O que começa por ser curioso na comparação entre o Sócrates grego e o Sócrates português é o facto de as próprias diferenças os aproximarem. Repare: o Sócrates grego nunca disse ser sábio. Ao Sócrates português, até lhe atestaram a sabedoria ao domingo
9:30 Quinta, 5 de Agosto de 2010
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"O que há num nome?", perguntou Shakespeare pela boca de Julieta - prática que, a propósito, parece ser extremamente anti-higiénica. Uma rosa, dizia a rapariga que, certamente por perfeccionismo, primeiro fingiu matar-se e só depois se matou mesmo, teria igual beleza e o mesmo cheiro caso tivesse outro nome. É verdade. Se a rosa se chamasse, digamos, bidé, seria igualmente bela, por muito que pudesse ser um pouco embaraçoso oferecer a alguém um lindo ramo de bidés. Mas o Bardo refletiu apenas acerca do objeto que, mudando de nome, mantém as características. Por esquecimento ou preguiça, não se debruçou sobre os objetos que, tendo características diferentes, partilham o mesmo nome. Por exemplo, o que há num Sócrates? Será possível que dois Sócrates diferentes encontrem, no entanto, o mesmo destino? Não deixa de ser inquietante que Julieta não tenha colocado esta questão a Romeu, tendo preferido entreter-se com considerações sobre rosas. Mais sobra para nós, amigo leitor, meditarmos.
O que começa por ser curioso na comparação entre o Sócrates grego e o Sócrates português é o facto de as próprias diferenças os aproximarem. Repare: o Sócrates grego nunca disse ser sábio. Ao Sócrates português, até lhe atestaram a sabedoria ao domingo - facto que leva muitos a desconfiarem de que, na verdade, ele não é sábio. Cá está: ainda que percorram caminhos diversos, confluem num destino comum.
O Sócrates grego era abordado pelas pessoas, na rua, que ficavam a interrogá-lo durante horas. Ao Sócrates português, nem os magistrados do Ministério Público conseguem interrogar durante cinco minutos que seja. Os gregos queriam fazer a Sócrates perguntas tais como: "O que é a virtude?" Os portugueses querem perguntar a Sócrates se ele foi virtuoso, o que, sendo um pouco mais específico, acaba por ser mais ou menos a mesma coisa. Mas o facto de uns conseguirem fazer perguntas e outros não constitui uma diferença importante. No entanto, os gregos anónimos e os magistrados portugueses ficaram igualmente mais perto da verdade: os primeiros porque o Sócrates grego lhes respondia às perguntas com outras perguntas; os segundos porque, uma vez que não perguntaram nada, também não obtiveram resposta nenhuma - o que não deixa de ser justo.
O Sócrates grego - e esta será, talvez, a diferença principal - acabou por ser julgado. Inventaram um pretexto para o julgar e conseguiram levá-lo a julgamento. O Sócrates português nunca entrou num tribunal. E não tem faltado imaginação para inventar pretextos. Mas uma coisa parece certa: ambos os casos terminarão em morte. O Sócrates grego morreu depois de condenado a beber cicuta, e nós morreremos todos antes de conhecer o fim destes processos judiciais.
"Mas o facto de uns conseguirem fazer perguntas e outros não constitui uma diferença importante".
Carissimi,
A expressão "o facto de uns conseguirem fazer perguntas e outros não" serve de sujeito ao predicado "constitui" e "uma diferença importante" é o complemento directo (estou a utilizar, não o TLEBS, mas a antiga nomenclatura). É um longo sujeito q não interessa agora bisturizar.
Ora entre sujeito e predicado, tal como entre predicado e complemento directo, quando contíguos, não existem vírgulas. E vamos lá raciocinar: se a negativa"não" pertencesse a "constitui" q sentido teria a expressão “o facto de uns conseguirem fazer perguntas e outros”? É claro q temos q subentender (e é absolutamente lógico) “e outros não” [conseguirem fazer perguntas].
Aliás, o contexto (o eterno problema do contexto) em q esta frase se encontra não permite qualquer equívoco: já anteriormente se citava "as pessoas" q interrogavam Sócrates- filósofo e "os portugueses" q se ficam apenas pela pretensão de interrogar Sócrates-político, ou seja “uns” e “outros”.
No caso de dúvidas como as q se levantaram a alguns comentadores, a consulta de uma boa gramática é sempre profícua (ou uma consulta ao Cyberdúvidas), até porque se está sempre a tempo de relembrar o q se esqueceu mas de certeza os professores ensinaram.
Adenda: RAP escreve em muito bom português e tem uma apreciável cultura. E sabe usar os recessos da língua e os dados culturais na construção do seu humor subtil. Parabéns,
Lira (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 11:13 | Quinta, 5 de Agosto de 2010
Eu que por defeito ou por #virtude#, no meu primeiro olhar sou inocente e melhoro ou transformo, devido a isso tentei que esse mundo tão cheio de pecado dos deuses gregos não me afectasse a inspiração. Passo a explicar, compus um poema em que cito a terra de olimpo, não obstante ter uma ideia muito vaga e longinqua que por ex, existiam enigmas de serpentes por resolver, que no minimo depois de se morrer é que se acharia a solução para o enigma! Também sons de longe me falavam de Edipo que queria assassinar seu pai para poder casar com a sua mãe e também de mais incestos da parte de deuses que casavam com suas filhas ou vice versa e ainda falta o Baco, o mais devasso de todos. Eu só não consegui perceber muito bem de certeza em que é que isto pode afectar a educação dos gregos, pois dos portugueses já está a tornar-se bastante claro e explicito, mas como não sou uma pessoa injusta também quero louvar principalmente a Deusa do amor, Vénus!
