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Página inicial  >  Opinião  >  António Lobo Antunes  >  O vestuário dos pássaros

O vestuário dos pássaros

"Talvez estes artiguinhos não sejam assim tão vãos, posso usá-los como forma de diário"

7:16 Quinta, 7 de Janeiro de 2010
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Ontem havia uma única mesa por ocupar num dos restaurantezecos onde como: apenas ao sentar-me dei conta que ficava diante de um espelho e portanto almocei comigo. De vez em quando olhava-me com estranheza de ser aquele e não nos falámos, claro. Vi--me a mastigar, a mexer nos talheres, a pegar no copo: um desconhecido para mim: as mãos, os gestos, a cara opaca: não tínhamos nada a dizer um ao outro, de que raio de assuntos podíamos conversar? Nem sequer o observei com estima e a companhia não me foi especialmente agradável. A pergunta sincera

- Sou isto?

a resposta sincera

- Não me interessa nada ser isto

e a surpresa de ser isto o que os outros conhecem. Por um momento pensei em experimentar um sorriso para verificar como sorrio, desisti. E a minha vida apareceu--me tal como é, sem importância alguma: se aquele ali morresse que diferença me fazia? E, conforme sucede cada vez mais nos últimos tempos, a tentação do nada. Um cheiro de Natal por toda a parte: quero passá-lo sozinho: compro umas coisas para me alimentar, fico aqui com um livro, não me aborreço sequer. Nunca me aborreço desde que não haja espelhos à minha frente. Não escrevo nada: as crónicas que sairão para o ano estão entregues, o texto que sairá em 2011 a ser batido no computador para continuar a corrigi-lo: não há espaço nas páginas para mais emendas de tão alterado que está, o pobre. Quando o acabar três ou quatro meses sem fazer seja o que for, à espera. Depois decido. O futuro não me preocupa, sob esse ponto de vista. Sei que a minha obra vai sobreviver ao tempo e não sinto o menor orgulho, a menor vaidade nisso. O reconhecimento, os prémios, o tarantantã que acompanha o êxito é-me igual ao litro. Aos quinze, aos vinte anos desejei-o imenso: quero lá saber dele hoje em dia. A varanda da sala onde junto estas palavras está fechada e contudo parece--me existir vento nas coisas. Uma suspeitinha de sol. Um homem veio contar a luz, foi-se embora: terá sido ele quem deixou o sol aceso? A cara tão gasta quanto os sapatos, o blusão cinzento, a mão a anotar números num bloco. Um soslaio às estantes, intrigado. Diz

- Bom dia

e desaparece, um

- Bom dia

mecânico, vazio. Dias vazios. Nem compridos: vazios só. O sol apanhou as folhas de uma árvore e demora-se por ali, a cortina acende-se um bocadinho. Que silêncio. Este andar tem-me feito companhia, é amável, parece tomar conta de mim. Obrigado, andar. Há momentos em que uma pessoa se sente reconhecida aos objectos pelo simples facto de estarem connosco. A mesa, por exemplo, o sofá. Chegam catálogos das editoras, com a minha fotografia e o relambório do costume. Na minha cabeça fragmentos dispersos de imagens, diálogos. Perto, calhamaços sobre literatura alemã medieval, não sei o que me deu para me interessar por ela. Um autor, em 1400, a propósito do ofício de escrever: o meu arado é feito do vestuário dos pássaros. Talvez estes artiguinhos não sejam assim tão vãos, posso usá-los como uma forma de diário, eu que jamais fiz diário algum: sou uma agenda de argolas, vou passando as folhas: já passaram quase todas, sobra um restinho. Mas a gente consegue fazer batota, se for preciso, e passá--las todas de repente. De qualquer maneira passarão de repente. Andei um pouco pelo país, nestes últimos tempos. Quartos de hotel. Pessoas.Assinar os livros que fiz com o vestuário dos pássaros. Depois permanecia um bocado na cama, vestido, a fixar o tecto. Desde que me conheço

(que expressão tão idiota)

levo que tempos de nariz no tecto enquanto, na ideia, gira um caleidoscópio de cores, luzes, frases, emoções. Um senhor, uma ocasião, a abrir-me a porta do carro quando eu saía da escola

- Como te chamas, menino?

careca, num risinho esquisito: nunca corri tão depressa para casa. Se os meus pais tivessem trinta anos, ou nem isso, como nessa época, era o que eu fazia agora. De calções, e com a mochila dos livros e dos cadernos às costas, desatava a correr até ao portão do jardim, subia as escadas para o quarto de banho e lavava o que, da minha cara, podia estar ainda do risinho esquisito. Saiu todo, com água fria e sabonete, porque, graças a Deus, nem um rastro do senhor no espelho do restaurante. Já não é mau, pois não?

