio que filhos cegos e prematuros no ardor impaciente possa gerar,/ como fez a mítica cadela (frg.196a)".
E se a obra é incompleta e a biografia do autor difusa, cabe a leitor preencher os buracos vazios. Porque a leitura também pode ser uma forma de arqueologia.
Antes das novidades deste ano, algumas lembranças daquele que ora findou. Trinta livros e outras tantas memórias para mais tarde recordar
Ficção em língua portuguesa*
Caim, de José Saramago (Caminho) Ilusão (ou o que quiserem), de Luísa Costa Gomes (Dom Quixote) Jesusalém, de Mia Couto (Caminho) Jonas, o Copromanta, de Patrícia Melo, Campo das Letras Leite Derramado, de Chico Buarque (Dom Quixote) O Filho da mãe, de Bernardo Carvalho (Cotovia)
O Fim de Lizzie e outras histórias, de Ana Teresa Pereira (Relógio d'Água) Obra completa, de Nuno Bragança(Dom Quixote) Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar, de António Lobo Antunes (Dom Quixote) Rakushisha, de Adriana Lisboa (Quetzal)
Ficção estrangeira*
2666, de Roberto Bolaño (Quetzal) A Montanha Mágica, de Thomas Mann (Dom Quixote) A Sombra do que Fomos, de Luis Sepúlveda (Porto Editora) A volta ao dia em 80 Mundos, de Júlio Cortazar (Cavalo de Ferro) O homem sem qualidades - Vol. III, de Robert Mussil (Dom Quixote) O Mundo, de Juan José Millás (Planeta) O que é o quê, de Dave Eggers (Casa das Letras) Os Cadernos de Pickwick, de Charles Dickens (Tinta da China) Os Cantos de Maldoror. Poesias I e II, de Conde Lautréamont (Antígona) Somos o esquecimento que seremos, de Héctor Abad Faciolince
Ensaio e não ficção*
A Segunda Guerra Mundial, de Martin Gilbert (Dom Quixote) Caderno Afegão, de Alexandra Lucas Coelho (Tinta da China) Dia D, de Antony Beevor (Bertrand) Disse-me um adivinho, de Tiziano Terzani Entrevistas da Paris Review (Tinta da China) História de Portugal, coordenação de Rui Ramos (A Esfera dos Livros) O Mago, de Fernando Morais (Planeta) O Mundo Perdido do Comunismo, de Peter Molloy (Bertrand) O Velho Expresso da Patagónia, de Paul Theroux (Quetzal) Os Suicidas do Fim do Mundo, de Leila Guerriero (Quetzal)
* por ordem alfabética
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os discos de 2009, por Manuel Halpern, e aqui
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