Como não seria lógico dizer "bem vindo", tenho de dizer "bem regressado"!. Mas, RAP, permita-me alterar uma pequena parte do seu excelente texto. Ficaria assim: "O Sócrates grego respondia às perguntas com outras perguntas; o Sócrates português responde habitualmente às perguntas com uma não resposta". Concorda?
Adenda: RAP escreve em muito bom português e tem uma apreciável cultura. E sabe usar os recessos da língua e os dados culturais na construção do seu humor subtil.
Parabéns, fazer humor não é, quase nunca, pôr tudo a rir às gargalhadas mas fazer sorrir e activar a capacidade crítica do receptor.
Peço desculpa se estou a manipolizar o espaço dos comentários, mas eu gosto sempre de, quando o sei, mostrar o lado bom e o lado mau de tudo, porque o que é normal em tudo na vida é enfatizarem sempre mais o mal ou o que é menos favorável e esconderem aquilo que existe de bom, o que tem qualidades. Existem pensamentos e teorias filosóficas de pensadores da idade antes de cristo que são admiravelmente actuais e que nos fazem pensar muito, como se se pudesse pensar que "Atlantida" existiu de facto.
Bom regresso, com uma crónica socrástica, de interesse pela causa das pessoas que finjem que não são, aquilo que toda a gente sabe que são:Uns corruptos.Socrates espera não falar mais sobre este caso, ora bem, quem nunca respondeu a nenhuma pergunta, porque seis anos foi pouco tempo para ouvir um primeiro-ministro sempre a apregoar os seus feitos, e grandezas.Enfim, Socrates, não é sabio, a justiça, sim...
"Mas o facto de uns conseguirem fazer perguntas e outros não constitui uma diferença importante".
Lembra-se do caso da vírgula? Este seu texto mostra como uma vírgula, ou a sua falta, altera todo o sentido de uma texto.
Gostei da tua crónica e ri-me bastante com ela.
Mas também concordo com algumas partes deste significado do seu nome, nos 2 caras que você messe hoje falou, né:
http://www.significado.or... Por fim não sei porque existe política, afinal de contas mesmo que se seja apanhado a roubar, a nossa política liberta as pessoas como podemos ler por aqui:
http://www.cmjornal.xl.pt... o-a-carro
Será que o Sócrates Grego se fosse político assim permitira?
Porque este permite?
Afinal julgamentos é com ele e a liberdade também e depois é tudo verdade, até os crimes contra ao ambiente, daí quem incendeia, é posto em liberdade, pois , ele mesmo cometeu um crime e saiu-se bem e em pura liberdade.
A política limpa muitas pessoas sujas e que mancham a sociedade.
As perguntas, na maior parte das vezes são pertinentes, mas as respostas são: evasivas, mentirosas, ou descabidas e, na maior parte das vezes, nem respostas sequer se obtêm!...
Então em que devo eu acreditar ?
Em quase nada... Sócrates diz o que pode; finge que é muito forte, mas, lá no fundo sabe, tal como eu, que a maioria dos portugueses não acreditam "peva" daquilo que ele quer que acreditem.
Por dedução lógica...
Qual é a verdadeira tragédia de Sócrates?
A mim parece-me que estão todos a tentar corrigir um erro com outro erro. O erro de Ricardo Araújo Pereira não foi não colocar a vírgula; o erro dele foi começar a frase com a palavra "mas". Se tivesse começado assim: "O facto de uns conseguirem fazer perguntas e outros não, constitui uma diferença importante". Com a frase desta forma, a vírgula faria todo o sentido.
Já agora, não sejam tão mesquinhos.
Adorei o primeiro parágrafo, mais literário e menos político que introduz muito bem a relação nome-nomeado, neste caso político-filosófico caricato e sujeito a inspiradas comparações humorísticas. Excelente crónica de RAP, como sempre.
Claro, claro, tem indesmentivelmente uma imensa graça... Mas, quer dizer, o nosso amigo não é particularmente amante de inventonas, pois não? Não me diga que tem especial predilecção por cicutas, crucifixos e algemas, ou será que tem? Reconhece obviamente que, como o da Antiguidade, o nosso "Sócrates" também desbrava, desbarata, como vai podendo, os podres da sua sociedade (sua dele, sua sua, e muito nossa sociedade). Mas então também gramava, paradoxalmente, que lhe imitasse o destino, é isso? Desculpe, mas não quero acreditar. Não deixa no entanto de ser curiosa esta nossa propensão doentia, perceptível como através de filigrana, para suscitar o surgimento de mártires (desta vez da pátria), quando a hora seria uma de regozijo colectivo pela tentativa denodada, e algo conseguida, reconheçamos, de fazer recuar a podridão, não acha?... A malhar por malhar, malhemos nesta última. Agora, malhar num homem de bem, pelo amor de deus, essa não lembra ao demónio.