Palavras-chave  antónio lobo antunes, crónica
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Sabe Doutor
a.dúvida (seguir utilizador), 2 pontos , 11:19 | Quinta, 7 de Janeiro de 2010
Eu também tenho um caderno de argolas... porque gosto de escrever, palavras simples, mas que me saem da alma. Deixo algumas páginas em branco, sobretudo naqueles dias em que as pessoas me decepcionam... e a coragem me abandona, a coragem de afrontar a dor, de viver com ela, de nunca deixar que os outros se apercebam dela e de, ainda assim encontrar alegria na vida...
São páginas vazias, que ficarão eternamente em branco. Ah Doutor, também consigo fazer a sua batota, folhear depressa o caderno e fingir que não as vejo.
Os seus artigos são tão profundos, para mim. Obrigado.
Sara
almoça, consigo próprio...
Apolo (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 7:09 | Sábado, 9 de Janeiro de 2010
Os espelhos não nos mentem, são os nossos críticos, não perdoam, apontam-nos tudo: todas as rugas, até nos contam os cabelos brancos um por um, e são exigentes, reparam sempre se estamos bem penteados se a camisola está do avesso... também não tenho muita paciência para os aturar, só olho para eles antes de sair à rua, porque lá, há críticas piores que as dos espelhos, há pessoas insuportáveis: - porque não pinta o cabelo? - porque está triste? -
ha!!! está diferente! quase que não a conhecia! está sempre em casa?...
E agora até os e-mails, me aborrecem, anulo-os todos!!! dizem-me contantemente, que uma mulher depois dos 60, para se sentir feliz tem que ter um amante! vejam só, o tamanho das parvoíces que me enviam! para não falar de outras!... isto são disparates brasileiros que enviam a uma das minhas primas e ela reenvia para mim, deve achar um piadão pensando que eu os leio todos os dias, e que fico toda enfadada! é preciso muita paciência para aturar tudo isto, não há sossego!!!
Por isso o DR. almoça consigo próprio, é uma boa táctica.
Cumprimentos DR., tenha um " happy new year".
Os Riscos da Pena da Alma
manuelrod (seguir utilizador), 1 ponto , 15:08 | Quinta, 7 de Janeiro de 2010
ao António com amor.
É quando calo os olhos à noite, e a alma me desperta, que as penas da alma me-ditam, me pintam de dentro para fora e de fora para dentro, em cascata, em rio, quadro após quadro, parecem todos ligados, todos seguidos, todos feitos de tintas às cores, fluem, resvalam, pingam, pintam tela após tela, rios de cores às riscas, baldes de tinta de cores vivas, pinto planícies de emoção, montanhas de raiva, lagos vermelhos, balões amarelos, precipícios fundos de negro, escadas, corredores, labirintos, em tantos eus me vejo, Qual Tabuada Decifrada, qual sou eu mesmo, essa pincelada não, antes por ali, essa pena não, antes a verde, não, não são telas ! é mesmo um filme pintado pela pena da alma.
luís

