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Par ou ímpar

O teu correio

Hoje abri uma carta que não era para mim.

Francisca Cunha Rêgo
10:00 Domingo, 14 de Março de 2010
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Marco de correio
Marco de correio
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Hoje abri uma carta que não era para mim. Não é um costume meu. Aliás, acho mesmo um hábito detestável, esse de nos metermos no correio alheio, muito mais na vida alheia. Mas ela estava ali parada, em cima da minha secretária, junto a outras cartas que tinham o meu nome impresso. E a Otília Peixoto, a secretária de redacção do JL, tinha acabado de me dizer: "Tens correio em cima da mesa". Abri a primeira. Fundação de Serralves: dois desdobráveis. Um sobre As Fúrias, um ciclo de conferências sobre imagens e movimentos sociais em Portugal no século XX; o outro sobre cursos de jardinagem À volta dos Jardins do parque. Abri a segunda. Gulbenkian: um convite para a sessão de encerramento do Ano Internacional da Astronomia 2009, dia 17 de Março. Vi o terceiro envelope. Mas não o abri. Fiquei a olhar para o nome do destinatário alguns segundos. Rodrigues da Silva. Três palavras. O nome profissional do José Manuel Amaral Rodrigues da Silva, o Zé Manel, o nosso editor. Depois sorri. E não é que não me lembre dele muitas vezes, tantas vezes, em tantos dias. Mas ver assim o nome escrito, mesmo à minha espera, em cima da minha secretária tem um embate maior. Como aquela vez (e infelizmente sei que não será a última) que ligaram para o meu telefone a perguntar por ele. E eu tive que dizer o que ainda me custa dizer. Tenho saudades tuas, pá! E tenho coisas para te contar, e filmes e notícias e jornais para comentar contigo. Tenho uma coisa que me apetecia dizer-te. Sei que me ias abraçar, como fizeste quando te disse que me ia casar. Sei que me ias dizer que os bebés são todos iguais e que só começam a ter graça quando falam. Sei que no dia seguinte me ias mandar um dos teus postais. Que ias ficar contente por mim. Por nós. E chateia-me andar a abrir o teu correio.
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A carta...
a.dúvida (seguir utilizador), 2 pontos , 23:59 | Domingo, 14 de Março de 2010
Francisca, acho que a carta era mesmo para si...

Porque há mensagens que só os amigos descodificam e valorizam em determinadas ausências...

E continue a abrir as cartas dele... acho que ele quer que seja a Francisca a fazê-lo. Não acha que ele vai ficar contente? E afinal tem tantas coisas para lhe contar... para comentar com ele.

Francisca, é por isso que devemos dizer aos amigos o quanto eles são importantes para nós... antes de partirem. E não nos privar de lhes dar aquele abraço, fazer as confidências... Afinal ele era um grande amigo. Verdade, Francisca?

Sara
Tem a certeza
jvpaiva (seguir utilizador), 1 ponto , 23:43 | Domingo, 14 de Março de 2010

... de que "a carta" não era para si?

Já pensou que essa carta pode muito bem ser " um dos tais postais que acreditava que (Ele) lhe ia mandar"? e que pode ser Ele a dizer-lhe que está contente? também por si?

Se pensar assim, não se vai "chatear" de voltar e revoltar a abrir "todo o correio" que por "um qualquer engano" lhe chegue à secretária!

Há abraços que só temos de os receber, ...sem nos interrogarmos!

A vida nem sempre é uma linha riscada ponto-a-ponto: também há linhas riscadas a traço-ponto!
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