Hoje abri uma carta que não era para mim. Não é um costume meu. Aliás, acho mesmo um hábito detestável, esse de nos metermos no correio alheio, muito mais na vida alheia. Mas ela estava ali parada, em cima da minha secretária, junto a outras cartas que tinham o meu nome impresso. E a Otília Peixoto, a secretária de redacção do JL, tinha acabado de me dizer: "Tens correio em cima da mesa". Abri a primeira. Fundação de Serralves: dois desdobráveis. Um sobre As Fúrias, um ciclo de conferências sobre imagens e movimentos sociais em Portugal no século XX; o outro sobre cursos de jardinagem À volta dos Jardins do parque. Abri a segunda. Gulbenkian: um convite para a sessão de encerramento do Ano Internacional da Astronomia 2009, dia 17 de Março. Vi o terceiro envelope. Mas não o abri. Fiquei a olhar para o nome do destinatário alguns segundos. Rodrigues da Silva. Três palavras. O nome profissional do José Manuel Amaral Rodrigues da Silva, o Zé Manel, o nosso editor. Depois sorri. E não é que não me lembre dele muitas vezes, tantas vezes, em tantos dias. Mas ver assim o nome escrito, mesmo à minha espera, em cima da minha secretária tem um embate maior. Como aquela vez (e infelizmente sei que não será a última) que ligaram para o meu telefone a perguntar por ele. E eu tive que dizer o que ainda me custa dizer. Tenho saudades tuas, pá! E tenho coisas para te contar, e filmes e notícias e jornais para comentar contigo. Tenho uma coisa que me apetecia dizer-te. Sei que me ias abraçar, como fizeste quando te disse que me ia casar. Sei que me ias dizer que os bebés são todos iguais e que só começam a ter graça quando falam. Sei que no dia seguinte me ias mandar um dos teus postais. Que ias ficar contente por mim. Por nós. E chateia-me andar a abrir o teu correio.