mais 1 vez adorei!
orlandoulisses (seguir utilizador), 1 ponto , 15:29 | Quinta, 7 de Janeiro de 2010
Mais 1 cronica genial ,adorei o inçio!:
´´Ontem havia uma única mesa por ocupar num dos restaurantezecos onde como: apenas ao sentar-me dei conta que ficava diante de um espelho e portanto almocei comigo. ``
aproveito para fazer publicdade do meu twitter:
http://twitter.com/orland...
O repouso do lavrador
arturgoncalves0 (seguir utilizador), 1 ponto , 15:24 | Sexta, 8 de Janeiro de 2010
Aqui e acolá e nas entrelinhas, a prosa do nosso cronista confessa e fala do repouso do guerreiro. Pela primeira vez, julgo, o António diz-nos que há momentos na sua vida em que quase nada faz, nem observar as "gaivotas pequeninas". Os espelhos dão-se a estas coisas: observarmo-nos e determo-nos em nós próprios e descobrir como nos podemos sentir estranhos à nossa imagem. Aquele sou eu? E cai-mos na tentação de nos outrarmos. Porque somos pitosgas ou porque o vapor do banho da manhã embacia os espelhos e o hábito pentear é realizado com a "grade" dos nossos dedos num local qualquer da nossa canto, negligenciando ou dando um tom descuidado que, até confessemos, nos faz sentir bem: nós próprios. Propriedade de nós próprios. Esta atitude,por vezes, faz-nos sentir outros quando nos confrontamos com o espelho, não que não gostemos de nós, não!...o nosso narcisismo não nos deixa chegar a esse ponto mesmo quando reiteramos a não aceitação da nossa imagem...é natural e legitimo querermo-nos manter meninos, ao fim da força, a quem alguém nos cola no olhar "um sorriso esquisito" que não a água mas os sonhos tratarão de eliminar. É esta meninice que nos permite e faz escrever coisas tão cândidas, como " o meu arado é feito do vestuário dos pássaros".
uma suspeitinha de sol .
N.Q.S. A.M.D. (seguir utilizador), 1 ponto , 23:44 | Sexta, 8 de Janeiro de 2010
toque de asas invisíveis.
O vento que surge das folhas
I. L. Andrade (seguir utilizador), 1 ponto , 0:46 | Sábado, 9 de Janeiro de 2010
Mas existe sim vento nas coisas, ainda que a varanda da sala esteja fechada, e tudo ao redor pareça silêncio. Existe sim o vento que surge das folhas que deixam de ser brancas ao deslizar das palavras impregnadas de sentimentos. Palavras que se encostam em outras palavras e juntas se libertam do abandono e criam imagens que fazem vento, muito vento. Uma ventania de prazer denso, intenso, vida (re)construida, vida rememorada de maneira especialmente antuniana: bela, não importa a paisagem do instante.
Simplicidade e Profundidade
observateur (seguir utilizador), 1 ponto , 21:57 | Quarta, 13 de Janeiro de 2010
Dr. a sua maneira de retratar as coisas simples, simplesmente profundas.
Hoje nao lhe interessa prémios nem galardoes, porque chegado aqui, à idade que tem - que viva muitos anos - verificou que tudo isso é uma futilidade, mas digo-lhe caro Dr./Escritor, para mim há muito que merecia o Nobel.
Dei-nos sempre a alegria de lermos a sua profundeza de Alma.
Cumprimentos
Olho Clínico
tenho medo dos espelhos...
isabelinha (seguir utilizador), 1 ponto , 21:44 | Quinta, 14 de Janeiro de 2010
Dantes gostava ver o meu reflexo...era eu mesma. Pensava eu. Mas era uma luz de mim. A luz apagou-se...
O Verdadeiro
conde abranhos (seguir utilizador), 1 ponto , 18:00 | Segunda, 18 de Janeiro de 2010
È um escritor muito poderoso, consegue transcrever como ninguém o que vai na alma.Não tenho talento para descrever um personagem desta dimensão.
PÓR DETRÁS DO ESPELHO QUEM ESTÁ ?
margarida douwens (seguir utilizador), 1 ponto , 8:52 | Domingo, 4 de Abril de 2010
Começo por uma frase de um Fado de Amália: por detrás do espelho quem estás de olhos fixados nos meus ? É isso Dt quem estará por detrás do espelho ? O Dt vê-se a si próprio e, a si se descreve, eu vejo algém que não sou eu e, então quem será aquela a quem tiraram o sorriso da cara e deixaram umas trombras maiores que as de um Elfante ? Fala do Natal e me veêm logo à lembrança outros Natais com o cheiro das azevias, filhós, nógado a Missa do Galo o frio da terra de meus pais(e da minha claro, embora não considero que sou de lá e, que lá nasci por acaso, pois tomei Lisboa como minha aos 18 anos) esse frio que cortava como facas sou capaz de o sentir agora e, os madeiros que ardiam na lareira e lá ficaram esses Natais a árvore, o presépio as prendas, ouve outros Natais quando tinha uma linda menina, já lá vai, já lá vai tudo isso, agora nem homem para contar a luz pois tudo ficou reduzido a um quarto de uma casa qualqer onde os dias passam sem deixar perfumee vazios são por companhia os livros esses amigos de sempre que me levam para outros lados que não esses onde me encontro agora. Dt o porqê de me ver tantas vezes retratada em suas crónicas ? O porquê de lágrimas que me veêm aos olhos ao lê-las ? É bruxo Dt ? Então que tal montar um consultório de vidente ? O Dt ficou sem dizer nada ao outro do espelho eu falo sózinha sem espelho e dou a resposta hábito que adquir por estár só por vezes penso: será que sou eu ? Ou o outro eu ? Por muito que lave a cara não adianta/contin

POR DETRÁS DO ESPELHO QUEM ESTÁ ?
margarida douwens (seguir utilizador), 1 ponto , 9:06 | Domingo, 4 de Abril de 2010
( continuação ) por muito que lave a cara não adianta ! Pois de cá cá não saem rastos de rostos que me fizeram sorrir e,outros que me magoaram, todos se foram. Ainda bem bem Dt que ficou com a cara lavada, já não é mau não ! Mas será que não continua a lavar a cara vigorozamente de quando em quando ? Desculpe Dt, mas do que conheço do Sr penso quem sim e, não estarei errada neste meu pensamento ! Dt obrigada, muito obrigada e, bem-haja por tudo o que escreve, suas palavras são bálsamo para mim ! Sabe Dt vou tentar descobrir o café do Paquistanês !
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